Exposição conta história do Movimento pelos Direitos Civis em imagens

ATLANTA - Se houve uma época em que as mudanças sociais foram impulsionadas por fotografias, então foi durante o movimento pelos direitos civis. Ônibus em chamas e cacetetes em riste, cães policiais rosnando e mangueiras disparando jatos dágua, a jovem negra de meias rendadas zombada por um grupo de garotas brancas quando tenta entrar na escola - as imagens geraram um reconhecimento nacional de forma que palavras não fariam.

The New York Times |

Por trás das fotos estão histórias de equipamentos destruídos e jornalistas espancados, de ativistas que seguiram para o sul e amadores que pegaram câmeras pela primeira vez. "Pulsar da Raça: A Imprensa, a Luta pelos Direitos Civis e o Despertar de uma Nação", um livro de Gene Roberts e Hank Klibanoff, que recebeu o prêmio Pulitzer de história no ano passado, traça a cobertura da mídia sobre o movimento em detalhes comoventes. Agora o High Museu de Arte estreou uma grande exposição que revela muitas imagens daquela era, juntamente com a luta dos fotógrafos que as registraram.

Atlanta, onde muitos leões do movimento ainda vivem (e onde o primeiro neto do reverendo Dr. Martin Luther King Jr. nasceu em maio), parece o lugar certo para a reunião de imagens de alta qualidade daquela época. Quando Julian Cox entrou para a equipe do museu como curador de fotografia em 2005, ele encontrou o princípio dessa coleção, cerca de 25 impressões. Desde então ele ampliou a coleção para mais de 325 imagens.

Surpreendentemente, a exposição, intitulada "Road to Freedom: Photographs of the Civil Rights Movement 1956-1968" (Caminho para a Liberdade: Fotografias do Movimento pelos Direitos Civis 1956-1968) é a primeira em um grande museu, disse Steven Kasher, comerciante de imagens fotográficas e curador de Nova York, além de autor da história fotográfica do movimento.

"Pesquisar a fundo a história fotográfica do movimento civil e pesquisar algo novo que possa ser contado, isso é inédito", disse Kasher.

Mas além de reunir fotografias de eventos cruciais como a marcha de Selma a Montgomery no Alabama, os ataques policiais a manifestantes pacíficos em Birmingham e o boicote aos ônibus em Montgomery, a exposição  mostra também o quanto a história esteve perto de se perder. Uma série de imagens, de um ônibus Greyhound atacado perto de Anniston durante a Marcha pela Liberdade em 1961, foi mantida durante décadas no arquivo de uma companhia de advocacia como possível evidência.

Outro grupo de imagens,  incluindo uma de uma fileira de coquetéis Molotov, vieram da filha de um detetive policial de Birmingham. Cox ficou sabendo dela por acaso.

Vicki Wilson Hunt, afirmou que enquanto Cox olhava a foto ela confessou achar que se tratasse apenas de garrafas de cerveja enfileiradas. Seu pai, Lonnie J. Wilson, nunca falou sobre as disputas raciais que atingiram Birmingham quando ela era criança. Com o tempo, ela aprendeu mais, mas disse que seu "coração não sofria com isso, por algum motivo".

Então ela foi à exposição antes da inauguração. "Tiveram que me expulsar do museu porque eu li cada uma das legendas e chorei", ela disse.

Nos meses de organização da exposição, Cox percebeu que não era fácil encontrar boas impressões feitas na época em que as imagens foram registradas.

"A maioria dos fotojornalistas não têm os originais porque assim que elas eram registradas eles as enviavam para a redação", para cumprir os prazos, ele disse.

Cox garimpou arquivos, comprando imagens de organizações de notícias, inclusive do The New York Times. Mas com isso enfrentou outro problema: alguns fotógrafos não puderam ser identificados. Em outros casos a autoria podia ser identificada, às vezes com a ajuda de arquivadores, mas os fotógrafos não eram localizados.

Na exposição, tais imagens, incluindo uma em que uma mulher negra carregando um cartaz que diz: "A Imagem de Atlanta é uma Fraude" enquanto enfrenta dois homens vestidos com roupas da Klu Klux Klan, são legendadas como  de "fotógrafo desconhecido".

Além dos melhores fotojornalistas da época, a exposição inclui obras de fotógrafos do movimento, fotógrafos de arte e amadores, que Cox pediu para consultar os seus arquivos. O resultado é uma exposição que mostra também o fôlego de um movimento que reverenciava seus líderes, mas dependia de seus ativistas menores, que orquestravam milhares de atos de resistência que não aparecem em livros de história.

As imagens de Danny Lyon, que trabalhava na Coordenação do Comitê Estudantil Contra a Violência, mostra um grupo de jovens negras, algumas ainda adolescentes, presas em condições subumanas em um armazém rural depois de detidas durante um protesto na cidade de Americus. A foto foi mostrada no Congresso e ajudou a libertar as garotas, Cox escreveu no catálogo da exposição.

Uma imagem de 1956 de Joe Scherschel, tirada em Texarkana, Texas, mostra um casal negro encostado num carro com seus livros escolares. No horizonte uma fila de manifestantes brancos ameaçadores.

A dignidade diária do movimento é retratada nas fotografias de Doris Derby de clínicas de saúde a colheitas. Derby, uma professora, se mudou para o Mississippi de Nova York para trabalhar como secretária de campo do comitê de coordenação e passou a organizar programas de alfabetização para adultos, fundou uma companhia teatral e ajudou a organizar uma cooperativa que ensinou as pessoas a documentar suas vidas com câmeras fotográficas e filmadoras. Ela tem um arquivo de milhares de negativos que documentaram a região do Delta do Mississippi e o movimento de mulheres. Derby é diretora do serviço estudantil para afro-americanos e programas na Universidade Georgia State e vive num subúrbio em Atlanta, em uma casa cheia de fotos e obras africanas.

"As pessoas se levantaram e falaram por si mesmas", ela disse, mostrando uma imagem de uma mulher em uma reunião, lendo um papel e vestindo o que deve ter sido seu melhor vestido. "Pessoas que haviam sido humilhadas, que antes não podiam dizer nada se levantaram e eu queria registrar isso".

Por SHAILA DEWAN

Leia mais sobre: Movimento pelos Direitos Civis

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG