EUA devolvem 'pratos de Saddam' ao Iraque

Levada ao país ilegalmente e comprada por galeria, louça foi usada em projeto artístico que servia refeições em NY

The New York Times |

Nos últimos anos, certos casos de patrimônio cultural vêm agitando o mundo das artes, com agentes federais fazendo visitas surpresa a vários museus e galerias dos Estados Unidos procurando artefatos que governos estrangeiros alegam ter sido saqueados.

Essa visita nunca preocupou os dirigentes do Creative Time, uma organização pública de arte de Nova York que ajuda artistas contemporâneos a realizar projetos incomuns, como transformar um prédio em um instrumento musical ou pintar placas para os comerciantes de Coney Island.

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Uma das refeições servidas em prato que foi de Saddam Hussein durante projeto artístico

Mas na semana passada um marechal e seu assistente chegaram aos escritórios da organização no East Village para assumir a custódia de um tesouro ainda mais incomum de espólio cultural: pratos de jantar vindos da casa de Saddam Hussein - artefatos que eram usados em seus palácios na época em que os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003.

De acordo com as autoridades iraquianas, os pratos foram levados para fora do país ilegalmente. O Creative Time, que os comprou no eBay para o artista Michael Rakowitz, um judeu-iraquiano cujos avós fugiram do Iraque em 1946, disse que acredita que um soldado dos Estados Unidos e um cidadão iraquiano roubaram estes itens logo após a invasão e os venderam no mercado negro.

A galeria comprou um pacote com cerca de 20 pratos, alguns que parecem ser da coleção pessoal de Saddam e outros que aparentam ter sido parte do reinado do último monarca do Iraque, Faisal 2º, que governou o país até 1958.

Em outubro e novembro Rakowitz usou os pratos em sua obra chamada "Spoils" (Espólio, em tradução livre), uma obra de intuito gastro-político. Ele colaborou com o restaurante Park Avenue Autumn, que criou um prato principal feito com carne de veado e xarope de tâmara servido nos pratos do ex-ditador, algo que almejava ser visto como um “símbolo” de uma guerra desnecessária ou como artefatos de um despotismo justamente derrotado - e de uma maneira sensacionalista.

Mas no final de novembro uma missão iraquiana que estava na cidade para trabalhar na ONU soube do projeto e decidiu tomar providências. Através de uma série de investigações, que tiveram início com os advogados da missão e passaram pela ONU, pelo Departamento de Estado e pelo Departamento de Justiça, foram enviadas notificações ao restaurante e ao Creative Time, dizendo que os pratos pertenciam ao povo iraquiano e deveriam ser devolvidos.

E assim, na manhã de terça-feira eles foram devolvidos de maneira forçada, porém cordial – com a participação de Rakowitz e de curadores do Creative Time ajudando a empacotar os pratos, que foram depois levados para a missão do Iraque na ONU. Tratando-se de uma organização de arte transparente, eles gravaram todo o processo.

No final da tarde os pratos foram levados às pressas para Washington e entregues à equipe do primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki, que estava na cidade para se reunir com o presidente Barack Obama. "Eles estão voltando para o Iraque hoje com o primeiro-ministro, em seu avião particular," disse Hamid al-Bayati, o embaixador iraquiano na ONU.

Ele acrescentou que, apesar dos pratos não serem antiguidades ou arte por si próprios, têm enorme importância cultural para o Iraque, que pretende converter alguns dos palácios de Saddam em museus - lembretes da opulência e do poder de seu regime - depois da retirada das tropas dos Estados Unidos

"Artefatos como estes deveriam voltar para os palácios, senão, o que iremos exibir lá?" questionou Bayati. "Estas são as coisas que Saddam usou e elas devem ser vistas pelo povo iraquiano”. Em Nova York os pratos foram vistos por cerca de 700 comensais, cada um pagando US$ 38 pelo prato principal durante a execução do projeto.

Antes e depois da invasão dos Estados Unidos, saqueadores roubaram prédios de todo o Iraque, incluindo seus museus, vendendo e exportando ilegalmente milhares de artefatos.

Os Estados Unidos têm ajudado a rastrear e retornar mais de mil peças sendo muitas delas mais antigas e preciosas do que os pratos utilizados por Saddam. Arqueólogos iraquianos disseram que, apesar do escândalo provocado pelos saques realizados por americanos e seus aliados, muitos dos itens foram contrabandeados para fora do país antes da invasão, muitas vezes com a conivência do governo de Saddam.

Os funcionários do Creative Time pagaram entre US$ 200 e $ 300 por prato a dois vendedores - supostamente um ex-soldado dos Estados Unidos e um refugiado iraquiano que vive nos subúrbios de Detroit.

A organização disse que concordou imediatamente em devolver os pratos assim que ficou sabendo que a Procuradoria dos Estados Unidos em Manhattan, a pedido do Departamento de Estado, havia pedido a sua devolução.

"Dissemos a eles que ficaríamos felizes em devolver os pratos porque não podíamos ter imaginado um final melhor para esse projeto", disse Anne Pasternak, presidente e diretora artística do Creative Time, que estava presente no dia da visita do marechal. “Queríamos que o projeto causasse o tipo de discussão que está acontecendo agora, mas achávamos que isso iria acontecer no início do projeto, quando as pessoas estivessem comendo, e não no final."

Rakowitz – tinha esperanças de ficar com alguns pratos, pelo menos aqueles que sobreviveram à exposição, sendo que o restaurante quebrou alguns - para uma outra obra de arte que tinha em mente. Mas ela disse que os pratos serão uma obra de arte mais poderosa no local de onde vieram.

"O fato de o governo iraquiano querer este tipo de coisa de volta é muito importante", disse ele. "É um sinal de que eles não querem que aconteça um tipo de amnésia cultural em massa sobre essa parte do passado do país, que é algo que acontece em muitos países que passam por esse tipo de turbulência".

"Os iraquianos têm um monte de coisas deste tipo em suas próprias casas", Rakowitz acrescentou. "Muitos deles usam esses pratos como seus utensílios para refeições diariamente."

Por Randy Kennedy

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