EUA: Tribunal tenta ajudar veteranos que cometem crimes

Novo programa judicial busca auxiliar militares a vencer traumas da guerra e se readaptar à vida em sociedade

The New York Times |

Quando o incidente teve início, em agosto, parecia destinado a se tornar mais um caso de um soldado arrasado por uma guerra e que não conseguia deixar as memórias para trás.

O Sargento Brad Eifert caminhava pela floresta atrás de sua casa em Okemos, no Estado americano de Michigan, segurando uma pistola calibre 45. A polícia estava atrás dele e, de uma forma ou de outra, ele estava pronto para morrer.

Eifert colocou a arma contra a própria cabeça e, em seguida, baixou-a. Depois, ele disparou nove vezes na escuridão.

Deixando sua arma, ele correu para a calçada, gritando: "Atire em mim! Atire em mim! Atire em mim!" Os policiais o dominaram e o prenderam. Poucas horas depois, ele estava em uma cela em Ingham, com cinco acusações de ataque com intenção de matar policiais, que preveem prisão perpétua.

Ao pedir que a polícia o matasse, Eifert, que serviu no Iraque e trabalhava como recrutador do Exército, juntou-se a um crescente número de veteranos que, depois de voltar para casa, mergulha em uma crise impulsionada pelo chamado estresse pós-traumático ou outros problemas emocionais.

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Brad Eifert conversa com a enteada em sua casa em Okemos, Michigan

Histórias assim muitas vezes acabam em morte ou prisão, mas algo diferente aconteceu no caso de Eifert. Fadado ao desastre, ele foi poupado por meio de um novo programa judicial e a incomum união de um grupo de indivíduos – incluindo um juiz compassivo, um promotor flexível, um advogado tenaz e um policial receptivo – que fizeram exceções e negociaram acordos para ajudá-lo.

Se aproveitar a chance de recuperar sua vida, ele provavelmente conseguirá evitar a prisão e receber os cuidados de que precisa para seguir em frente.

Algumas autoridades acreditam que o trauma da guerra não deve ser motivo para um tratamento especial aos veteranos no sistema de justiça, especialmente nos casos em que a segurança pública está em risco. "O estresse pós-traumático não pode se tornar um passe livre da cadeia", disse um promotor em um caso envolvendo um veterano que enfrentou a polícia no Missouri.

No entanto, um crescente número de especialistas jurídicos e policiais argumentam que quando as ações criminosas de um veterano parecem originar-se das tensões de guerra é preciso uma solução melhor para o processo e a punição tradicionais. A sociedade que os treinou e os enviou ao perigo, dizem os especialistas, tem alguma responsabilidade na sua reabilitação.

"Não interpreto isso como uma desculpa pelo comportamento ruim, mas como a necessidade de encarar o comportamento pelo que é", disse o juiz Robert T. Russell Jr. da Corte Municipal de Buffalo, que fundou o primeiro tribunal especial para os veteranos em 2008.

"Os benefícios são aumentar a segurança pública e, quem sabe, fazer com que alguém possa voltar a ser um cidadão sem sofrer as feridas invisíveis da guerra", disse Russell.

Eifert, 36 anos, teve a sorte de viver em um município que, poucos meses antes, tinha se tornado uma das 80 jurisdições em todo o país que adotaram o modelo de tribunal para veteranos. Mas a resolução do seu caso demorou mais do que isso.

O juiz precisava se interessar pelo seu caso e aceitá-lo na corte, que normalmente não ouve casos graves envolvendo o uso de armas de fogo. O promotor teve que decidir que as dificuldades emocionais de Eifert mereciam clemência. O policial tinha que concordar em retirar as acusações de agressão com intenção de matar, embora tenha temido por sua vida durante o incidente.

Um oficial-general em Fort Knox, no Kentucky, onde fica a base de recrutamento de Eifert, teve que argumentar para reverter a dispensa sob condições pouco honrosas aberta pelo Exército depois de sua prisão, que o teria privado da maioria dos seus benefícios militares, incluindo os serviços do Departamento de Assuntos de Veteranos. O advogado Frank Reynolds teve que trabalhar para juntar todas as peças.

"A Justiça é um sistema de preto no branco, enquanto a maioria dos casos de veteranos são cinzentos", disse Jeff Murphy, tenente aposentado e coordenador do Departamento de Polícia de Chicago, que realiza treinamento sobre como lidar com os veteranos.

O caso de Eifert, disse ele, ofereceu um modelo de como resolver tais situações. "Você precisa de pessoas que entendam a dinâmica das tensões que os veteranos enfrentam", disse ele. "E se todo mundo não concorda, o caso se desfaz".

Guerra permanente

Mesmo quando voltou do Iraque para Fort Carson, Colorado, em 2006, com o uniforme coberto de medalhas, Eifert sabia que algo estava errado. Uma agressão sofridadurante os dois  anos mais violentos da guerra ainda estava muito viva dentro dele.

Eifert queria voltar para o combate, mas o Exército o enviou para Michigan como recrutador. Em um exame de saúde mental, ele disse a uma psiquiatra do Exército que estava bebendo demais, tendo ataques de pânico, acordando com pesadelos.

"É normal", disse ela. "Você vai superar isso."

Mas ao dar seguir adiante – se divorciar da primeira esposa, assumir seu novo trabalho no Batalhão de Recrutamento de Grande Lakes, se casar com uma mulher com três filhos que havia conhecido no site de relacionamentos eHarmony – as emoções permaneceram com ele. Ele ganhou honras como recrutador, mas continuou bebendo, às vezes meia garrafa de Jack Daniels em um dia.

Eifert era assombrado por memórias: amigos sendo mortos; o dia em que atirou em uma casa cheia de mulheres e crianças, matando muitos deles; o dia em que viu um caminhão cheio de empreiteiros militares queimar e não fez nada para salvá-los.

Ele já não acreditava mais na guerra ou em seu trabalho como recrutador. "Todo mundo que eu recrutar será enviado para a guerra", pensava. "Tenho que olhar seus pais no rosto e dizer que não é tão ruim. 'Olhe para mim, estou ótimo. Seu filho vai ficar bem’”.

"Me sentia totalmente perdido em todas as situações da minha vida", lembrou, "como se não tivesse controle sobre qualquer coisa. Eu não podia fazer nada. Só estava vivo, quase flutuando”.

O dia do incidente, 9 de agosto de 2010, começou mal. Eifert não dormiu bem. Ele recebeu uma mensagem do irmão, um soldado no Afeganistão, dizendo que a base havia sido atingida por caminhões-bomba. Depois, teve uma discussão com seu sogro, um homem que respeitava muito.

Eifert ligou para seus oficiais comandantes e disse que precisava de ajuda. "Estou cansado de beber, estou cansado de não ter esperança, estou cansado de estar deprimido, estou cansado de sentir raiva", disse ele. "Estou cansado da minha vida."

Um sargento e um capitão do comando de recrutamento o encontraram na casa de seus avós e disseram que iriam levá-lo a um hospital. Um documento do Exército sobre o caso revela que durante uma parada em uma loja de conveniência Eifert se tornou "violento". Ele pegou as chaves e saiu dirigindo, disse o documento.

Eifert disse que muito do que aconteceu naquela noite é "nebuloso". Mas ele lembra de dizer a sua esposa para sair e levar as crianças com ela.

Ele pegou três armas e foi para a floresta.

Abordagem alternativa

Sentado na mesa da sua cozinha em East Lansing, na manhã seguinte, o juiz David L. Jordon leu uma notícia sobre o incidente e se interessou imediatamente pelo caso.

Depois de ouvir sobre a corte para veteranos de Buffalo, ele começou um similar em East Lansing. O tribunal, que se reúne duas vezes por mês, não apenas recebe os militares em tratamento, mas também proporciona a ele um mentor. Os veteranos têm a chance de evitar a prisão cumprindo um conjunto de critérios rigorosos.

Quando os promotores de Michigan souberam mais sobre a história de Eifert, o esforço pelo tribunal veterano começou a parecer mais viável.

Em 2 de agosto, Eifert entrará oficialmente no programa judicial para veteranos, tendo se declarado culpado de uma única acusação: carregar uma arma ilegamente. Ele deixou o Exército em 9 de junho. Nos próximos 12 a 18 meses a acusação poderá ser retirada se ele seguir o regime rigoroso de tratamento e supervisão fixado pelo tribunal.

Agora ele está em casa com a mulher e os enteados, lentamente aprendendo a lidar de forma mais construtiva com seus problemas. Desde sua prisão ele deixou de beber e passou a usar um monitor em seu tornozelo que registra qualquer quantidade de álcool que for consumida. Além disso, está trabalhando meio período em uma fazenda.

Algum dia ele gostaria de se sentar com os policiais que o prenderam e dizer: 'Uau, aquilo foi uma confusão louca, estou feliz que vocês não me mataram e sinto muito por ter colocado vocês em risco."

Por Erica Goode

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