EUA questionam: O que fazer com Israel?

Para Washington, medidas de governo israelense prejudicam interesses americanos e ameaçam seus soldados no Iraque e Afeganistão

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Alguns tópicos são tão inflamatórios que nunca são discutidos sem que primeiro seja feita uma série de advertências. E, assim, quando Anthony Cordesman, um dignatário de política externa do circuito de estudiosos de Washington, publicou um artigo na quarta-feira intitulado "Israel como um Problema Estratégico", fez questão de abrir com uma pletora de explicações.

Primeiro, observou, o compromisso americano com Israel tem motivos morais e éticos - uma reação ao Holocausto, ao antissemitismo de países ocidentais e à resistência americana em entrar na 2.ª Guerra Mundial, o que permitiu o extermínio dos judeus pelos nazistas. Em segundo, Israel é uma democracia com os mesmos valores que os EUA. Terceiro, os EUA jamais abandonarão Israel, sempre o ajudando a manter sua vantagem militar sobre seus vizinhos. E Washington protegerá Israel contra uma ameaça nuclear iraniana.

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Marines durante ação em reduto Taleban na Província de Helmand. No Afeganistão, sentimentos muçulmanos em relação aos aliados dos EUA podem afetar a guerra (14/02/2010)

Mas, assim que acabou de expor o que no jornalismo é conhecido como "parágrafos de garantia", Cordesman apresentou um argumento que tem ganhado espaço em Washington - dentro do governo de Obama (incluindo Casa Branca, Pentágono, Departamento de Estado) e fora, em fóruns e encontros políticos. Governos israelenses recentes, particularmente o do primeiro-ministro Benyamin Netanyahu, alegou Cordesman, têm ignorado as preocupações de segurança nacional de seu maior benfeitor, os EUA, e têm adotado medidas que prejudicam os interesses americanos no exterior.

"A profundidade do compromisso moral de Washington não justifica nem desculpa ações de um governo israelense que desnecessariamente torna Israel um problema estratégico quando o país deveria continuar a ser um trunfo", escreveu Cordesman em comentário para o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. "Já é tempo de Israel perceber que tem obrigações com os EUA, assim como os EUA têm com Israel, e se tornar muito mais cuidadoso na forma como testa os limites da paciência dos EUA e explora o apoio dos judeus americanos."

A lista de iniciativas recentes do governo de Netanyahu que constituem uma ameaça potencial aos interesses americanos tem aumentado de forma constante, segundo muitos peritos em política externa. A violência que explodiu quando patrulhas israelenses invadiram barcos da flotilha que seguia para a Faixa de Gaza em 31 de maio esfriou as relações americanas com um aliado-chave muçulmano, a Turquia. A disputa na Faixa de Gaza também torna mais difícil que os EUA consigam formar uma coligação que inclua Estados árabes e muçulmanos contra as ambições nucleares do Irã. A recusa de Netanyahu de interromper a construção de habitações judaicas em Jerusalém Oriental também prejudica as relações americanas com aliados árabes. Tudo isso torna ainda mais difícil alcançar um eventual acordo de paz, que muitos oficiais do governo acreditam ser fundamental para os interesses dos EUA.

O presidente Barack Obama e o general David H. Petraeus, que supervisiona as guerras americanas no Iraque e Afeganistão, falaram nos últimos meses sobre a ligação entre o contínuo conflito entre israelenses e árabes e os interesses de segurança dos americanos. Durante uma coletiva de imprensa em abril, Obama declarou que esses conflitos no Oriente Médio acabaram "custando significativamente em termos de sangue e tesouros"; além disso, ele fez uma ligação explícita entre a disputa israelo-palestina e a segurança dos soldados americanos enquanto combatem extremistas islâmicos no Iraque, Afeganistão e outros locais.

Petraeus abordou o tema em um testemunho congressional neste ano, dizendo que a falta de progressos no Oriente Médio cria um ambiente hostil para os EUA. Após causar furor entre os presentes, ele explicou que não queria dizer que os soldados são colocados em risco pelo apoio dos EUA a Israel, fazendo um grande esforço para salientar a importância da parceria estratégica com Israel. "Mas o status quo atual é insustentável", afirmou em uma entrevista em 4 de maio. "Se não obtivermos progresso em uma paz justa e duradoura no Oriente Médio, os extremistas terão espaço para nos perseguir."

Em março, a secretário de Estado dos EUA, Hillary Clinton, disse ao grupo de lobby favorável a Israel, AIPAC, que novas construções em Jerusalém Oriental ou na Cisjordânia "expõem problemas entre Israel e EUA que outros países da região querem explorar".

Pressão política interna

Tudo isto tem levado a uma profunda análise em algumas partes da comunidade judaica americana, bem como a um acirrado debate entre autoridades do atual e de governos anteriores. A simples caracterização dos atos que causaram as mortes na flotilha da Faixa de Gaza como algo "trágico" por Obama desencadeou uma resposta imediata de Liz Cheney, filha do ex-vice-presidente. "Não há meio termo aqui", disse em uma declaração. "Ou os EUA se mantêm com o povo de Israel na guerra contra o terrorismo islâmico radical ou estamos alimentando os inimigos de Israel - e os nossos."

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President dos EUA, Barack Obama, reúne-se com o premiê israelense, Benyamin Netanyahu, em Washington (18/05/09)
As declarações de Liz refletem o alarme de algumas autoridades israelenses e alguns líderes judaicos americanos, que preferiam o firme apoio do governo Bush, não importando qual governo de Israel estivesse no cargo ou que medidas o governo tomasse.

Alguns democratas também estão preocupados com a mudança de opinião. O representante Steve Israel, democrata de Nova York, disse que passou duas horas na Casa Branca com Obama e um grupo de legisladores judeus há duas semanas, "expressando repetida e enfaticamente minhas preocupações". Questionar Israel como um instrumento estratégico, disse, "visa a culpar Israel por dificuldades no Oriente Médio, mas não é culpa de Israel que existe uma liderança palestina incapaz de chegar a um acordo. Não é culpa de Israel que os regimes árabes sejam intransigentes e incapazes de levar os palestinos a negociar. Essa é a feia verdade."

Peritos em política externa dizem que a nova disposição em sugerir que as ações do governo de Israel podem se tornar um risco de segurança nacional para os americanos representa um retrocesso em relação à agenda neoconservadora da era Bush, que postulava que os EUA e Israel lutavam lado a lado para promover a democracia em uma região instável.

A nova preocupação é também, paradoxalmente, uma consequência dos compromissos assumidos durante os anos Bush, quando a vida de soldados americanos, em combate no Iraque e Afeganistão, ficou ligada à situação da opinião pública no mundo árabe e muçulmano.

Obama tem tirado a ênfase na promoção da democracia. Ele tem retirado tropas americanas do Iraque e prometeu começar a fazer o mesmo no Afeganistão a partir do próximo ano. Enquanto isso, buscou apoio no mundo muçulmano e salientou, em sua nova estratégia de segurança nacional, que os EUA precisam agir em conjunto com outras nações.

"A visão de mundo do governo anterior estava mais alinhada ao governo israelense", disse Jeremias Ben-Ami, fundador do J Street, um grupo de lobby liberal judaico. "Agora vemos uma visão de mundo que tem como consequência uma política e prioridades completamente diferentes."

Ben-Ami afirma que representa judeus que apoiam Israel, mas não todas as suas políticas. Alguns deles estão questionando as ações do governo israelense como um problema de segurança nacional para os EUA.

No âmbito do governo Obama, existem gradações até mesmo sobre como se fala a respeito do assunto. Em um debate recente, um judeu conselheiro do governo afirmou que americanos comuns podem se sentir tão frustrados em relação às ações do governo israelense que começarão a questionar o apoio dos EUA ao país. Ele pediu que seu nome não fosse usado por causa das sensibilidades em torno da questão.

Mais recentemente, Daniel Levy, diretor da Força Tarefa Oriente Médio da Fundação Nova América e membro do J Street, disse em uma entrevista: "Os EUA têm três opções. Ou diz que a situação política é complicada demais para ser modificada agora e sofre as repercussões no resto do mundo. Ou tenta forçar um acordo de paz entre israelenses e palestinos, para que a questão palestina deixe de ser um problema." A terceira opção, segundo ele, "é que os EUA digam, nós podemos resolver a questão, mas não podemos pagar pelas consequências, por isso nos afastaremos de Israel. Dessa forma os EUA deixariam de ser vistos, como foram na semana passada, como um país que favorece o comportamento excessivo de Israel".

Sem surpresa, Levy defende a segunda opção. Mas ele adverte que a terceira pode ser mais aceitável para os americanos se o governo de Netanyahu mantiver o curso atual.

Jeffrey Goldberg, do blog judaico The Atlantic, explica dessa forma: "Eu não necessariamente acredito que é possível resolver os problemas no Iraque, Afeganistão, Paquistão e Iêmen congelando as construções em Israel. Por outro lado, não há qualquer motivo para que Israel crie tanto problema também."

* Por Helene Cooper

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