Exército usa videogames e simuladores para recrutar soldados nos EUA

FILADÉLFIA - Em meio às compras de última hora, uma voz de dentro do simulador de helicóptero Black Hawk gritou com uma urgência que foi ouvida acima do frenesi da multidão. Inimigo à direita! Inimigo à direita!

The New York Times |

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Gatilhos foram pressionados. Pixels explodiram. As compras podiam esperar.

No shopping Franklin Mills, do lado da Gap e da China Buddha Express, está um centro de videogame de US$13 milhões que o Exército espera usar como modelo para o recrutamento em áreas urbanas, nas quais o serviço militar tem dificuldade em atrair soldados.

O  Army Experience Center (ou Centro de Experiência do Exército, em tradução livre) concorre com a experiência comercial: 1.347.09408 m2 de jogos de tiros e simuladores de voo, incluindo um helicóptero AH-64 Apache, um Humvee blindado e um helicóptero Black Hawk com rifles M4. Para quem quiser levar a experiência ainda mais longe, o centro têm 22 recrutadores. Para contatos imediatos com o caos basta seguir para as lojas.

O centro de jogos, que foi inaugurado em agosto, é o primeiro da espécie. Ele substitui cinco postos de recrutamento menores na região da Filadélfia, ao mesmo custo operacional, sem contar as despesas iniciais, disse o major Larry Dillard, gerente do programa. A Filadélfia sempre foi uma região de difícil recrutamento.

O Exército recrutou 80,517 soldados ativos no ano fiscal que terminou em outubro, pouco mais do que seu objetivo de 80 mil, apesar de nos anos recentes ter ficado abaixo de seu objetivo de conquistar 90% dos formandos do Ensino Médio.


Uma das lojas do Army Experience Center / NYT

Nos últimos anos, o Exército tentou de diversas formas aumentar o alistamento, inclusive através de videogames domésticos, marketing direto, presença online e vídeos musicais. Em 2007 o setor concedeu um bônus de até US$2 mil para os reservistas que indicassem novos recrutas. Enquanto isso, libertários civis criticaram o Pentágono por sua tentativa de recrutar estudantes do Ensino Médio.

Mas enquanto o recrutamento permanece forte em zonas rurais perto das bases militares, continua fraco em cidades como a Filadélfia, disse Dillard. "A questão é, como levar nossa história aos centros urbanos nos quais a maioria da população vive, mas onde não temos grande presença?", ele questiona. Segundo ele, o centro não recruta ninguém com menos de 17 anos.

Em uma tarde recente, cerca de uma dezena de possíveis recrutas experimentava os simuladores e videogames gratuitos como "Madden Football" e "Rainbow Six: Vegas."

Mikel Smith, 19, e Jovan McCreary, 21, se sentaram em estações do jogo Alienware, manobrando tropas antiterrorismo do Rainbow Six através de uma série de cassinos sob ataque. Explosões eram vistas nas telas, sons ecoavam de seus fones.

"Nós só queremos jogar os jogos", disse Smith, que disse não considerar a possibilidade de se alistar no Exército. Na mesa de alistamento, na qual visitantes preenchem informações e recebem cartões de identificação, ele disse que não gostaria de ser contactado por um recrutador.

Do lado de Smith, McCreary se encostou na cadeira. "Eu tenho este mesmo jogo em casa, mas aqui é melhor", ele disse. Ele também não tem interesse no Centro de Experiência do Exército por outro motivo. "Nós vamos para a faculdade no próximo ano", ele disse.

O primeiro sargento Randy Jennings, oficial supervisor daquele dia, disse que a intenção do centro não é apenas recrutar soldados mas também informar os jovens sobre o Exército, em uma área na qual eles têm pouco contato com membros em serviço. A maioria dos recrutas vive perto de bases rurais.

Se o programa for bem sucedido, o Exército pode usa-lo em outras cidades.

"Nós queremos por pessoas no Exército, mas essa é nossa terceira prioridade", disse Jennings, mostrando um quiosque com a descrição de 179 empregos no Exército, com informações sobre salários e benefícios. "A maioria das pessoas pensa que se alistar significa apenas ir ao Iraque e morrer. Nós tentamos mostrar que o Exército é mais do que carregar uma arma. Se as pessoas vierem aqui e aprenderem isso sem se alistar, tudo bem".


Simuladores dos Army Experience Center ganham adeptos / NYT

A maioria da equipe (tanto de civis quanto de militares) usavam roupas casuais e não pressionavam os visitantes. As conversas com os recrutadores podem acontecer em uma sala adjacente ou no saguão principal, onde há cadeiras de couro confortáveis e músicas de bandas como Jane's Addiction e Red Hot Chili Peppers. Mas nesta tarde, a única ação acontecia nos videogames e simuladores.

Os três simuladores mostram missões de apoio à entrega de suprimentos humanitários no Iraque e Afeganistão e, ao contrário dos videogames, não há troca de tiros.

Nos últimos anos,  o Exército teve muito sucesso no uso de videogames para atrair recrutas. Mas para o centro, os resultados têm sido pouco espetaculares. Desde que abriu, cerca de 35 jovens se alistaram. O número é um pouco menor do que índices de recrutamento anteriores nos cinco centros separados, disse Jennings, em um momento em que a crise econômica deveria fazer com que mais pessoas se alistassem.

"Nós não estamos a ponto de dizer que a estratégia é eficaz", disse Dillard, acrescentando que o Exército não determinou um valor numérico para o sucesso do centro.

"Não seremos medidos pelo número de pessoas que colocarmos no Exército", disse Jennings. "Podemos dizer que somos um laboratório de experiência para os militares, uma forma de interação com os jovens para descobrirmos o que lhes interessa. As pessoas vão para o Exército, com ou sem essa iniciativa".

Por JOHN LELAND

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