Europa precisa balancear a necessidade pela Rússia com o desconforto pelo Putin

PARIS ¿ Os ministros das relações exteriores irão se reunir, na terça-feira, para um encontro de emergência sobre a crise da Geórgia, mas a Europa está dividida em como balancear seus laços com a Rússia e as preocupações com a nova agressividade do país.

The New York Times |

O dilema europeu é claro, disse Clifford Kupchan, diretor do grupo Eurásia, uma firma de consultoria em Washington. Como eles adaptarão sua necessidade cada vez maior pela energia russa com o seu desconforto político com Putin? ele disse, se referindo ao primeiro-ministro Vladimir V. Putin. É algo muito difícil de fazer.

Enquanto os EUA procuram por mais do que gestos simbólicos em como apoiar a Geórgia e outra ex-república soviética, a Ucrânia, há uma divisão entre a Europa velha e nova ¿ basicamente a Europa Ocidental e a Oriental, disse Kupchan.

A nova Europa, apoiada pela Grã-Bretanha e a Escandinávia, está tomando uma linha mais dura contra a Rússia, enquanto a velha será apenas reforçada em sua visão de que a Geórgia e a Ucrânia não estão prontas para a Otan.

Depois do comportamento russo durante a crise na Geórgia, disse Jacques Rupnik, um especialista em Europa Oriental do Instituto de Paris de Estudos Políticos, conhecido como Sciences-Po, há pouca discordância agora sobre a natureza da nova Rússia. Os europeus que não perceberam antes, agora o fazem, disse Rupnik. Mesmo assim, a Europa está se acomodando, como sempre, com a idéia de ser uma mediadora entre Washington e Moscou.

Expansão da Otan

O acordo de cessar-fogo agora assinado pela Rússia e a Geórgia foi negociado pelo presidente francês Nicolas Sarkozy em seu papel como presidente da União Européia. Ângela Merkel, chanceler alemã, viajou a Tbilisi para oferecer seu apoio à Geórgia, mas ficou entre a posição norte-americana de que a Geórgia entre na Otan logo e a visão européia de que isso deva acontecer em algum tempo futuro.

Essa não é a luta européia, disse Stefan Kornelius, editor de assuntos internacionais e colunista do jornal Suddeutsche Zeitung. Eu não vejo a Europa preparada para ir à guerra com si mesma pela Geórgia, ele disse. Os ministros europeus acreditam que isso seja grande demais para eles, e, no final, eles se alinharão com os EUA, enquanto tentam influenciar a política.

Os americanos procuram por atos concretos para punir a Geórgia e alertar a Rússia ¿ talvez suspendendo ou até mesmo cancelando o Conselho Otan-Russo, ou como Ronald D. Asmus, diretor do Centro Transatlântico de Bruxelas para o Fundo Marshall Alemão, sugere entrada rápida da Ucrânia para a Otan.

A Otan também pode começar um planejamento formal de defesa, incluindo investir em infra-estrutura, para defender novos membros da Otan como os países Bálticos ou a Polônia contra uma hipotética guerra contra a Rússia.

Como um gesto à Rússia do falecido Boris Yeltsin, que rancorosamente aceitou a expansão da instituição, a Otan nunca desenvolveu planos militares para defender os europeus do centro e do Oriente, porque como falamos, a Rússia não é um inimigo e nem uma ameaça, e nunca apoiamos novos membros com exercícios ou infra-estrutura, disse Asmus, um importante funcionário do departamento de Estado da administração Clinton.

Os alemães se opuseram a tais medidas na época; o ex-chanceler alemão, Gerhard Schroeder, e o ex-presidente francês, Jacques Chirac, foram considerados uma espécie de eixo pró-Rússia dentro da Otan. Ambos se foram, substituídos por líderes mais pró-americanos e visceralmente anticomunistas em Merkel e Sarkozy.

Mas a França, Alemanha e Itália permanecem profundamente dependentes da energia russa. Sarkozy está ansioso para ser intermediador de Washington e Moscou, e Merkel está em uma grande coalizão com a esquerda. Seu ministro do Exterior, o social-democrata Frank-Walter Steinmeier, próximo consultor de Schroeder, é considerado muito amigável com Moscou.

Em uma entrevista publicada no domingo, ele pediu ao Ocidente ir contra uma reação automática, como suspender as conversas entre a União Européia e a Rússia em cooperação estratégica ou banir o país da Organização Mundial de Comércio (OMC).

Os russos afirmaram estarem saindo da Geórgia ¿ mas será sob sua própria definição de Geórgia, o que, aparentemente, não inclui a Ossétia do Sul e Abkhazia, onde foram distribuídos passaportes russos. Poucos acreditam que eles deixarão esses territórios étnicos, mesmo se eles redefinirem suas próprias tropas de ocupação como forças de paz, muito menos permitirem que as regiões sejam controladas pelo governo russo.

Mesmo se as fronteiras formais da Geórgia permaneceram as mesmas por enquanto, em longo prazo a Rússia tentará expandir.

Império russo

A Rússia nunca foi um Estado-nação, mas sempre um império, com Moscou gradualmente expandindo suas fronteiras desde o século 15, disse Rupnik. A Rússia construiu seu Estado enquanto formava seu império ¿ os dois eram inseparáveis.

A Federação Russa nunca foi um estado em suas fronteiras atuais, e mais de 25 milhões de russos vivem fora dela, na maioria na ex-União Soviética. Essas novas fronteiras são novas e um pouco artificiais, disse Rupnik. E nós do Ocidente nunca medimos completamente o efeito dessa perda do império nos russos, ou quão essencial a Ucrânia é para a sensação de pertencimento.

A Revolução Laranja, na Ucrânia, que Moscou fracassou em impedir, foi o verdadeiro alerta para Putin, disse Rupnik. A conclusão russa na época, e amplamente compartilhada lá, é que o limite foi alcançado ¿ sem mais concessões, um empurrão para a redução e definitivamente sem Geórgia e Ucrânia na Otan.

A Ucrânia tem seu próprio território étnico russo no oriente e em Criméia ¿ o lar da Frota russa do Mar Negro e entregue à Ucrânia em 1954 por Nikita S. Khrushchev, o líder soviético nascido lá. Como a Ossétia, dividida por Stalin para que o norte ficasse na Rússia e o sul na Geórgia, a Criméia é uma espécie de empecilho para manter a Ucrânia na linha, uma apoiada por uma dependência energética quase total da Rússia.

É por isso que, para aqueles como Asmus, a reação da Otan às ações russas na Geórgia deveriam envolver a Ucrânia. Mas também é um motivo pelo qual muitos europeus não querem se comprometer em defender outro vizinho russo quando eles não têm nem a vontade ou os meios de reforçar esse compromisso.

Desde a queda do muro de Berlim em 1989, houve inúmeras mudanças na Europa ¿ mais recentemente no Kosovo, o exemplo usado por Putin para defender a ação russa na Geórgia. Ainda estamos no processo de construir e fazer Estados, disse Rupnik. O mapa ainda não está terminado.

- Steven Erlanger

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