EUA tentam lidar com prisioneiros que sofrem de doenças degenerativas

Em prisão da Califórnia, prisioneiros condenados por assassinato cuidam de colegas de prisão que têm o mal de Alzheimer

The New York Times |

Secel Montgomery Sr. esfaqueou uma mulher no estômago, no peito e na garganta tão furiosamente que perdeu a conta de quantas vezes a apunhalou. Nos quase 25 anos que cumpriu de sua sentença de prisão perpétua, ele entrou em brigas, ameaçou de morte um funcionário da penitenciária e foi pego com maconha.

Apesar disso, recentemente foi encarregado de uma responsabilidade extraordinária. Ele e outros assassinos presos no Centro de Detenção da Colônia de Homens da Califórnia são responsáveis por ajudar os presos que têm o mal de Alzheimer e outros tipos de doenças degenerativas em suas necessidades diárias mais íntimas: tomar banho, fazer a barba, passar desodorante e até mesmo trocar suas fraldas.

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Secel Montgomery, condenado à prisão perpétua, faz a barba de Joaquin Cruz, condenado por assassinato que sofee do mal de Alzheimer (16/09/2011)

A sua lista de pacientes vem crescendo cada vez mais. Entre eles está Joaquin Cruz, um assassino condenado que agora está tão deteriorado mentalmente que acha que vê seu irmão na água do vaso sanitário, e Walter Gregory, cuja memória de curto prazo está piorando cada vez mais apesar dele se lembrar vividamente de seu crime: ter esfaqueado e mutilado sua namorada com um canivete. "Cortei os olhos dela também", declarou recentemente.

A existência de idosos com esse tipo de doença na prisão é um fenômeno pouco divulgado que vem aumentando significadamente, sendo que muitas instalações estão despreparadas para lidar com a questão de maneira eficaz. Essa é uma consequência imprevista das políticas mais acirradas para combater o crime - longas sentenças que criaram uma grande população carcerária que está envelhecendo na prisão. Cerca de 10% dos 1,6 milhão de presos nos Estados Unidos estão servindo sentenças de prisão perpétua, e outros 11% estão servindo sentenças de mais de 20 anos.

Além disso, pessoas mais velhas estão sendo presas com maior frequência. Em 2010, 9.560 pessoas de 55 anos foram condenadas, mais do que o dobro em relação a 1995. Nesse mesmo período, os detentos de 55 anos ou mais quase quadruplicaram, chegando a cerca de 125 mil, de acordo com um relatório da Human Rights Watch. "A população com demência irá aumentar muito mais", disse Ronald H. Aday, sociólogo e autor do livro "Aging Prisoners: Crisis in American Corrections" (Prisioneiros Idosos: Crise no Sistema Carcerário Americano, em tradução livre). "Como é que vamos cuidar deles?"

Alguns sistemas carcerários já enfrentam essa situação. Muitos gostariam de transferir presos com demência para lares de idosos, porém, devido à natureza violenta de muitos de seus crimes, o Estado reluta em conceder liberdade condicional e os asilos tampouco se sentem confortáveis em acolhê-los.

Nova York tem optado por uma solução mais cara, estabelecendo uma unidade separada para presos com problemas cognitivos e usando profissionais especializados para cuidar deles, a um custo de cerca de US$ 93 mil por leito anualmente - em comparação, a população carcerária geral custa US$ 41 mil. O Estado da Pensilvânia, assim como outros Estados, está dando aos profissionais que lidam com a saúde mental um treinamento especial para cuidar de prisioneiros com demência.

Mas alguns sistemas carcerários estão tendo dificuldades em lidar com o problema, inclusive os da Califórnia e Louisiana, que adotaram uma abordagem menos cara, porém mais arriscada. Eles estão treinando os próprios presos para lidar com muitas das necessidades diárias dos seus colegas de prisão afetados pela doença.

"Sim, eles fizeram algo horrível e por isso estão presos", disse Cheryl Steed, uma psicóloga da Colônia de Homens da Califórnia, onde os prisioneiros que ajudam os presos doentes são chamados de Gold Coats, ou “Coletes de Ouro”, porque usam uniformes amarelos e não o tradicional azul. Sem eles, disse ela, "não seriamos capazes de cuidar de nossos pacientes com demência de maneira eficiente."

Após ter acompanhado Joaquin Cruz até uma consulta médica, James Evers, um membro dos casacos de ouro, o levou de volta ao bloco onde fica sua cela. No caminho eles se depararam com os guardas revistando os presos que voltavam para verificar se não haviam pego nada pouco comum do lado de fora de suas celas.

Cruz, 60, que mal se lembra de que está na prisão por ter matado alguém que lhe vendeu cocaína falsa, ficou confuso e resistiu à revista dos guardas. "Ele tem Alzheimer", Evers tentou explicar. "Não é que ele esteja se recusando a fazer o que você está pedindo."

Na prisão, os Gold Coats recebem US$ 50 por mês e possuem um melhor conhecimento das condições dos prisioneiros doentes do que muitos dos guardas. Os Gold Coats, treinados pela Associação de Alzheimer e portadores de manuais sobre a demência, foram os primeiros a notar quando Cruz começou a colocar suas botas nos pés errados e "começou a ir ao banheiro onde quer que estivesse", disse Phillip Burdick, um Gold Coat que está cumprindo uma sentença de prisão perpétua por espancar um homem até a morte com um martelo.

Os Gold Coats relatam essas mudanças, muitas vezes em reuniões semanais do grupo de apoio com Steed. Eles identificam "truques e estratégias diferentes para fazer com que os presos façam o que precisam fazer", disse ela.

Antes do início do programa, em 2009, os presos com demência eram frequentemente culpados por causar brigas, batendo naqueles que consideravam uma ameaça ou que “invadiam” seu território. "Era um ambiente muito hostil", disse Bettina Hodel, uma psicóloga que iniciou o programa e que também quase foi vítima de uma agressão por parte de um dos presos. Agora, os Gold Coats conseguem controlar uma grande parte desse comportamento.

"Já me bateram, fiquei com o lábio inchado e meus óculos foram quebrados", disse Ramon Canas, um Gold Coat que matou um homem que lhe pediu carona e acabou roubando seu carro. Ele disse que os Gold Coats - existem atualmente seis deles para cerca de 40 presos - muitas vezes usam luvas cirúrgicas porque estão expostos a "fluidos corporais.”

Protegendo os mais vulneráveis

Eles também protegem os presos com demência de prisioneiros que tentam agredi-los, abusar deles ou roubar-lhes. Quando Steven Berry, um Gold Coat, viu que dois detentos estavam roubando um dos presos doentes, ele logo agiu para impedi-los. "Acabei pegando suas coisas de volta", disse Berry, um sinaleiro da Marinha que matou sua ex-cunhada e tentou matar sua esposa.

Os Gold Coats são perseguidos e chamados de "dedo-duro" por aparentemente estarem do lado dos funcionários da prisão e por causa das regalias que recebem. No refeitório, para ajudar pacientes com demência que, conforme Burdick, "começam a esquecer as coisas básicas, como para que serve uma colher", os Gold Coats se sentam com eles em setores nos quais as refeições podem ir além dos dez a 12 minutos que são normalmente concedidos para comerem.

Quando um prisioneiro tentou roubar a sobremesa de um paciente, Montgomery, um dos Gold Coats, reagiu em um tom alterado: "Você tem que devolver isso agora”. "Por acaso você é da polícia?", o preso respondeu. Montgomery respondeu: "Sim, eu sou da polícia!"

Mais presos sofrem de doenças degenerativas do que funcionários das prisões conseguem perceber, segundo especialistas. A rotina dentro da prisão pode mascarar sintomas como o de esquecimento. Os guardas estão lá para punir os presos agressivos e não para avaliar se eles estão doentes.

"Não responder a perguntas de forma adequada é considerado simplesmente mau comportamento", afirmou Sharen Barboza, diretora de operações clínicas para os Serviços da MHM, uma empresa provedora de serviços de saúde mental para prisões.

A unidade de Nova York para os presos com doenças cognitivas foi criada há cinco anos e até agora já tratou 84 presos, mas "existem muitas pessoas dentro do sistema que ainda não conseguimos tratar", disse Paul Kleinman, o psicólogo do programa. "Elas não estão sendo identificadas corretamente."

O mal de Alzheimer afeta atualmente 5,4 milhões de americanos, um número que deverá duplicar até 2040. Especialistas acreditam que a doença de Alzheimer nas prisões pode crescer até duas ou três vezes, explicou John Wilson, especialista sênior de operações clínicas da MHM, porque "os fatores que servem para proteger o desenvolvimento da demência são quase inexistentes na prisão - coisas como trabalhos complexos, um meio social mais enriquecido e atividades de lazer."

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Joaquin Cruz, que sofre de Alzheimer, é visto em sua cela em San Luis Obispo, na Califórnia (14/06/2011)

Ao perceber que a Califórnia, Estado que conta com quase 13 mil detentos com 55 anos de idade ou mais, não poderia cuidar adequadamente dos presos com demência, Hodel perguntou ao setor regional da Associação de Alzheimer sobre a possibilidade de treinar detentos para ajudar. A diretora regional, Sara Bartlett, temia que ela e Arlene Stepputat, a diretora do programa na época, não estariam seguras na prisão "como mulheres". Ela duvidava que criminosos violentos conseguiriam fornecer o cuidado necessário para casos como este.

Ambas as mulheres ficaram surpresas quando perceberam os presos mais receptivos, demonstrando menos laços emocionais com os pacientes do que muitas das pessoas que treinaram para cuidar de parentes em casa. "Era muito mais fácil trabalhar com eles", disse Stepputat.

Heriberto G. Sanchez, psicólogo-chefe da Colônia de Homens da Califórnia, disse que os presos "são gratos pelo fato de que alguém do mundo exterior os permitiu fazer isso". Um dos presos escreveu em uma avaliação: "Obrigado por fazer com que eu me sinta humano."

Os Gold Coats dão aulas de ginástica e administram reuniões destinadas a estimular a memória e diminuir a desorientação. Eles escoltam os detentos até os médicos, agindo como seus intermediários.

E eles muitas vezes precisam improvisar. Um detento de 73 anos de idade se posiciona no portão quase todas as manhãs, à espera de sua mãe que morreu já há muito tempo. Às vezes, ele se recusa a tomar banho, com medo de que ela não o veja. Evers o convence a voltar para dentro, dizendo-lhe que sua mãe "quer que você tome banho antes de ela chegar".

Um pouco mais de sutileza é necessária para lidar com Gregory, 71, que está cumprindo uma sentença de prisão perpétua por brutalizar sua namorada com um canivete – ele jogou as partes de seu corpo no lixo, voltou "para a sala em que a matei e tive relações sexuais com outra mulher". Ele não acredita que sofra de demência, mas seus sintomas estão gradativamente se acumulando e incluem a quebra de uma vassoura sobre a cabeça de um preso e escrever para agências no exterior sob a ilusão de que ainda tem chance de receber uma liberdade condicional.

Para ajudar Gregory, Samuel Baxter, um Gold Coat que atirou e matou um colega de trabalho disparando seis vezes, gentilmente o lembra de seus compromissos diários como o de arrumar a cama. "Você tem que permitir que o Sr. Gregory chegue até você", disse Baxter.

Existem limites para o que um Gold Coat pode fazer. Eles podem indicar que os pacientes devem cortar as unhas, por exemplo, mas não podem cortá-las para eles pois isso seria responsabilidade de um profissional. E também existem os trabalhos mais ingratos, como limpar a urina de presos do chão.

"Há um ano", disse Baxter, "eu não teria dito: ' vou ajudar esse homem a entrar no chuveiro e tomar banho'".

Os Gold Coats dizem que são movidos pelo trabalho. "Estava perdido na vida", disse Burdick, que durante seus 35 anos de prisão perdeu sua mulher, vítima de aids, e uma filha de 16 anos, que se suicidou. Pacientes com demência muitas vezes "nem sequer dizem obrigado", disse ele, mas "eles simplesmente me dão um tapa nas costas e eu já sei o que isso quer dizer."

Canas disse: "Não tinha qualquer sentimento por outras pessoas, era um predador". Agora, ele afirmou: "Hoje sou um protetor. Antes eu era um monstro".

A compaixão que Secel Montgomery tem de demonstrar em seu trabalho como Gold Coat estava longe de ser vista no assassinato que cometeu em 1987. Ele queria dinheiro para comprar bebida, e quando sua ex-cunhada se recusou em ajudá-lo, "bati nela até que ficasse inconsciente, a amarrei e esfaquei".

Em seguida, ele lavou as mãos e chamou sua mulher para dar um passeio. Ele pegou as coisas que tinham suas impressões digitais, mas deixou seu sobrinho para trás, sozinho. "Sabia que isso constituiria sequestro", explicou.

Montgomery, condenado a uma sentença de 26 anos à prisão perpétua, passou 17 anos em uma penitenciária de alta segurança devido a "desobediência de ordens", disse. Ele produzia uma bebida contrabandeada chamada de "Pruno."

Foi apenas em 2000, depois que Montgomery fez 47 anos e foi encontrado com maconha, acusado de ameaçar um agente penitenciário e mandado para a solitária, que decidiu mudar. "Eu era um monstro", disse ele.

As famílias de presos que sofrem de doenças degenerativas parecem estar confortáveis com o fato de que prisioneiros como Montgomery agora têm tanta responsabilidade. Laura Eklund, sobrinha de Cruz, disse que os agentes penitenciários perguntaram se seus parentes queriam que ele tivesse liberdade condicional, mas a família recusou. "Honestamente, não conseguiríamos mantê-lo com o mesmo cuidado que ele está recebendo na prisão", disse.

Por Pam Belluck

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