Falta de seguro saúde leva muitos americanos ao altar

LAKE CHARLES, Louisiana ¿ Foi apenas em fevereiro que Brandy Brady conheceu Ricky Huggins em um baile de carnaval. Em abril, eles decidiram se casar.

The New York Times |

Brandy disse que ama Huggins, mas se preocupa que eles estão indo muito rápido. Ela questiona quão bem eles se conhecem, e quer entender melhor as mudanças de humor dele.

Mas Brandy, 38, também admira muitas coisas em Huggins, três anos mais velho. Ele impressiona Brandy com confiança e carinho. Ele tem um emprego estável como encanador e tem um casa de dois quartos. Talvez, acima de tudo, disse Brandy, que recebeu um transplante de rim ano passado, "ele tem um ótimo seguro saúde". 

Mais que romance, o casal reconhece com prazer que é a apólice do seguro-saúde Blue Cross/Blue Shieldque que está apressando-os a subir no altar.

Em um país onde seguro está fora do alcance de muitos, não é incomum que muitos casais se casem, ou mesmo se divorciem, quando pelo menos uma das partes pode obter ou manter um seguro-saúde.  

Não há maneira de saber quão freqüente essas coisas acontecem, mas advogados e grupos de defesa de doentes dizem que casos assim são comuns.  

Em uma pesquisa conduzida pela Fundação Família Kaiser, grupo que pesquisa políticas para saúde, 7% dos adultos disseram que alguém do seu círculo familiar casou no último ano para ganhar acesso ao seguro. A Fundação alerta que o número pode não ser literal, mas é um intrigante indicador de que alguns americanos "estão tomando decisões importantes baseados em preocupações com a saúde".

Stephen L. J. Hoffman, um padre que realiza casamentos em igrejas de Covington, Kentucky, disse que não se espanta com o fato de um entre 10 casais citar o seguro saúde como uma das razões de estarem no altar. 

"Eles chagam e dizem "vamos nos casar de qualquer maneira, mas agora precisamos muito do seguro", disse Hoffman. "Pode ser uma gravidez não planejada, ou uma doença, ou perderam o emprego e não conseguem seguro saúde".

"Na saúde e na doença"

Apesar de dinheiro e matrimônio estarem conectados desde Gênesis, casar pelo seguro saúde é uma convenção moderna. Para os casais de hoje, "na saúde e na doença" parece mais uma questão contratual que uma questão de amor verdadeiro. Eles se casam pelo melhor e pelo pior, pela riqueza ou pela pobreza, pelos pagamentos conjuntos e pelos descontos.  

Bo e Dena McLain, de Milford, Ohio, fugiram em março para que ele pudesse adicioná-la na apólice de seu grupo, porque a escola de enfermagem dela pedia uma comporvante de seguro saúde. Corey Marshall e Kim Wetzel, que namoraram em São Francisco por 4 anos, adiantaram os planos do casamento em um ano para que ela pudesse se mudar para a apólice dele antes que seu empregador aumentasse os custos do seguro.

Brandy and Huggins admitem que a discussão sobre o casamento foi pautada por análises custo-benifício.

Brandy soube ano passado que tinha uma doença renal em estado terminal e depois de dois anos de hemodiálise recebeu um transplante em maio de 2007. Os gastos médicos continuam substanciais e imprevisíveis. A demanda por hemodiálise a forçou abandonar o emprego que adorava como gerente numa loja da rede Body Shop, e no fim das contas ela perdeu o seguro saúde.

Ela agora recebe da Previdência Social um cheque de US$ 1.181 por mês, e gasta US$ 95 dessa quantia com a Medicare, um seguro saúde federal para idosos e deficientes, que dá seguro a transplantados de rins por três anos.

Mesmo com a Medicare cobrindo 80% dos gastos,  Brandy ainda tem dívidas de centenas de dólares.

Até essa primavera, Brady complementava com uma apólice complementar comprada da State Farm. Em abril, ela recebeu uma notificação de que as tarifas iriam mais que dobrar, passando de US$1.180 para US$2.621.   

"Eu tenho que cancelar", disse Brandy para seu agente. "Estou recorrendo a parentes para poder pagar por isso".

Isso foi quando Brandy e Huggins começaram a conversar sobre casamento. Eles pensaram que ao casar, Huggins poderia adicionar Brandy ao seu grupo de apólice por um preço modesto. Essa apólice, combinada com a Medicare, poderia garantir cobertura completa.  

"Eu disse a ele vamos fazer isso. Nós podemos fazer isso sem família?'" recorda Brandy. "Eu senti que a única maneira de passar por isso era me casando com ele".

Enquanto Brandy pesava suas dúvidas matrimoniais com suas necessidades médicas, o casal mudou de data quatro vezes, mais recentemente para 11 de outubro. Os instintos dela pedem para que ela adie.  Mas cada vez que as contas aumentam, ela se sente pressionada a agir mais cedo, antes que seja tarde.

"Eu o amo e quero que casar com ele", disse Brandy. "Eu só não quero ser forçada a me casar com ele pelas propostas de seguro".  

Huggins só pede que tenha tempo de convidar alguns parentes para a cerimônia. 

"Sei que a amo", disse Huggins, "e sei que quero passar o resto da minha vida com ela. As razões e a rapidez com que fazemos isso são aspectos secundários".

Difícil decisão

Em alguns casos, a necessidade pela apólice pode prolongar casamentos infelizes.

Quando uma mamografia confirmou, em abril de 2007, que Sherri Parish tinha um caroço no seio, ela entrou em pânico não só pela notícia em si, mas também porque ela estava a duas semanas de uma audiência para finalizar o divórcio. Entre os altos e baixos de 20 anos, o marido dela, Jonathan, adicionou-a no seguro saúde da construtora que trabalhava em Noblesville, Indiana. 

"Foi uma época devastadora para mim", disse Sherri Parish. "Eu não sabia ao certo que aconteceria com o prognóstico e com o lado financeiro disso".

Enfermeira e mãe, Parish, 47, tinha pouco contato com o marido depois que se separaram, um ano antes. Por meio dos advogados, Jonathan Parish, 49, foi questionado se poderia considerar um adiamento do divórcio para que pudesse se tratar. Ele concordou.

"Ele não queria me ver sem seguro saúde porque eu nunca tive isso sem ele", disse Sherri Parish. "Ele sempre foi o provedor da casa, e eu sempre trabalhei duas ou três vezes por semana e criei nossos filhos".

Por KEVIN SACK

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