EUA é vilão em teorias da conspiração paquistanesa

Para população do país, ataque frustrado na Times Square em 1.º de maio não passou de encenação planejada por americanos

The New York Times |

AP
Efígie do presidente dos EUA, Barack Obama, é queimada por muçulmanos xiitas paquistaneses durante protesto em Islamabad (16/05/2010)
Os americanos podem achar que o atentato frustrado na Times Square em 1.º de maio foi planejado por um homem chamado Faisal Shahzad . Mas, na capital paquistanesa, Islamabad, a Ordem dos Advogados do Supremo Tribunal do Paquistão acredita que tudo não passou de um plano elaborado por uma instituição americana.

"Eles criaram esse personagem chamado Faisal Shahzad para atuar em seu roteiro", disse Hashmat Ali Habib, advogado e membro da ordem dos advogados. Quem são eles? "Você deve saber, uma vez que veio da América", disse sorrindo. "O meu conselho para a nação americana é: livre-se dessas instituições."

Teorias da conspiração são quase um esporte nacional no Paquistão, onde os principais jogadores - Estados Unidos, Índia e Israel - mudam de posição de acordo com o momento da história. Desde 2001, os Estados Unidos se tornaram o centro das atenções, chegando à tamanha proporção no imaginário coletivo do Paquistão que muitas vezes o país parece responsável por tudo que acontece de errado.

O problema se tornou uma narrativa do complexo de vítima nacional, que é uma barreira quase impenetrável para qualquer discussão cândida dos problemas locais. Por outro lado, é um dos principais obstáculos para os Estados Unidos em seu esforço em construir uma aliança mais forte com um país ao qual fornece mais de US$ 1 bilhão por ano em ajuda.

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Zaid Hamid, consultor de segurança do Paquistão e comentarista político, em Rawalpindi, Paquistão (22/05/2010)

Claro que o fato de o governo paquistanês não estar disposto a se arriscar anunciando em público essa relação também não ajuda. O resultado disso é que quase toda política americana para o Paquistão é conduzida em segredo, algo que serve apenas para alimentar as teorias de conspiração. "O eixo central das relações americanas é a segurança, e isso não é dito ao público", disse Adnan Rehmat, analista de mídia de Islamabad.

Os espaços públicos vazios são portanto tomados por estudiosos extremistas e ruidosos partidos políticos islâmicos, todos projetados nas salas de estar do Paquistão por novos suportes eletrônicos. Um desses estudiosos é Zaid Hamid, uma celebridade de fala rápida da televisão local que chegou à fama em um dos 90 canais por assinatura do país.

Ele usa o Google para apoiar sua teoria de que Índia, Israel e Estados Unidos estão conspirando para destruir o Paquistão.

Para Hamid, o caso de Shahzad é apenas uma das peças de um quebra-cabeças muito maior que está sendo montado para pressionar o Paquistão. Por que, caso contrário, haveria tantas incoerências, como o fato de a bomba não explodir? "Se você ligar o pontos, perceberá uma história emocionante", ele disse.

Mas a mídia é apenas parte do problema. "Estamos nessa bagunça porque as forças políticas evocam o Islã para promover seus próprios interesses", disse Aasim Sajjad, professor de economia política da Universidade Quaid-I-Azam em Islamabad.

Liberais da esquerda paquistanesa veem o patriotismo xenófobo e as teorias da conspiração como um mecanismo de defesa que evita a responsabilidade pelos problemas da sociedade e protege contra uma realidade que é muito dolorosa de se enfrentar.

*Por Sabrina Tavernise

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