Familiares de assassinos enfrentam medo e vergonha

Parentes de americanos que cometeram crimes violentos relatam dificuldade para lidar com suas emoções e a vida em sociedade

The New York Times |

Numa recente noite de verão, Maureen White sentou-se sozinha em sua sala de estar para assistir a um DVD que tinha evitado durante muitos anos.

Na tela estava seu irmão mais velho, Richard Paul White, a pessoa que lhe ensinou a andar de bicicleta e que tentou protegê-la do namorado violento de sua mãe quando eles eram crianças. Ele estava confessando o assassinato de seis pessoas.

No final do interrogatório filmado pelos policiais, Maureen White pegou uma lâmina de barbear e começou a cortar sua perna esquerda. "Senti tanta raiva e tantas emoções que não sabia o que fazer", disse White, 34 anos. Quando terminou, ela precisou de muitos pontos.

Richard Paul White, 39 anos, vai passar o resto de sua vida na prisão por três dos assassinatos, dos quais ele se declarou culpado em 2004. Maureen White ainda está tendo dificuldades em lidar com esta situação.

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Debra Kay Bischoff (centro), ex-namorada do criminoso Ronnie Lee Gardner, com a filha Brandie (esq) e a neta Darian (dir)

Assim como familiares de outros criminosos violentos, ela não estava preparada para lidar com o complexo conjunto de emoções e circunstâncias que abalariam sua vida após os crimes de seu irmão. Em tratamento para ansiedade e depressão, entre outras coisas, ela tem pesadelos sobre assassinos em série e atiradores. Ela se assusta com barulhos altos e fica nervosa quando está entre estranhos.

Quase um ano depois de ter visto o vídeo, ela continuou se cortando - algo que nunca tinha feito antes. "Ao me cortar", ela explicou, "busco que as pessoas vejam no lado de fora o quão mal me sinto por dentro."

Em uma sociedade onde as manchetes de violência são comuns, as famílias dos agressores são muitas vezes deixadas de lado. Mas agora alguns familiares decidiram compartilhar suas histórias. Em entrevistas com membros de famílias de diferentes status social e econômico, irmãos, pais, parceiros, primos e filhos de assassinos condenados relataram as dificuldades que tiveram nos anos seguintes ao crime de seus parentes.

De um momento para o outro, suas vidas se tornaram um poço de raiva, vergonha e culpa. A maioria afirma ter ficado impressionada com as acusações e o ostracismo de que foram alvo por crimes que nem sequer cometeram.

No entanto, a maioria dessas famílias ainda mantém contato com seus parentes presos. Nat Berkowitz, pai de David Berkowitz, o assassino em série de Nova York conhecido como o Filho de Sam, disse que regularmente conversa com ele ao telefone, mais de 34 anos depois de sua prisão. "Estou com 101 anos de idade e ainda continuo falando com ele", disse.

Vergonha

No dia 5 de novembro de 2009, 13 pessoas foram mortas e 32 ficaram feridas em Fort Hood, Texas. No dia seguinte, as repercussões chegaram a um pequeno escritório de advocacia em Fairfax, Virgínia. O chefe da empresa, Nader Hasan, é primo do major Nidal Malik Hasan , o homem acusado de perpetrar os ataques. Os dois cresceram juntos no subúrbio de Washington.

"Nossos telefones ficaram completamente mudos", disse Hasan, 42 anos, um advogado de defesa criminal que concedeu uma entrevista em seu escritório ornado por uma grande mesa de carvalho impecavelmente arrumada e uma pintura do Capitólio dos Estados Unidos acima de uma lareira. "Foi devastador, uma vez que dependíamos de referências. Perdi dezenas de potenciais clientes e isso continua acontecendo."

Relatos na internet informaram que os dois homens eram parentes. Uma entrevista que Hasan concedeu a Fox News logo após o tiroteio, em que disse que seu primo "era um bom americano", criou em alguns a impressão de que ele tolerava o ato que seu primo havia acabado de cometer.

Logo depois, um pai que participava de uma disputa de guarda da qual ele estava cuidando abriu uma ação judicial contra Hasan na qual se referiu a ele como "o primo do atirador de Fort Hood”. O indivíduo argumentou que Hasan deveria ser excluído do caso e ressaltou sua ligação com Nidal Malik Hasan.

A petição foi indeferida. Mas durante os primeiros meses seguintes ao tiroteio, Nader Hasan se sentia tão humilhado que praticamente se recusava a aparecer nos tribunais. "Em muitos casos, conseguimos obter uma extensão até o ano seguinte porque eu não queria ser visto no tribunal. Tinha muita vergonha", disse.

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O desconforto afetou também sua vida pessoal. Quando voltou para uma escola local, onde tinha sido assistente de técnico de luta livre de maneira voluntária desde 2000, ele foi convidado a sair por causa de sua ligação com a violência de Fort Hood. Ele então se retirou do cargo.

Em março de 2010 a situação de Hasan estava melhorando. Suas referências melhoraram e sua esposa estava grávida de seu primeiro filho. Mas ele não se sentia confortável em permanecer em silêncio sobre o extremismo religioso que vinha acontecendo. Com um amigo advogado, Kendrick Macdowell, ele formou a Fundação Nawal, em homenagem a mãe de Hasan, e criou um site para encorajar os muçulmanos moderados dos Estados Unidos a denunciar a violência feita em nome do Islã. Não foi uma coisa fácil de se fazer.

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O advogado Nader Hasan, que disse ter perdido trabalhos por ser primo de Nidal Malik Hasan, acusado pelo massacre na base de Fort Hood

"Houve uma tremenda pressão por parte da família para que ele não fizesse nada em público, para não lembrar o mundo de sua ligação com o atirador de Fort Hood", disse Macdowell.

No ano passado, Kerry Cahill, uma mulher de 29 anos que perdeu o pai durante o tiroteio, entrou em contato com Hasan para saber mais sobre a fundação, de cuja mensagem ela havia gostado. Eles se encontraram em sua casa e passaram algumas horas de grande emoção.

Ela disse que Hasan não parava de pedir desculpas pelo que aconteceu e que ela sentiu que ele estava sob muita pressão. Recentemente, ela aceitou o convite para fazer parte da fundação. "Nós dois estamos com raiva por causa da mesma coisa", disse ela.

Remorso

Não foi Debra Kay Bischoff que conseguiu para Ronnie Lee Gardner, um criminoso com um histórico de fugas, a arma que ele usou dentro do tribunal de Salt Lake City para matar um advogado e ferir um dos guardas presentes em uma tentativa frustrada de fuga.

Mas durante os 25 anos que Gardner passou no corredor da morte pelo assassinato de 1985, Debra, que era sua ex-namorada e mãe de dois de seus filhos, sentiu uma certa responsabilidade por grande parte de sua violência, incluindo o assassinato de um barman que o levou ao tribunal.

Debra cita sua decisão de se mudar de Utah para Idaho com sua filha e seu filho para ficar longe de Gardner e começar uma nova vida em 1982 . Embora o amasse profundamente, ele havia se tornado aterrorizador para ela.

No entanto, Debra, agora com 52 anos, afirma: "Sentia um certo remorso por ter me mudado. Eu me perguntava 'E se? E se eu não tivesse me mudado?' Ele acabou enlouquecendo talvez porque tenha nos perdido, perdido as únicas pessoas que amava."

Em uma carta enviada em junho de 2010 para o carcereiro e o conselho de liberdade condicional do Estado implorando pela vida de Gardner cerca de duas semanas antes de sua execução, Debra escreveu: "Ele abriu seu coração para nós e nós o machucamos. Honestamente acredito que ele não aguentou e reagiu de uma maneira violenta para libertar sua raiva e sua mágoa."

O fato de Gardner ter sido morto por fuzilamento - um método que ele escolheu ao invés da injeção letal - a deixou com uma consciência ainda mais pesada. E ela diz que tem dúvidas sobre se seu atual marido sabe o quanto ela amava Gartner.

"Nunca consegui superar o que aconteceu com Ronnie e o que sinto por ele certamente não foi embora com sua morte", disse ela, acrescentando que está estudando serviço social e voluntariado para participar de um programa para ajudar jovens problemáticos a terem uma melhor educação do que a dele.

Debra, seu marido e o filho que ela teve com Gardner, Daniel, 31, moram em uma casa térrea que construíram ao lado de plantações de batata e campos de cereais em um bairro de classe média em Blackfoot, Idaho. Logo após a execução, o irmão de Gardner, Randy, foi autorizado a analisar os tiros no peito para se certificar de que ele havia morrido tão rapidamente quanto as autoridades haviam dito.

"Ter visto o seu rosto e os tiros em seu peito tem me assombrado", disse Randy. "Tenho suores noturnos e pesadelos."

A filha de Gardner, Brandie, 34 anos, que trabalha em uma padaria ganhando US$ 8 por hora, afirma que o fato de que seu pai tenha estado ausente praticamente toda a sua vida a deixou amarga e desconfiada dos homens.

"Queria ter sido a filhinha do papai, mas eu não tive uma figura paterna enquanto eu crescia ou um homem que me amasse durante minha vida. Isso afetou meus relacionamentos", disse Brandie, que foi casada durante 8 anos, mas se divorciou. "Acabei me fechando e me protegendo e por isso não vou me machucar de novo por nenhum homem."

Brandie disse que ela foi para uma clínica de reabilitação para alcoólatras quando tinha apenas 14 anos de idade e, mais recentemente, foi acusada de agressão doméstica após brigar com um homem enquanto estava bêbada. "tenho sido muito destrutiva porque tenho muita raiva dentro de mim", disse.

Logo após a execução, Brandie tentou se suicidar ingerindo uma grande quantidade de comprimidos com cerveja. Ela acabou sendo internada em um hospital por três dias. Menos de um mês depois, estava bebendo Jack Daniels e tomando mais comprimidos.

"A última vez que tentei me matar, honestamente, senti como se já não tivesse mais motivos para viver", disse Brandie, de pé em um quarto que aluga em uma rua arborizada em Idaho Falls. Ela segurava uma caixa de plástico que continha as cinzas de seu pai.

Medo

Desde 18 de agosto de 2005, Robert Hyde tem tomado muito cuidado com os perigos que podem estar presentes além do conforto de sua casa, perto da Universidade do Novo México, em Albuquerque.

Foi naquele dia que seu irmão mais velho, John, duramente castigado por uma doença mental, embarcou em um passeio homicida que durou cerca de 18 horas e deixou cinco pessoas mortas em diferentes regiões da cidade, com dois policiais entre as vítimas.

Hyde nunca havia reconhecido seu irmão como uma pessoa violenta ou cruel. Ele sabia que John - que assim como ele era adotado, mas de pais biológicos diferentes - era um pouco paranóico e estranho, mas não chegava a dizer que John seria propenso à violência. Estar ciente de que John tenha sido capaz de se mostrar uma pessoa tão diferente de uma maneira tão agressiva mudou a forma como Hyde enxerga as pessoas.

"O mundo se tornou um lugar mais obscuro para mim. Fico bem mais nervoso quando saio de casa", disse Hyde, 51 anos, enquanto escutava um pouco de música clássica na sala de estar de sua modesta casa. "Quem saberá dizer quem mais está lá fora que poderia mudar de uma maneira tão drástica como meu irmão?", disse. "Talvez alguém possa fazê-lo."

A primeira vez que Hyde viajou depois do tiroteio, em uma viagem para um lago com sua namorada, eles temiam que outras pessoas pudessem agredi-los. "Foi pura paranoia", disse. "Foi parte de um certo grau de estresse pós-traumático."

Houve também a questão de seu sobrenome. Ele ficava tenso quando seu nome era chamado no consultório de um médico. Seu filho, que estava no colegial quando o tiroteio ocorreu, teve de lidar com provocações desagradáveis de colegas: "Você não vai dar uma de Hyde pra cima de mim, né?"

Não muito tempo depois de John, que hoje tem 55 anos, ter sido preso, ele disse a seu responsável legal que ele queria matar Hyde e seu primo cristão Meuli, um médico recém-aposentado. "Eu estava tão assustado com o fato que John poder ser astuto o suficiente para escapar da prisão que estava preparado para fugir da minha própria casa", disse Meuli, 60 anos. Durante os próximos quatro anos, ele carregou consigo um cartão no qual havia escrito os números de telefone e outras informações importantes de que precisaria no caso de fugir de casa.

Hyde costumava trabalhar no campo de pesquisa de abuso de substâncias e agora ganha a vida vendendo antiguidades e outros bens colecionáveis. Ele tem dedicado parte de seu tempo para falar sobre a necessidade de um melhor acesso aos cuidados de saúde de qualidade comportamental e uma maior comunicação entre os prestadores destes serviços. Ele diz que acredita que tais informações poderiam ter feito a diferença na saúde mental de seu irmão e, possivelmente, na prevenção de seus crimes.

"Tenho tentado me envolver mais nessa questão, mas enão tenho tanto poder assim", disse Hyde. "Meu sobrenome é um obstáculo."

Culpa

Em 2003, a vida parecia promissora para Danyall White, outra irmã de Richard Paul White. Depois de uma infância difícil, tudo parecia estar se encaixando. Ela estava estudando para ser repórter judicial em uma faculdade perto de Denver e tinha um emprego atendendo telefones para uma operadora de TV a cabo.

No entanto, já fazia um ano que seu irmão lhe dizia que havia matado mulheres por todo o Colorado. Mas White, então com 30 anos, muitas vezes "dizia coisas sem sentido", ela lembrou. Ela rejeitou as afirmações mórbidas como apenas fantasias de seu irmão.

Um certo dia, White disse a ela que havia baleado um amigo seu por acidente, outra história que ela considerou imaginária.

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Danyall White, irmã do assassino confesso Richard Paul White, senta em degrau de sua casa em La Junta, no Colorado

Foi então que ele lhe mostrou um artigo de jornal sobre a morte desse amigo. O artigo afirmava que poderia ter sido suicídio, mas Danyall White, imaginando a culpa que os pais da vítima poderiam estar sentindo, decidiu que deveria informar a polícia sobre a afirmação de seu irmão. Ele foi preso por acusações de assassinato em primeiro grau. Logo depois, White confessou o assassinato de cinco mulheres que acreditava serem prostitutas (embora a polícia tenha encontrado os corpos de apenas três delas).

Agora, Danyall White está tendo que lidar com sua própria sensação de culpa. "Não foi apenas a culpa por colocar meu irmão atrás das grades, mas a culpa de ver a vida de todo mundo caindo aos pedaços por causa do que eu fiz, do telefonema que eu dei", disse Danyall, 37. "Alguns membros da minha família me evitavam, e isso fez com que eu me sentisse muito mal."

Logo, disse White, ela encontrou "um amigo e confidente" que nunca a deixou de lado: o álcool. Durante vários anos, seus dias foram acalmados por Jack Daniels e dezenas de garrafas de cerveja.

Após a prisão de seu irmão, White abandonou os estudos e foi demitida do seu cargo porque, segundo ela, a empresa disse que não poderia garantir sua segurança contra ameaças e insultos de seus colegas.

Quando sua mãe morreu, White mal conseguia viver direito. Ela disse que o peso da culpa que sentia desde que entregou seu irmão a levou a tentar suicídio quatro vezes.

Em 2010, White entrou em um programa de reabilitação para alcoólatras e disse que esteve sóbria por 20 meses antes de ter uma breve recaída recentemente. "Não disse a ninguém na reabilitação quem eu era, que era irmã do R.P", disse ela. "Na sobriedade, percebi que estava assumindo a responsabilidade pelas ações de uma outra pessoa. Uma boa parte da culpa que eu sentia diminuiu."

Por Serge F. Kovaleski

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