Ex-funcionários relatam caos na campanha de Herman Cain

Enquanto promove suas 'habilidade de gestão', pré-candidato republicano à presidência dos EUA comete erros

The New York Times |

Se Herman Cain sente que suas habilidades de gestão estão acima de qualquer desafio, alguns de seus ex-funcionários acham que ele deveria ter começado com a desordem de sua própria campanha.

Cain praticamente não passou pelos Estados de New Hampshire e Iowa, segundo os ex-funcionários, gastando a maior parte de seu tempo em uma excursão para a promoção de seu livro no sul do país. Ele ocasionalmente lida de maneira incorreta com grandes doadores potenciais ou ignora eleitores. Sua campanha passa por cima da equipe de baixo escalão e na semana passada anunciou a nomeação do veterano Steve Grubbs como seu líder para o Iowa em quatro meses. Até mesmo adesivos têm sido difíceis de conseguir.

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Herman Cain se prepara para entrevista na TV em Harriman, no Tennessee (15/10)

A campanha de Cain tem gerado muita promessa desde que teve início no verão americano. Um ex-executivo de negócios sobe de maneira surpreendente do anonimato para o topo das pesquisas eleitorais, utilizando a força de sua oratória, o encanto popular e atraentes planos políticos.

Mas a campanha de Cain pode ter menosprezado a si mesma com decisões questionáveis e uma série de erros que levaram à impressão de que o candidato não tem foco e preparo. Cain fez várias observações contraditórias e muitas vezes atordoantes sobre as políticas para o aborto e a imigração, algo que o obrigou a passar dias esclarecendo e defendendo suas opiniões.

Na semana passada, um vídeo da campanha publicado online virou uma piada instantânea. Cain enfrentou perguntas sobre se o vídeo era uma paródia, dada a sua baixa qualidade de produção e aparente mensagem pró-fumo (no vídeo, o gerente de campanha de Cain dá uma longa tragada em seu cigarro e o candidato sorri).

Todos os candidatos presidenciais cometem erros – incluindo candidatos experientes como Mitt Romney – e a corrida eleitoral é caótica e indisciplinada por natureza. De sua parte, a campanha reconhece que tem sido difícil acompanhar o explosivo crescimento da popularidade de Cain. "Estamos trabalhando para fazer tudo isso acontecer", disse o porta-voz J. D. Gordon.

Mas entrevistas com antigos funcionários, voluntários e partidários de Cain oferecem um vislumbre de um candidato que pareceu mostrar ambivalência em relação à gestão básica de uma campanha, o que levou a problemas na contratação, agenda, mensagens e angariação de fundos.

Juntos, esses problemas estão em desacordo com o tema central de sua candidatura. Como Cain não têm um histórico legislativo ou político, sua campanha se baseia fortemente no argumento de que ele traria comprovados conhecimentos do mundo dos negócios.
Vários ex-funcionários da campanha disseram ter sido orientados a não falar com repórteres. Dois disseram que tinham assinado acordos de confidencialidade, uma exigência rara em campanhas políticas.

Cain, ex-executivo-chefe da Godfather’s Pizza, anunciou que vai aumentar o número de funcionários em Iowa e New Hampshire, bem como o número de suas aparições nos Estados de votação antecipada. Cain tem agora um total de seis funcionários remunerados trabalhando em Iowa e New Hampshire, com 44 outros trabalhadores em todo o país.

Alguns ex-assessores disseram que desejavam ver o lado solucionador de problemas de Cain, ou simplesmente ver Cain. Durante a primavera e o verão, ele não passou muito tempo com os funcionários da campanha. Ele não planejou chamadas em conferência ou reuniões de equipe e mudou de ideia sobre aparições, às vezes com pouco tempo de antecedência, uma tendência que irritou os partidários.

"Foi frustrante porque não conseguíamos trazê-lo aqui tanto quanto eu fui levado a acreditar que ele iria estar aqui", disse Kevin Hall, que trabalhou para Cain em Iowa, em junho.

"Tudo o que tentávamos fazer tínhamos que arrancar os dentes para conseguir", disse um funcionário antigo de Iowa, que pediu anonimato. "Eu nunca estive envolvido em um trabalho que fosse tão frustrante como este. Não conseguíamos uma resposta sobre nada. Tudo era desencontrado."

Alguns dos funcionários de Cain se irritaram com a sua devoção à divulgação de seu livro de memórias recém-lançado, "This is Heman Cain! My Journey to the White House” (Este é Herman Cain! Minha jornada até a Casa Branca, em tradução livre). Sua turnê para a promoção do livro o levou principalmente a viajar pelo sul do país, onde as primárias não serão realizadas até fevereiro, no mínimo. A campanha disse que a turnê ajudou a impulsionar o reconhecimento do seu nome e tem sido "muito bem sucedida”.

Nem todos concordam. "Essa abordagem alienou alguns de seus ex-funcionários", disse Chris Buck, um estrategista republicano não afiliado de New Hampshire, que disse ter considerado trabalhar para a campanha de Cain este ano, mas que mudou de ideia.

Abrir comitês também foi uma espécie de provação. "Quando eu dizia às pessoas: 'Você vai receber escritórios e linhas de telefone’ eu precisava ir lá e retirar o que disse”, afirmou o ex-funcionário de Iowa. "Era como se estivessem concorrendo à presidência da sala de aula". Hall acrescentou: "Não conseguíamos nem mesmo ter os nossos próprios endereços de email para a campanha”.

Funcionários da campanha de Cain afirmam que suprimentos básicos, como placas e adesivos para carros, são difíceis de encontrar. Em muitos casos eles têm que comprar por si próprios, disse Donald L. Overman, um comerciante aposentado que é voluntário fiel da campanha em New Hampshire.

Problemas de gestão atingiram eventos importantes. Em julho, o empresário e integrante do movimento Twa Party, Bill Hemrick, convidou cerca de 200 amigos para o Standard Club em Nashville, no Tennessee, para conhecer Cain. Hemrick disse que a campanha de Cain havia pedido a ele para servir como seu presidente financeiro para o Tennessee.

Depois de falar para a multidão, Cai deveria participar de um jantar no clube privado para um seleto grupo de conservadores, que estavam em condições de doar até US$ 2,5 mil.

Mas Cain esqueceu ou seu pessoal simplesmente não conseguiu implementar a ação. Após o discurso, Cain ligou para agradecer Hemrick pela noite. "Eu disse, 'vou te ver lá em cima’", lembrou Hemrick, onde os doadores em potencial haviam se reunido. “Ele disse: 'Bem, eu estou no aeroporto’. Eu pensei: ‘Uau, boa comunicação’", contou.

Hemrick, um dos fundadores da empresa Upper Deck, disse que pouco tempo depois a campanha de Cain nomeou outra pessoa como seu presidente financeiro para o Tennessee – algo que ele soube primeiro pela pessoa que o substituiu.

Hemrick, que agora é um arrecadador de fundos para a pré-candidata republicana Michele Bachmann, gosta do conservadorismo de Cain e diz não ter ressentimentos. Mas ele ficou um pouco intrigado com a falta de atenção do candidato aos detalhes.
"Este é o seu primeiro rodeio, e as pessoas cometem erros", disse Hemrick. "Mas eu gostaria que ele tivesse me ligado para dizer: 'Bill, vou contratar outra pessoa’. Ele nunca fez isso."

À medida que os meses se passaram e Cain continuou a subir nas pesquisas, sua atitude em relação à política parece não ter mudado muito. "Ele não pode estar em toda parte ao mesmo tempo, mas estamos fazendo tudo que podemos da melhor maneira possível", disse Gordon, o porta-voz.

Em uma viagem ao Iowa na semana passada para participar do Fórum Fé e Liberdade, uma reunião de conservadores evangélicos, Cain ficou em seu ônibus de campanha até a hora de subir ao palco, enquanto outros candidatos trabalhavam a multidão. Logo depois que terminou de falar, foi embora.

Por Susan Saulny

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