EUA tentam reintegrar militantes do Taleban

Enquanto Washington e Cabul debatem como reconciliar líderes do grupo, comandantes reintegram insurgentes por conta própria

The New York Times |

O jovem prisioneiro Taleban foi conduzido vendado a uma tenda militar, onde se sentou entre 17 da vila de Mian Poshteh, no Afeganistão, e, com os olhos descobertos, enfrentou acusações feitas com base em um documento assinado pelos líderes.

O capitão Scott Cuomo, marine (fuzileiro naval) dos Estados Unidos que agia como promotor, disse ao prisioneiro: "Esta é uma carta promessa de que todos os anciãos te apoiam e que você jamais voltará a lutar pelo Taleban."

Após o "julgamento" de meia hora, o capitão informou a decisão do grupo ao silencioso prisioneiro, Juma Khan, de anos 23, que os marines prenderam depois de localizar equipamentos para bombas, munições e ópio enterrados em seu quintal. O pai e o avô de Khan, que está entre os anciãos, estavam presentes. "Em nome da paz, de sua família, de seu avô", disse Cuomo solenemente, "vamos libertá-lo".

Assim foi feita justiça em uma recente noite de sábado, no coração da região Taleban do Vale do Rio Helmand, onde a teoria por trás do esforço americano para "reintegrar" o inimigo se depara com a ambígua realidade de uma guerra de quase uma década.

Cuomo, de 32 anos, reconheceu os perigos do julgamento e de outros como esse no Afeganistão. "Será que Juma Khan vai voltar ao Taleban? Não sei", disse.

No entanto, o esforço terá continuidade. Enquanto Washington e Cabul debatem seus planos para reconciliar dirigentes graduados da milícia islâmica do Taleban, comandantes militares no Afeganistão passaram a reintegrar militantes de baixo escalão por conta própria.

A razão é simples, explica Cuomo: ainda que os marines sejam "treinados para combater, e não nos importemos em combater, o combate não trás estabilidade".

Seis dias depois da libertação de Khan, outro comandante marine, o capitão Jason Brezler, obteve promessas de 25 antigos militantes de que entrarão para o treinamento policial na vila de Soorkano. Uma semana mais tarde em Marja, onde os confrontos entre os marines e o Taleban continuam após uma ofensiva americana na região em fevereiro, o tenente coronel Brian Christmas libertou dois jovens que admitiram combater pelo Taleban, depois que eles e dois anciãos assinaram acordos prometendo que os dois não voltarão a lutar.

Agindo de acordo com diretrizes militares que buscam persuadir os militantes de baixo escalão a abandonar as armas, comandantes repetem o mantra de que os EUA não chegarão à vitória por meio de mortes desnecessárias. Eles afirmam que, em uma guerra de contrainsurgência que busca conquistar a população, a reintegração é algo crucial, porque o Taleban está profundamente integrado na malha social do país.

"Posso entender por que integram o Taleban", disse Cuomo em uma entrevista após a libertação de Khan. "Claro que entram no grupo, o que mais poderiam fazer? Se quiserem fazer qualquer coisa, têm de integrar o Taleban."

Os militares até agora descrevem a reintegração, na melhor das hipóteses, como algo esporádico, um esforço anterior a um processo mais formal que esperam que o governo afegão adote em uma cúpula que acontecerá em Cabul nas próximas semanas.

No ano passado, como parte de uma iniciativa afegã para dar emprego a quem deixasse o Taleban, o governo de Cabul disse que pelo menos 9 mil insurgentes abandonaram as armas.

O major general Richard Barrons, comandante do Exército britânico em Cabul que tem ajudado a fiscalizar o esforço de reconciliação, disse que o governo afegão agora estima que haja cerca de 40 mil combatentes que podem ser reintegrados, com 1 mil sendo do alto escalão, incluindo o líder do Taleban, Mulá Omar, como o mais importante.

As autoridades militares dos Estados Unidos dizem não saber quantos membros da milícia foram reintegrados até agora, incluindo aqueles durante os primeiros anos da guerra, mas os números são pequenos.

Até agora Washington tem apoiado os planos de reintegração para alguns militantes Taleban, mas tem restrições quando à reconciliação de Mulá Omar. (Washington e Cabul utilizam o termo reconciliação para dirigentes Taleban e reintegração para militantes da insurgência.)

De qualquer modo, os planos ecoam o movimento Awakening (Despertar, em tradução livre) realizado no Iraque, no qual líderes tribais da minoria sunita do país se voltaram contra a Al-Qaeda na Mesopotâmia e juntaram forças com os americanos. Mas existem muitas diferenças entre o Iraque e o Afeganistão, principalmente o fato de os combatentes Taleban mudarem de lado mais de uma vez.

* Por Elisabeth Bumiller

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