Ex-voluntários do WikiLeaks se arriscam em novo projeto

OpenLeaks emerge das cinzas de uma luta entre Julian Assange e muitos de seus colaboradores

The New York Times |

Enquanto o fundador do WikiLeaks Julian Assange luta contra a extradição para a Suécia onde enfrenta acusações de crimes sexuais, alguns de seus antigos colegas estão criando um site alternativo para os vazamentos de informação que será guiado por aquilo que eles caracterizam como uma visão revisada da transparência radical.

A nova organização, o OpenLeaks, começará a operar no verão deste ano, disse Herbert Snorrason, um programador islandês envolvido no projeto. O site destina-se, disse ele, a evitar a "influência de uma figura única" ao se recusar a lidar com documentos por si próprio. Em vez disso, ele vai agir como um condutor neutro para conectar os vazadores de informação com a mídia e as organizações de direitos humanos.

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Ex-parceiro de Assange no WikiLeaks, Daniel Domscheit-Berg foi um dos palestrantes em congresso sobre computação e internet, em Berlim (29/12/2011)
O OpenLeaks emerge das cinzas de uma luta entre Assange e muitos dos seus colaboradores mais próximos, em setembro passado. Cerca de uma dúzia de membros do WikiLeaks deixaram o site esse mês, acusando Assange de comportamento arrogante e de comprometer o projeto com as alegações de má conduta sexual, o que ele nega. Os desertores, Snorrason disse, decidiram começar seu próprio projeto.

"Não é nenhum segredo que nós tivemos divergências com a forma como o WikiLeaks estava sendo administrado", disse ele. "Grande parte daquilo que esperamos conseguir com o OpenLeaks é evitar esses problemas".

Assange disse várias vezes que vê como sua missão, em parte, aumentar a conscientização a respeito dos vazamentos feitos pelo WikiLeaks, dando a eles visibilidade pública. É uma estratégia que tem mantido os documentos que ele vazou - incluindo centenas de milhares de telegramas confidenciais do governo dos Estados Unidos - nas páginas dos jornais de todo o mundo, incluindo o New York Times. Mas isso também significou que Assange, uma figura carismática com fortes opiniões políticas e uma propensão para o não ortodoxo, frequentemente se tornou a própria história.

Embora os responsáveis pelo OpenLeaks estejam se esforçando para não criticar Assange - e tenham deixado claro que não se veem como seus concorrentes - seus objetivos abordam muitas das farpas dirigidas a ele, o homem que definiu uma nova era de vazamentos em massa online.

Ex-número 2

O novo projeto é, em parte, dirigido por Daniel Domscheit-Berg, um programador de Berlim que já foi vice de Assange. Desde que ele deixou o WikiLeaks em setembro, ele vem trabalhando em um livro que promete revelar "a evolução, as finanças e as tensões internas" do WikiLeaks.

Em uma recente reunião do Club Chaos Computer, uma comunidade hacker de Berlim, Domscheit-Berg disse que o OpenLeaks será neutro e que não dependerá de sigilo como o WikiLeaks faz. Aqueles que buscam a transparência, segundo ele, devem "se expor ao sol e aproveitar que estamos criando uma sociedade mais transparente, não criar uma sociedade transparente se esgueirando nas sombras".

O novo site não deve, ele acrescentou, "conter qualquer preferências pessoais ou políticas, ou antipatias pessoais sobre o que você vai publicar ou o que você não deve publicar".

O OpenLeaks não é o único site inspirado no sucesso do Wikileaks. Dezenas de pequenos sites de vazamento de informações - alguns com foco em temas específicos, como o meio ambiente, ou determinadas regiões - têm surgido nos últimos meses com o objetivo de encorajar as denúncias.

Essa é, talvez, a realização de uma visão publicada por Assange em seu blog em 2006, ano em que fundou o WikiLeaks. Ele imaginou um mundo onde os "vazamentos em massa" deixariam os governos injustos "extraordinariamente vulneráveis a aqueles que buscam substituí-los por formas mais abertas de governança", explicou seu ex-parceiro.

Baixas

Mas o surgimento do OpenLeaks pode ter custado a seu antecessor. Em particular, Assange disse aos repórteres que a onda de deserções prejudicou os complexos sistemas informáticos usados pelo WikiLeaks para processar novas informações e dificultar que governos e corporações descubram a sua origem. Numa coletiva de imprensa em janeiro, em Londres, ele disse que o problema com "mecanismos internos" fizeram com que o site deixasse de ser aberto "para o público”. Ele disse que o site continuará a aceitar material em outras formas, como discos de computador.

Tomado por dificuldades legais, trabalhando em um livro pelo qual ele assinou um acordo que diz valer US$ 1,7 milhões e gerenciando sua fama recém-adquirida, Assange teve menos tempo para se concentrar na reparação dos sistemas, seus amigos disseram.

Mas a sua luta lhe concede o status de uma figura mártir e pode, paradoxalmente, proporcionar-lhe uma melhor plataforma para o vazamento de informações prejudiciais, disse Evgeny Morozov, um pesquisador sobre os efeitos políticos da internet e autor de The Net Dellusion, um livro descrente da capacidade da web de alterar os governos para melhor.

"O motivo pelo qual o WikiLeaks tem sido capaz de funcionar operacionalmente é que eles conseguiram monopolizar a atenção do público", disse ele. “Se alguma coisa acontecer com eles, será uma grande história”.

Desafio

O desafio do OpenLeaks e outros site que esperam imitá-lo, disse Morozov, é fazer com que a infraestrutura da Internet para o vazamento de informações seja mais robusta. Os golpes recente ao WikiLeaks "revelaram o quão fácil é silenciar um editor na era da internet, e quão pequena é a pressão que você precisa colocar sobre um intermediário para retardá-lo", disse ele.

No ano passado várias empresas, como Amazon, PayPal, MasterCard e o banco suíço Swiss Post decidiram parar de oferecer serviços ao WikiLeaks após suas divulgações controversas. Enquanto as editoras tradicionais e bem estabelecidas de vários países têm proteções legais contra os governos que querem sufocar a informação, ele disse, sites como o WikiLeaks e o OpenLeaks operam em território desconhecido.

Falando sobre esses desafios, em um discurso gravado apresentado em um grande comício em  Melbourne, na Austrália, na semana passada, Assange comparou as lutas do WikiLeaks a dos afroamericanos que lutaram pela igualdade de direitos na década de 1950, de manifestantes que buscavam um fim à Guerra do Vietnã nos anos 1960, ao movimento feminista e de ativistas ambientais da atualidade. "Para a geração internet, este é o nosso desafio e este é o nosso momento", disse Assange.

Domscheit-Berg, em seu discurso para os hackers de Berlim, evitou tal retórica sobre o OpenLeaks. Mas foi direto: "Acho que vai ser um processo mais eficaz, um processo mais eficiente".

*Por Ravi Somaiya

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