Ex-detento que vive na França descreve o tempo que passou em Guantánamo

PARIS ¿ Um ex-detento de Guantánamo, um algeriano que conseguiu um novo lar, na França, afirma que foi interrogado no centro de detenção de Cuba por 16 noites seguidas em 2003 ¿ pelo menos da meia-noite às cinco da manhã ¿ e que recebeu alimentação forçada por um tubo nasal durante mais de dois anos, quando fez greve de fome.

The New York Times |

O algeriano Lakhdar Boumediene, 43, é o único detento de Guantánamo, até o momento, que o presidente da França, Nicolas Sarkozy, aceitou receber para ajudar a administração Obama a fechar o centro.

Boumediene foi capturado em 2001 na Bósnia e entregue aos oficiais americanos. Ele foi mantido em Guantánamo de janeiro de 2002 a 15 de maio deste ano, como o suspeito de terrorismo número 10.005, quando foi libertado e mandado para a França. Ele foi mantido sob observação em uma clínica militar francesa até esta segunda-feira, quando apareceu e contou alguns detalhes de sua história ao Washington Post e ao Le Monde, que os publicou na terça-feira.

Número 10.005 era meu nome lá, disse. Era como me chamavam. Nunca Lakhdar ou Boumediene, contou ele ao "Le Monde". Ele disse ter passado por mais de 120 interrogatórios, a maioria sobre muçulmanos estrangeiros na Bósnia, antes de parar de cooperar com seus interrogadores. Os detalhes de seu tratamento não puderam ser confirmados. Ele foi pleiteado em um caso da Suprema Corte, em 2008, Boumediene contra Bush, que deu aos detentos o direito de pedir revisão judicial. Mais tarde, ele foi libertado pelo juíz da Corte Federal dos EUA, em Washington.

Boumediene é um dos cerca de 60 detentos que os americanos consideram ser seguro libertar, mas Washington está encontrando dificuldade em mandá-los para outros países.

Quando Boumediene era assistente da Lua Crescente (correspondente a Cruz Vermelha nos países árabes), originalmente suspeitou-se de que ele fazia parte de um complô para explodir as embaixadas americana e britânica em Sarajevo, mas as acusações foram retiradas. Ainda assim, ele foi mandado para Guantánamo por mais de sete anos e foi interrogado sobre suas conexões com outro algeriano, Belkacem Bensayah, acusado por investigadores de ser um operante da Al Qaeda na Bósnia.

Bensayah veio ao seu escritório na Luz Crescente, e Boumediene ajudou sua família, de acordo com o Post.

Durante o período de 16 noites, Boumediene disse que seis ou sete interrogadores revezavam turnos para questioná-lo, da meia-noite às cinco da manhã, retomando poucas horas depois. Ele insistiu ao Le Monde que nunca fui um islâmico.

Após sua liberação do hospital, Boumediene, magro e barbudo, se juntou à esposa e às duas filhas, 13 e 8, para almoçar pizza e suco de laranja. Claro que eu não as reconheci, disse.


Por STEVEN ERLANGER

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