EUA: Michele Bachmann ganha apoio de roqueiro que virou carola

Fundador de associação conservadora apoia campanha de republicana do Tea Party à presidência dos EUA

The New York Times |

À primeira vista, Bradlee Dean parece saído de um casting para roqueiros envelhecidos: cabelo comprido, braços envoltos por tatuagens e o passar dos anos que tomou conta de seu rosto, agora em nítido contraste com a magreza vista em um retrato de quando era jovem.

Olhe com mais atenção e verá que aquelas tatuagens não são os nomes de groupies há muito esquecidas. São imagens de Moisés e dos Dez Mandamentos, da crucificação de Cristo, da entrega de Abraão e as palavras da "Carta dos Direitos" dentro de uma estrela em seu cotovelo esquerdo.

Dean, 45 anos, ainda toca bateria em sua banda de rap/heavy-metal cristã, a Junkyard Prophet (Profeta de Ferro-Velho, em tradução livre). O grupo "acredita que o mundo é um ferro-velho que precisa de ser confrontado com a Palavra de Deus", segundo seu site.

A banda é apenas parte da máquina multimídia de Bradlee Dean – que inclui um programa de rádio com seguidores ávidos, chamado "Sons of Liberty” (Filhos da Liberdade), uma organização para a juventude cristã, a “You Can Run but You Cannot Hide International” (Grupo Internacional Você pode Correr, mas não Pode se Esconder), bem como livros e DVDs – que ele construiu para espalhar sua mensagem moral, conservadora, espiritual e muitas vezes controversa. Ele critica a homossexualidade e disse recentemente que o presidente Barack Obama fez mais danos para os Estados Unidos do que Osama bin Laden.

Entre seus fãs está a congressista republicana Michele Bachmann, de Minnesota, que está buscando a indicação presidencial republicana.

Ela fez discursos em dois de seus eventos de arrecadação de fundos, participou de seu programa de rádio e até enviou uma carta curta para Dean em 2005, que permanece publicada no site da organização, elogiando o livro que ele escreveu chamado "Man of War" (“Homem de Guerra”).

"Não há dúvida de que Michele Bachmann é uma cristã evangélica e acredita nos mesmos valores que nós acreditamos", disse Dean, que mora em Annandale, Minnesota. "Portanto, Aachamos que ela seria muito simpática à nossa mensagem". E

Ele observou que em um evento de arrecadação de fundos em 2006, Bachmann "orou por nós, e nós gostamos muito disso."

E ele disse que gostaria de ver Bachmann se tornar presidente. "Ela diz o que precisa ser dito, quer as pessoas gostem ou não."

Não está claro o quanto Bachmann ainda se considera uma fã de Dean (sua campanha se recusou a comentar a questão), particularmente depois de seus comentários incendiários sobre Obama e Bin Laden, entre outros.

Mas ambos lucram com sua proximidade. Dean ganha importância ao se associar a política de primeiro escalão, e Bachmann ganha seguidores populares encorajados por Dean.

A combinação já ganhou Nate Kowalik, 35 anos, de Plymouth, Minnesota, um grande apoiador de ambos."Quando Bradlee diz algo em seu programa, ele reforça a mensagem que Michelle Bachman está tentando passar para os eleitores americanos", disse. "Simplesmente adoro quando um diz alguma coisa e o outro reitera."

Ele é um grande fã da organização e do programa de rádio de Dean, tanto que já chegou a trabalhar como voluntário no verão de 2009 nas suas equipes de rua. "Gosto do fato de que Bradlee e os outros são tão pró-família e que reforçam a pureza e um estilo de vida saudável", disse Kowalik.

Não que Dean tenha sempre vivido dessa maneira.

Ele tem um DVD chamado "My War" (“Minha Guerra”), no qual relata alguns tumultos autodestrutivos envolvendo drogas, bebidas e brigas, que viveu antes de encontrar Deus.

Em um livreto que ele escreveu sobre sua vida, intitulado "School of Hard Knocks" (“A Escola dos Percalços”), Dean descreve a epifania religiosa que teve em um bar na década de 1990, quando uma mulher que ele acabara de conhecer disse: "Bradlee, muitos recebem o chamado, mas poucos são escolhidos. Bradlee, você foi escolhido."

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Michelle Bachmann participa de evento na Carolina do Sul (25/08)
Dean disse recentemente que acreditava que a mulher estava profetizando sua vida. "Deus estava respondendo às minhas orações, e eu precisava responder”, afirmou.

Suas influências agora podem ser encontradas nas paredes da sede de sua organização, localizada em um antigo quartel militar perto de Minneapolis.

Dean, que com 1,95 m tem a presença imponente de um jogador de futebol americano e gosta de se vestir com roupas pretas, mostrou as imagens que o inspiram: John Adams, o pregador britânico Charles Spurgeon, o evangelista Dwight L. Moody, Martin Lutero, o fundador do Exército da Salvação William Booth e Martin Luther King Jr. A Declaração de Independência está em uma parede, assim como uma grande foto de uma águia americana. "Os temas básicos de escritório são heróis e fé", disse Dean.

Ele e sua família gostam de assistir "Little House on the Prairie", disse Dean que aprecia a série porque Michael Landon “exemplificou ali a função da família".

Ele compartilha outras influências com Bachmann, além de laços com indivíduos e grupos como o Tea Party. Dean diz que ele e Bachmann frequentam “os mesmos círculos ideológicos há anos".

Dean e Bachmann também têm muitos pontos de vista em comum. Ambos se opõem aos direitos homossexuais e avisam que a Sharia (código de leis islâmico) é uma ameaça para os Estados Unidos. Eles dão pouco valor ao aquecimento global e apoiam os benefícios da religião nas escolas públicas e a educação em casa. Eles concordam até mesmo no que chamam de ações ultrainvasivas das equipes de segurança dos aeroportos americanos.

Vários outros políticos republicanos de Minnesota, incluindo um ex-candidato a governador e ex-secretário de Estado, apoiam Dean.

Ele disse que conheceu Bachmann em 2006, após sua organização a convidar para falar sobre a lei educacional conhecida como “No Child Left Behind” (“Nenhuma Criança Deixada para Trás”) e a “importância de proteger a nossa próxima geração" em um evento de sua organização. Ele disse que sabia que Bachmann era crítica à lei, que os dois consideram um atraso na educação local.

Ela participou do evento, fazendo um discurso que durou mais de 40 minutos, e incluiu seu ponto de vista de que a separação entre Igreja e Estado é um "mito", além de ter elogiado a organização por transmitir essa ideia a alunos de escolas públicas.

Não muito tempo antes do evento de 2006, por exemplo, Bachmann foi entrevistada por telefone por Dean para falar sobre os males da política de educação federal.

E Dean já a defendeu. Em julho, ele e sua organização entraram com uma ação por difamação contra NBC, MSNBC, Rachel Maddow, The Independent Minnesota e um de seus jornalistas, que parece ter sido movida em nome de Bachmann.

A ação menciona o nome da congressista 15 vezes e afirma que os réus "deliberadamente e maliciosamente tentaram prejudicar sua campanha presidencial" através da cobertura da participação dela no programa de Dean.

Pedindo mais de US$ 50 milhões em reparação, a ação afirma que eles causaram danos a Dean e, "por extensão", Bachmann.

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O site de Bradlee Dean, com série de vídeo intitulada "Minha Guerra"

A ação concentra-se em observações feitas por Dean no rádio no ano passado – e citadas pela MSNBC e outros – de que "muçulmanos estão pedindo a execução de homossexuais nos Estados Unidos" e de que os muçulmanos "parecem ser mais morais do que os cristãos americanos".

Dean disse que suas declarações foram tiradas do contexto e observa que um aviso no site de sua organização diz: "Nunca pedimos e nunca iremos pedir a execução de homossexuais."

A NBC e a American Independent News Network, que publica o The Independent Minnesota, afirmaram que a denúncia é infundada.

Dean falou muitas vezes contra a homossexualidade, assim como Bachmann. Quando era senadora, ela lutou, sem sucesso, por uma emenda à Constituição estadual que proibiria o casamento gay. Ela também se refere à homossexualidade como uma "disfunção sexual" e afirmou que os estudantes de escolas públicas “correm o risco” de aprender que estilos de vida de gays e lésbicas são normais.

Em seu programa de rádio no mês passado, Dean disse que os professores estão tentando "afeminar" os alunos das escolas públicas e que os jovens estão sob ataque "através de uma radical agenda homossexual".

"Simplesmente tentamos dizer às crianças que este não é um estilo de vida saudável que deva ser encarado como normal", disse Dean, depois, em uma entrevista. "Levantamos a questão porque há uma tendência crescente entre os professores para discutir e promover a homossexualidade como um estilo de vida normal e saudável."

Dean disse que o objetivo mais amplo de sua organização é "reformar" e "voltar ao que nossos fundadores estabeleceram”. "Está claro que a América tem uma necessidade desesperada de voltar aos antigos caminhos da ética, moralidade e respeito pela religião", afirmou.

Dean levou a mensagem e a música de sua organização para a estrada, realizando assembleias em escolas até alguns anos atrás (ele geralmente cobra US$ 1,5 mil por evento).

O site da organização contém cerca de 80 depoimentos por escrito de autoridades escolares e alunos que elogiam o impacto positivo das assembleias, ressaltando a importância de boas escolhas e do uso de uma banda para chamar a atenção. Muitos professores e diretores disseram que as cartas foram solicitadas por Dean.

Mas Annie Laurie Gaylor, presidente da Freedom From Religion Foundation (Fundação Livre de Religião, em tradução livre), um grupo formado por ateus e agnósticos, disse que sua organização tinha recebido queixas nos últimos anos de professores e pais sobre as assembleias. "Recebemos muitas reclamações sobre estes grupos, mas Bradlee Dean é um dos piores, porque ele é extremo", disse Gaylor.

Dois professores da Escola Eureka High Springs em Arkansas, onde a organização realizou uma assembleia em 2005, lembraram que estavam esperando um programa de conscientização sobre o uso de drogas.

Mas Dean tinha uma agenda religiosa e alguns estudantes ficaram irritados com a apresentação. Depois, funcionários da escola pediram desculpas aos pais e professores.

"Eles pareciam estar promovendo a religião e isso me deixou desconfortável por causa da separação entre Igreja e Estado", disse Linnea Koester, professora de espanhol da escola. "Sinto que o grupo mentiu sobre sua função e estava promovendo a intolerância."

Dean disse que sua organização é muito clara sobre o programa que apresenta aos alunos: "Está tudo no contrato assinado antes da viagem de 15 horas ou coisa parecida que fazemos até uma escola. Não há obscuro sobre quem somos”, afirmou. "Se eu disser qualquer coisa com qualquer senso de moralidade ela é vista como religiosa."

No site da organização, leitores são informados que a série "My War" inclui a seguinte cena: "Veja a organização ser expulsa de escolas e até escoltada pela polícia por tocar nos tópicos acima”.
Entre os tópicos estão: "Os nossos fundadores", "O que nossas crianças estão sendo ensinadas nas escolas públicas" e "As mentiras da mídia e muito mais."

Por Serge F. Kovaleski

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