EUA se preparam para uma Síria sem Assad

Iraque também se juntou ao coro dos países que pedem a renúncia do líder sírio em meio aos distúrbios no país

The New York Times |

AP
Imagem reproduzida de TV mostra presidente sírio, Bashar al-Assad, dando entrevista à TV estatal (21/8)
Cada vez mais convencido de que o presidente Bashar al-Assad da Síria não será capaz de permanecer no poder, o governo Obama começou a preparar a nova política americana para a região depois que ele sair.

Em coordenação com a Turquia, os Estados Unidos têm explorado como lidar com a possibilidade de uma guerra civil entre as seitas alawite, drusos, cristãos e sunitas da Síria, um conflito que poderia inflamar rapidamente outras tensões em uma região volátil.

Enquanto outros países retiraram seus embaixadores de Damasco, oficiais do governo Obama dizem que irão deixar o diplomata americano Robert S. Ford no país, apesar dos riscos, para que ele possa manter contato com líderes da oposição e das inúmeras seitas e grupos religiosos locais.

Oficiais do Departamento de Estado também têm pressionado líderes da Síria para unir a oposição, conforme trabalham para derrubar o governo de Assad e construir um novo governo.

O governo Obama está determinado a evitar uma repetição das consequências da invasão do Iraque pelos Estados Unidos. Embora o país não tenha economizado esforços para derrubar Saddam Hussein, muitos especialistas em política externa dizem agora que isso aconteceu às custas de um planejamento detalhado sobre como gerenciar facções conflituosas no Iraque depois de sua queda.

Um oficial do alto escalão do governo afirmou que o abandono de Assad pela Turquia, Arábia Saudita e países europeus aumentaria o seu isolamento, particularmente conforme seus militares se tornam mais exaustos pela contínua repressão.

Outra autoridade do governo Obama disse que com 90% das exportações de petróleo da Síria seguindo para a Europa, fechar o mercado europeu para Damasco poderia ter um efeito paralisante sobre a economia e colocar pressão adicional no governo de Assad.

"Na década de 1990, caso a Síria quisesse crédito e empréstimos comerciais que não conseguisse nos EUA, o país partia em busca dos europeus", disse Ray Takeyh, um pesquisador sênior de estudos do Oriente Médio no Conselho de Relações Exteriores e ex-oficial do governo Obama.

Agora, Takeyh disse, a Europa se uniu aos EUA para impor sanções sobre as exportações sírias, incluindo seu fundamental setor petrolífero. Além do Irã, ele disse, a Síria tem poucos aliados a quem recorrer.

"Os chineses reconhecem que o seu desenvolvimento econômico é mais dependente da sua relação com os EUA e a Europa do que na sobrevivência de Assad ou Kadafi", disse, referindo-se ao líder deposto líbio, Muamar Kadafi.

Oito meses atrás, a ideia da Síria sem um membro da família Assad no comando parecia tão improvável quanto a ideia do Egito sem Hosni Mubarak ou da Líbia sem Kadafi.

Mas autoridades de inteligência e diplomatas no Oriente Médio, Europa e Estados Unidos acreditam cada vez mais que Assad pode não ser capaz de derrotar a tempestade às portas de Damasco.

Em agosto, Obama pediu que Assad abandonasse o cargo após meses de debate interno, que incluiu longas discussões sobre uma Síria sem Assad possivelmente levar ao tipo de guerra civil que consumiu o Iraque após a queda de Saddam Hussein.

A mudança fez com que o governo passasse de discutir se Assad deve cair para discutir como ajudar a derrubá-lo e o que fazer depois disso. "Há um consenso real de que ele está perdido", disse o oficial de alto escalão do governo Obama. "Os serviços de inteligência dizem que ele não vai voltar."

E não são apenas os Estados Unidos e a União Europeia que concordam que esse é o momento de Assad renunciar. Depois de meses adotando um tom muito mais amigável com o regime sírio, o governo iraquiano se juntou ao coro que pede a saída do líder, há 11 anos no poder.

Um conselheiro do primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, disse em uma entrevista na terça-feira que o governo iraquiano enviou mensagens para Assad afirmando que ele deveria renunciar. "Acreditamos que o povo sírio deve ter mais liberdade e tem o direito de experimentar a democracia", disse o conselheiro, Ali al-Moussawi. "Somos contra o governo de um partido único e a ditadura que não permitiu a liberdade de expressão."

As declarações de Al-Moussawi marcaram uma mudança significativa para o Iraque. Quando os EUA e seus principais aliados pediram a renúncia de Assad no mês passado, o governo iraquiano parecia estar mais de acordo com o Irã, que tem apoiado Assad.

Como a declaração americana, o discurso de Al-Maliki alertou os líderes árabes que Israel iria se beneficiar o máximo da Primavera Árabe. "Não há dúvida de que há um país que está à espera de os países árabes entrarem em colapso e está esperando por corrosão interna", disse Al-Maliki em seu discurso. "Os sionistas e Israel são os principais beneficiários de todo este processo."

Conforme a violência começou a se espalhar por toda a Síria em junho, Al-Maliki recebeu uma delegação de empresários sírios e oficiais do governo, incluindo o ministro das Relações Exteriores, para discutir a aproximação econômica entre os dois países. Na época, Al-Maliki encorajou os sírios a realizar apenas protestos pacíficos e confiar no governo para aprovar as reformas.

Al-Moussawi disse que o governo iraquiano queria a renúncia de Assad havia muito tempo, mas ele se recusou a dizer por que o governo não tinha manifestado publicamente a sua posição até terça.

O Iraque e a Síria foram adversários no passado, particularmente no auge do conflito sectário no país, quando muitos líderes iraquianos, incluindo Al-Maliki, disseram que os sírios estavam permitindo que combatentes estrangeiros e suicidas cruzassem a fronteira para o Iraque.

Mas no ano passado, segundo analistas, o Irã pressionou Assad para apoiar Al-Maliki para mais um mandato como primeiro-ministro, e desde então o Iraque e a Síria têm fortalecido suas relações econômicas e diplomáticas.

Al-Moussawi disse que o governo iraquiano está preocupado que com a queda do governo de Assad, a violência se alastre pela fronteira e desestabilize ainda mais o Iraque, que ainda está lidando com ataques violentos quase diariamente. Na terça, uma série de explosões perto de um complexo do governo na província de Anbar, que faz fronteira com a Síria, matou três policiais e deixou vários civis feridos. Iraque se junta ao coro de países que apelam pela renúncia de Assad.

Por Helene Cooper, Michael S. Schmidt e Yasser Ghazi

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