Ex-radicais egípcios condenam a jihad em nome da democracia

Prisioneiro mais famoso do Egito, Abboud al-Zomor aposta no futuro decidido nas urnas e não vê necessidade de recorrer à violência

The New York Times |

Abboud al-Zomor, ex-oficial da inteligência que forneceu as balas que mataram o presidente Anwar Sadat e é o prisioneiro mais famoso do Egito, fala com entusiasmo sobre acabar com a jihad violenta que ele já liderou.

"No fim, são as urnas que vão decidir quem vai ganhar", disse Zomor em uma entrevista concedida na ampla propriedade de sua família no povoado de Nahja na margem oeste do Cairo. "Não há mais necessidade de usar a violência contra quem nos deu a nossa liberdade e nos permitiu fazer parte da vida política".

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Abboud al-Zomor, ex-oficial de inteligência egípcio que forneceu as balas que mataram o presidente Anwar el-Sadat
Em seus esforços para criar um Estado islâmico perfeito, o seu Grupo Islâmico e outros já foram sinônimo de sangrentos ataques terroristas no Egito. Mas agora eles estão adotando o movimento da democracia, alarmando aqueles que acreditam que os radicais religiosos estão tentando colocar a estrita lei islâmica em prática através das cédulas.

O aspecto mais surpreendente da campanha islâmica foi a energia investida por organizações religiosas que antes condenaram o processo democrático como uma inovação infiel do Ocidente, que buscava minar as leis de Deus.

Al-Zomor, 64, emergiu como porta-voz de alto escalão para essa mudança desde que foi libertado da prisão no dia 12 de março. Ele e outros salafistas, ou fundamentalistas islâmicos, estão entusiasmados em fundar partidos políticos e alianças com a mais centralizada Irmandade Muçulmana para maximizar o voto dos religiosos.

O movimento salafista é inspirado na escola puritana Wahhabi do islã, que domina a Arábia Saudita, cuja grande mufti (capacidade de interpretar as leis islâmicas) apresentou uma fatwa (pronunciamento religioso) condenando as revoltas árabes como uma conspiração do Ocidente para destruir o mundo islâmico. Mas uma série de filosofias existe sob a égide Salafi, que vão desde grupos apolíticos que falam apenas sobre os benefícios de ser um bom muçulmano para a Al-Qaeda de Osama Bin Laden. Ayman Al-Zawahri, o segundo no commando da Al-Qaeda, é um salafista egípcio.

Alguns egípcios estão convencidos de que o governo libertou presos como Al-Zomor como uma espécie de bicho papão – para assustar o país sobre a possível desvantagem da democracia. Al-Zomor disse que a violência salafista foi apenas uma reação à repressão do governo do presidente Hosni Mubarak, mas ele chocou muitos egípcios ao defender punições como a amputação das mãos dos ladrões. "Alguém quer dar a impressão de que a democracia vai trazer o pior para o Egito", disse Hossam Tammam, um especialista em grupos salafistas.

Ele acha que a ameaça é exagerada, mas observou que os salafistas seriam prejudicados na participação política porque não aceitam a ideia de que todos os cidadãos egípcios devem gozar de direitos iguais. O modelo salafista é baseado em califados islâmicos medievais, onde as minorias são protegidas, mas têm de pagar impostos para ter o privilégio, e são proibidas em cargos do governo ou das forças militares, ele disse.

*Por Neil Mac Farquhar

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