Expulsões de palestinos aumentam tensões em Jerusalém

Famílias palestinas vendem ou perdem posse de propriedades, cujos terrenos passam a abrigar construções israelenses

The New York Times |

Policiais israelenses expulsaram uma família palestina de sua casa em um bairro predominantemente árabe de Jerusalém nesta semana e um grupo de colonos judeus se mudou para a propriedade à noite.

O episódio tocou em um dos quesitos mais sensíveis na relação entre israelenses e palestinos em um momento de tensão crescente no qual o governo Obama está trabalhando para retomar as negociações de paz. Tais expulsões atraíram condenação internacional no passado.

A família Karain, palestina, perdeu uma batalha jurídica pela posse da casa. Eles disseram que a propriedade havia sido vendida a colonos ilegalmente e sem o seu conhecimento por um parente, Ali Karain, que era co-proprietário do imóvel e que já morreu.

AP
Palestina passa por construções em Jerusalém Oriental, ponto de tensão e impasse para negociações de paz
Os tribunais de Israel confirmaram a venda cerca de seis meses atrás.

Após a expulsão, os membros da família permaneceram na rua e em um telhado vizinho, enquanto israelenses protegidos por policiais armados instalaram câmeras de segurança e vedaram as janelas e varandas do edifício com placas de madeira e arame farpado.

"Meu tio morreu há quase dois anos", disse Fadi Karain, 21anos, que está estudando para ser professor em uma faculdade de Israel predominantemente judaica em Jerusalém. "Um mês depois que ele morreu, ouvimos os oficiais de justiça dizerem que a casa tinha sido vendida".

Colonização

Ele disse que os novos proprietários são associados ao Elad, um grupo que promove a colonização judaica em áreas árabes de Jerusalém, e particularmente em Silwan.

A tomada da casa dos Karain irá representar um novo momento para os assentamentos judaicos na cidade. O edifício de pedra de três andares está encravado entre outras casas em uma encosta íngreme na seção Farouk do bairro de Jebel Mukaber, com uma vista panorâmica da Cidade Velha, da Mesquita de El Aksa e do Domo da Rocha. Esses santuários ficam sobre o planalto reverenciado pelos muçulmanos como o Santuário Nobre e pelos judeus como o Monte do Templo.

Esculpido em uma laje de pedra na parede da casa está a imagem do Domo da Rocha e as palavras "Al mulk lillah" ("Tudo pertence a Deus", em árabe).

Um voluntário judeu que estava ajudando a preparar a casa para os seus novos moradores disse estar agindo por "sionismo". Os israelenses têm o direito de viver e comprar um imóvel em qualquer lugar em Jerusalém, capital de Israel, ele disse.

Tensão

A questão da construção israelense na parte judaica de Jerusalém Oriental, tem sido uma fonte de tensão nos últimos meses entre Israel, os palestinos e os Estados Unidos. Colonos judeus estão avançando cada vez mais em bairros predominantemente árabes, aprofundando a confusão sobre a futura forma da cidade.

Israel anexou Jerusalém Oriental logo após capturar a região e a Cisjordânia da Jordânia, na guerra de 1967. A anexação nunca foi reconhecida internacionalmente e os palestinos reivindicam o território como a capital de um futuro Estado independente. Mas muitos israelenses consideram que Jerusalém pertence inteiramente a Israel.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, teve recentemente uma troca de farpas acentuada com o governo Obama na qual seu gabinete divulgou uma declaração defendendo a construção judaica em Jerusalém, dizendo: "Jerusalém não é um assentamento, Jerusalém é a capital do Estado de Israel".

Nos últimos anos, os assentados despejaram palestinos e tomaram várias casas em Sheikh Jarrah, uma área cobiçada perto da Cidade Velha, depois de os tribunais israelenses, incluindo o Supremo Tribunal Federal, confirmarem as decisões tomadas desde 1970 que afirmam que as propriedades pertenciam inicialmente a judeus.

Ativistas do grupo Solidariedade Sheikh Jarrah estavam em Jebel Mukaber na terça-feira ajudando a família Karain a remover caixas de alimentos e alguns pertences da casa.

Proposta

O grupo emitiu um comunicado dizendo que o objetivo do novo acordo foi "sem dúvida, minar os fundamentos da Proposta Clinton de 2000, ou seja, a divisão de Jerusalém em duas capitais", referindo-se a uma ideia lançada pelo então presidente americano, Bill Clinton.

Na fronteira superior de Jebel Mukaber, dezenas de famílias judias agora vivem em um empreendimento privado judaico, o Nof Zion, construído em terreno que foi comprado por um colaborador de Israel.

Udi Ragones, um porta-voz da Elad, disse que a casa Karain foi comprada há alguns anos por uma companhia estrangeira chamada Lowell. Ragones não reconheceu nenhum papel direto do Elad na compra do imóvel, mas disse que houve contato entre o grupo e os compradores.

Mas grupos como o Elad, também conhecido como Cidade de Davi, são conhecidos por usar empresas estrangeiras para comprar propriedades em Jerusalém Oriental. Eles dizem que têm de trabalhar de forma discreta, a fim de proteger os vendedores palestinos cujas vidas estão ameaçadas por outros palestinos que se opõem a tais negócios.

*Por Isabel Kershner

    Leia tudo sobre: oriente médiopalestinosisraelárabesisraelnetanyahu

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG