Extradição de chinês testa disputas diplomáticas de Pequim

Após 11 anos, Canadá envia fugitivo Lai Chanxing para a China, sob promessa de que julgamento será justo

The New York Times |

Em um caso que pode afetar os cidadãos chineses que vivem em países ocidentais, autoridades de segurança da China prenderam seu fugitivo mais procurado no sábado depois que as autoridades canadenses o deportaram, pondo fim a mais de uma década de perseguição.

O fugitivo Lai Changxing, 53 anos, é suspeito de liderar um cartel de corrupção que causou uma grande reviravolta no governo no final dos anos 1990, ao envolver o homem que deve ser escolhido para liderar a China no próximo ano: o vice-presidente Xi Jinping.

Lai é acusado de supervisionar uma rede de contrabando de Xiamen, uma cidade costeira oposta a Taiwan, que rendeu cerca de US$ 10 bilhões antes de ele fugir da China em agosto de 1999. Mais tarde, ele voou de Hong Kong para o Canadá e buscou proteção como refugiado, dizendo que enfrentaria tortura ou morte caso voltasse para a seu país.

AP
Lai Changxing assina mandado de prisão ao desembarcar no aeroporto de Pequim (23/07)

Lai travou uma batalha jurídica de 11 anos para permanecer no Canadá, prejudicando as relações diplomáticas entre as duas nações.

Seu advogado, David Matas, afirmava que tanto o contador quanto o irmão de Lai haviam morrido de causas desconhecidas quando estavam na prisão e que Lai poderia ter o mesmo destino. O sistema legal da China não poderia fornecer-lhe um julgamento justo, sustentava Matas.

Na quinta-feira, um tribunal federal canadense decidiu contra Lai, considerando-o um "criminoso comum" e dizendo aceitar a promessa "clara e inequívoca" da China de não torturá-lo ou executá-lo. Ele foi colocado em um avião para Pequim no dia seguinte e foi preso assim que desembarcou na capital chinesa neste sábado.

As autoridades chinesas também prometeram ao governo canadense que Lai será julgado em público e terá direito a montar uma defesa contra as acusações de contrabando. Na sexta-feira, o Ministério das Relações Exteriores da China saudou a decisão, que coroou anos de exaustivos esforços diplomáticos para ter Lai devolvido à China para ser julgado. Em um comunicado citado pela agência oficial de notícias Xinhua, o Ministério da Segurança do Estado disse que "não importa para onde um suspeito de um crime fuja, ele ou ela não pode fugir das sanções legais”.

Em Pequim, o jornal China Daily informou no sábado que Lai poderia ser condenado a passar a vida na prisão.

Algumas organizações de direitos humanos ocidentais questionaram as garantias da China de um julgamento justo. Nicholas Bequelin, integrante da Human Rights Watch em Hong Kong, disse em uma entrevista que a China provavelmente deverá evitar "flagrantes violações processuais" a fim de mostrar aos países ocidentais que pode tratar de forma justa alguns casos mais sensíveis, como os de separatistas uigures que pedem asilo no ocidente, mas são acusados de crimes na China.

"Este é sem dúvida um caso teste", disse Bequelin. "Isso vai estabelecer um precedente e muito está em jogo".

O caso gira em torno das atividades de Lai na "zona econômica especial" costeira de Xiamen (anteriormente conhecida como Amoy), que estava sob alçada de Xi Jinping quando ele era governador da Província de Fujian. De acordo com relatos da época, a fuga de Lai levou a liderança do país a convocar Xi a Pequim para explicar como um cartel de corrupção elaborado havia se desenvolvido sob o seu nariz.

Lai foi chefe do grupo Yuanhua, que construiu uma torre de 88 andares em Xiamen, bem como clubes e empreendimentos habitacionais. Ele foi acusado de liderar um esquema de US$ 10 bilhões para subornar funcionários aduaneiros na importação de carros e petróleo para a China, evitando milhões de dólares em impostos. Antes de fugir, ele contou com amplo apoio do governo, incluindo uma posição de prestígio em um grupo que aconselha o Partido Comunista sobre a política local.

Lai foi preso pela primeira vez no Canadá um ano depois de ter fugido, em um cassino em Cataratas do Niágara. Desde então, os tribunais canadenses constantemente rejeitaram seu pedido de asilo político, mas se recusaram a enviá-lo de volta para China.

A atmosfera mudou este ano depois que o governo recém-eleito do canadense Stephen Harper enviou seu ministro das Relações Exteriores para a China. Invertendo a posição do governo anterior de crítica quanto à situação dos direitos humanos no país, ele elogiou a China como um aliado estratégico e, referindo-se a Lai, disse que "tanto o povo canadense quanto o povo chinês não têm muito tempo para fraudadores de colarinho branco”.

Por Ian Johnson e Michael Wines

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