EUA têm dificuldade para analisar dados sobre programa nuclear do Irã

Dados incertos sobre atividades atômicas iranianas dificultam avaliação sobre ambições do governo

The New York Times |

Embora as agências de espionagem dos Estados Unidos acreditassem que os iranianos haviam parado com seus esforços em construir uma bomba nuclear em 2003, a dificuldade em avaliar as ambições do governo eram evidente dois anos atrás, quando tiveram acesso a informações novas e alarmantes, de acordo com autoridades americanas.

Oficiais da inteligência americana disseram que comunicações interceptadas de autoridadea iranianos discutindo seu programa nuclear levantaram preocupações de que os líderes do país haviam decidido retomar os esforços para desenvolver uma arma.

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AFP
Reprodução de TV mostra do presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, dentro de reator nuclear de Teerã conversando com cientistas

Isso, junto a um fluxo de outras informações, desencadeou uma intensa revisão e publicação tardia da Estimativa de Inteligência Nacional de 2010, um relatório confidencial que buscava refletir o consenso dos analistas de 16 agências. No fim de todo esse processo, eles consideraram as provas de intercepção como não sendo suficientes para alterar sua antiga conclusão.

Atualmente, conforme as suspeitas sobre as ambições nucleares iranianas provocaram duras sanções e ameaças de confronto militar , autoridades de alto escalão do governo americano disseram que o Irã ainda não decidiu construir uma arma nuclear, o que reflete a análise secreta feita pela comunidade de inteligência nacional. Mas caso essa avaliação mude, ela poderia ser impedida pelo presidente Barack Obama, que não descartou a opção de usar força militar como último recurso para impedir que o Irã construa uma arma nuclear.

A maioria das informações com que os analistas lidam são ambíguas ou incompletas, muitas vezes desatualizadas, e normalmente oferecem mais uma ideia do que os iranianos não estão fazendo do que sobre o que eles podem estar fazendo.

Como consequência disso, as autoridades advertem que não conseguem ter certeza de nada. "Eu diria que tenho cerca de 75% de confiança na avaliação de que o Irã não tenha retomado seu programa nuclear", disse um ex-oficial de alto escalão da inteligência americana.

Outro ex-oficial da inteligência disse: "Para a inteligência americana, o Irã é o alvo mais difícil de lidar. Ele é de longe mais complicado do que a Coreia do Norte. Em grande parte isso acontece porque eles têm um sistema muito confuso, o que acaba fazendo com que seja muito difícil determinar quem fala com autoridade sobre o quê", disse.

E acrescentou: "Não estamos fisicamente presentes lá e isso acaba nos impedindo de captar qualquer mudança sutil no ambiente."

O Irã afirma que seu programa nuclear serve para fins pacíficos civis, mas as agências de inteligência dos Estados Unidos e a Agência Internacional de Energia Atômica recolheram evidência nos últimos anos de que algumas atividades iranianas que podem estar relacionadas com a construção de armas continuaram ativas desde 2003, segundo as autoridades. Essa informação não foi muito significativa já que as agências de espionagem não chegaram a alterar a sua percepção de que o programa de armas não foi retomado.

O Mossad, serviço de inteligência de Israel, concorda com as avaliações feitas pelas agências de inteligência americanas, mesmo enquanto líderes políticos israelenses insistem em uma ação rápida e agressiva para tentar impedir que o Irã se torne uma ameaça para a existência do Estado Judaico.

"As pessoas fazem perguntas muito difíceis, mas o Mossad não discorda dos Estados Unidos sobre o programa de armas do Irã", disse um ex-oficial de alto escalão da inteligência americana que, assim como outros neste artigo, falou sob condição de anonimato. "Não existe muita disputa entre os Estados Unidos e as comunidades de inteligência israelenses sobre os fatos."

Na tentativa de avaliar as potenciais ameaças apresentadas pelo programa nuclear iraniano, as agências de espionagem dos Estados Unidos passaram anos tentando focar seus esforços em acompanhar qualquer ato relacionado a enriquecer urânio e desenvolver uma tecnologia de mísseis por parte do Irã, além de observar qualquer movimento em direção à projeção e construção de uma bomba nuclear.

"Os reatores são mais fáceis de controlar do que as instalações de enriquecimento, mas, obviamente, qualquer coisa que envolva um monte de construção é mais fácil de controlar do que o trabalho intelectual e científico", disse Jeffrey T. Richelson, o autor de "Spying on the Bomb" (Espionando a Bomba, em tradução literal), uma história sobre a inteligência americana nuclear. "Em determinados momentos, é muito difícil acompanhar o trabalho feito com armas, a menos que alguém esteja falando a respeito disso e suas comunicações possam ser interceptadas."

A extensão das evidências que as agências de espionagem recolheram não é muito transparente, pois a maior parte de suas conclusões são secretas. Porém, autoridades de inteligência disseram que estão usando todos os recursos possíveis para investigar o programa nuclear iraniano.

Enquanto a Agência de Segurança Nacional escuta conversas telefônicas de autoridades iranianas e realiza outras formas de vigilância eletrônica, a Agência Nacional de Inteligência Geoespacial analisa imagens de radar e imagens digitais de instalações nucleares.

Analistas acreditam que aviões não tripulados estão sobrevoando o país, pois um teria caído em território iraniano , apesar de as autoridades americanas afirmarem que perderam o controle dele no Afeganistão.

Atualmente, apesar das críticas sobre a avaliação americana por parte de alguns observadores, analistas de inteligência ainda acreditam que os iranianos não obtiveram o sinal verde de Khamenei para reativar seu programa nuclear.

"Essa avaliação", disse uma autoridade dos Estados Unidos, "se manteve de maneira muito concreta ao longo dos anos."

Por James Risen

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