EUA: Tumultos no mundo árabe colocam lobistas em posição difícil

Ligados a governos como o do Egito e da Líbia, lobistas americanos tentam não ser vistos como auxiliares de déspotas e ditadores

The New York Times |

Durante muitos anos, eles foram uma das mais formidáveis forças de lobby na capital americana: um grupo de elite formado por ex-membros do Congresso, ex-diplomatas e agentes do poder que têm ajudado as nações do Oriente Médio a navegar águas diplomáticas em questões delicadas nos Estados Unidos, como a compra de armas, o terrorismo, o petróleo e as restrições comerciais.

AP
Tony Podesta, lobista de Washington, que representa os interesses do governo egípcio (foto de arquivo)
No ano passado, três dos maiores nomes no clube de lobby – Tony Podesta, Robert L. Livingston e Toby Moffett – conquistaram uma vitória para um de seus clientes, o Egito. Eles se reuniram com dezenas de legisladores e ajudaram a parar um projeto do Senado que pedia que o Egito contivesse abusos e violações aos direitos humanos. Por fim, os abusos do governo ajudaram a derrubá-lo.

Moffett, um ex-congressista de Connecticut, disse a seus antigos colegas que o projeto "seria visto como um insulto" por um aliado importante. "Nós apenas dissemos a eles: 'Não façam isso agora com os nossos amigos do Egito", disse.

Agora, os lobistas de Washington para as nações árabes se encontram em uma situação precária, conforme tentam se manter um passo à frente dos eventos que têm mudado rapidamente o cenário na região sem serem vistos como auxiliares de déspotas e ditadores. Na Líbia, Arábia Saudita, Bahrein, Iêmen, Egito e outros países da região, os líderes contavam cada vez mais com lobistas de Washington e seus advogados, pagando-lhes milhões de dólares. Alguns consultores estão adotando uma postura mais progressiva em função dos protestos pró-democracia, enquanto outros estão abandonando seus clientes por causa dos tumultos.

Na Tunísia, onde as primeiras revoltas de janeiro energizaram os levantes em toda a região, o Washington Media Group, uma empresa de relações públicas e comunicações, terminou seu contrato de US$ 420 mil para a construção da imagem do país no dia 6 de janeiro, logo depois de surgirem relatos de ataques violentos perpretados pelo governo contra manifestantes. "Nós basicamente decidimos que por princípio não poderíamos trabalhar para um país que estava usando atiradores nos telhados para atacar seus cidadãos", disse Gregory L. Vistica, presidente da empresa, que primeiro anunciou a decisão no Facebook.

Outros mantiveram o curso, pelo menos por enquanto. Moffett, Livingston e Podesta, que tem um contrato conjunto multimilionário com o Egito, intensificaram o ritmo de suas reuniões e conferências telefônicas com oficiais da Embaixada do Egito após a renúncia do presidente Hosni Mubarak. Um dos objetivos principais, segundo os lobistas, é ajudar os militares no controle do país a seguir em direção a eleições que sejam consideradas livres e justas fora do Egito. "O que fizemos por eles no passado é o que continuaremos a fazer por eles no futuro: tudo em nosso poder para construir boas relações entre o Egito de hoje e os Estados Unidos", disse Livingston, ex-congressista da Louisiana que é um dos lobistas do Egito em Washington.

Ao mesmo tempo, Livingston reconheceu que está acompanhando de perto a situação na região. "Existe o perigo de que toda a área se torne radical e islâmica e totalmente contrária aos interesses dos Estados Unidos?. Certamente há esse risco", observou.

Na Qorvis, uma empresa mundial de relações públicas que já representou muitos países da região, incluindo Arábia Saudita, Bahrein, Iêmen e Chipre, os executivos do escritório da empresa em Washington visitaram o Oriente Médio na semana passada mantendo uma atitude que indica que os negócios continuam.

"Nossos clientes estão enfrentando alguns desafios agora", disse Seth Thomas Pietras, vice-presidente sênior de Soluções de Problemas Geopolíticos na Qorvis, em uma entrevista por telefone diretamente de Dubai. "Mas nossos objetivos de longo prazo, para diminuir as diferenças entre nossos clientes e os Estados Unidos, não mudaram. Somos solidários para com eles".

Pagamento

Como regra, os líderes do Oriente Médio pagaram aos consultores ocidentais generosamente, mesmo pelos padrões dos lobistas de Washington, com valores mensais de cerca de US$ 50 mil ou mais, de acordo com documentos federais.

Os Emirados Árabes Unidos gastaram US$ 5,3 milhões em 2009 para fazer lobby sobre oficiais americanos – perdendo apenas para as Ilhas Cayman, que tem feito lobby para manter o seu estatuto de paraíso fiscal, de acordo com uma análise da Fundação Sunlight, um grupo de pesquisa sem fins lucrativos. Trabalhando através da DLA Piper e de outras empresas com sede em Washington, os Emirados Árabes Unidos têm buscado um maior acesso à tecnologia nuclear americana.

O Marrocos gastou mais de US$ 3 milhões com lobistas de Washington, em grande parte destinados a ganhar vantagem na sua disputa de fronteira com a Argélia, enquanto a Argélia contra atacou gastando US$ 600 mil.

A Turquia, que compartilha alguns interesses com países do Oriente Médio, gastou quase US$ 1,7 milhão em 2009 para pressionar as autoridades americanas sobre políticas turcas e do Oriente Médio por meio das empresas do ex-líder da Câmara Richard A. Gephardt, Livingston e outros lobistas proeminentes.

E a Arábia Saudita, um dos mais poderosos interesses estrangeiros no país, gastou cerca de US$ 1,5 milhão em 2009 em empresas de Washington, e tem um contrato de US$ 600 anuais com Hogan Lovells destinados, em parte, a combater a legislação e os processos judiciais que disputem a influência da OPEP sobre os preços do petróleo.

'Estômago forte'

"Esses tipos de regimes têm muito dinheiro à sua disposição e isso tem seu apelo", disse Howard Marlowe, presidente da Liga Americana de Lobistas. Ainda assim, ele disse que "muitos lobistas vão ficar longe dos clientes internacionais e ponto". Para trabalhar com ditadores em países do Oriente Médio que adotam políticas que muitos americanos acham desagradáveis, segundo ele, "é preciso estômago forte".

Livingston, o ex-congressista que faz lobby para o Egito, também fez trabalhos para a Líbia na tentative de resolver exigências judiciais decorrentes do papel da Líbia no bombardeio do voo 103 da Pan Am e normalizar as relações do país com os Estados Unidos.

Mas ele disse que a gota d’água aconteceu em 2009, quando a Líbia acolheu de braços abertos um homem condenado no caso da Pan Am e quando Kadafi ameaçou montar uma tenda em Nova Jersey, ao lado de uma yeshiva judaica durante sua visita às Nações Unidas. “Esses dois incidentes foram mais do que podíamos aguentar", disse Livingston.

Outras grandes empresas de Washington, incluindo a White & Case e a Blank Rome, uma empresa de lobby que também encerrou seu trabalho para a Líbia, gastaram cerca de US$ 850 mil em lobby nos Estados Unidos em 2009. Não está claro a partir dos registros federais quais empresas de Washington ainda estão trabalhando com o governo de Kadafi, nenhuma delas admitiu isso publicamente.

Enquanto as manifestações tomavam conta do Egito no mês passado, Moffett disse que um amigo sugeriu que o seu trabalho de lobby para o governo de Mubarak fosse deixado de lado. Moffett hesitou. "Eu não sinto que isso me coloque do lado errado da questão", disse ele. "Nós nos sentimos honrados por estar em cena enquanto tudo isso está acontecendo”.

    Leia tudo sobre: lobbyeuamundo árabeegitotunísialíbia

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG