EUA: Contrabandistas guiam imigrantes ilegais por meio de dicas por celular

Com ajuda dos chamados 'cybercoiotes' por mensagens, cada vez mais imigrantes atravessam a fronteira dos EUA com o México sozinhos

The New York Times |

Um grupo de imigrantes se apressava em direção ao norte através do deserto do Arizona em uma noite recente quando um de seus celulares recebeu uma mensagem de texto. "Cuidado", alertava a mensagem. "Problemas adiante. Protejam-se no mato”.

A mensagem, sinalizando a presença da Patrulha da Fronteira, foi enviada por um contrabandista que acompanhava o progresso do grupo através de binóculos de uma colina no lado mexicano da fronteira, os membros do grupo contaram posteriormente. Era parte do que os oficiais da fronteira e ativistas dizem ser uma tendência emergente no cruzamento ilegal da fronteira – o uso do que está sendo chamado de 'cybercoiote'.

"Eu cruzei a fronteira oito vezes e esta é a primeira vez que eles me orientaram usando o meu celular", disse Sandra Silva, 30 anos, nativa de Guadalajara, México, que estava a caminho de Phoenix. "É como um guia eletrônico pelo deserto".

AP
Agentes americanos patrulham fronteira em Nogales, no Arizona (foto de arquivo)
Uma maior fiscalização tem dificultado a entrada nos Estados Unidos, segundo as autoridades. Como os reincidentes pegos em flagrante costumam receber penas mais duras, os contrabandistas têm se tornado mais cautelosos.

Guias ainda acompanham a maior parte dos imigrantes que atravessam a fronteira, segundo ativistas e agentes da Patrulha da Fronteira. Mas eles estão em contato constante com os confederados, que alertam para problemas à frente através de rádios. Mas a Patrulha da Fronteira tem percebido cada vez mais casos de imigrantes que atravessam sozinhos, mas em contato com guias através de telefones celulares, disse Mario Escalante, porta-voz do escritório de Tucson da Patrulha da Fronteira

Essenciais

Os telefones celulares são onipresentes no México, muitos imigrantes os consideram tão essenciais ao cruzamento da fronteira quanto calçados resistente e garrafas de água.

Agora, porém, além de usar os celulares para manter parentes informados sobre o andamento da travessia, alguns imigrantes ilegais dependem deles para se manter fora do alcance das autoridades. Silva disse que seu grupo não tinha um coiote presente, mas recebia instruções por mensagens de texto.

As mensagens normalmente chegam na primeira hora de caminhada dos imigrantes, segundo aqueles que usam o novo sistema. Se conseguirem chegar até ali, os imigrantes ilegais, em seguida, se reúnem com guias no lado americano da fronteira, que os ajudarão a seguir em frente.

Auxiliando no processo estão muitos observadores, que monitoram o deserto do Arizona de pontos de observação e ajudam a orientar os imigrantes, bem como carregamentos de drogas, a evitar as autoridades.

Contrabandistas inovam constantemente para iludir as autoridades, dizem agentes da Patrulha da Fronteira. "Eles sempre vêm com novas maneiras inteligentes de tentar nos evitar", disse T. J. Bonner, ex-presidente do Conselho Nacional da Patrulha da Fronteira, o sindicato dos agentes deste órgão. "Esta forma minimiza o risco para os contrabandistas e você usa uma tecnologia que é relativamente barata”.

Limitações

Imigrantes como o grupo de 13 pessoas que atravessou o Arizona na noite de terça-feira passada constatam que o sistema tem sérias limitações.

O grupo foi levado para um remoto trecho da fronteira no condado de Pima por um guia, que anotou os números de seus telefones celulares e os instruiu sobre como configurar os seus telefones para que mudassem da operadora Mexicana Telcel para a AT&T. Os imigrantes disseram que o custo para a passagem foi em qualquer lugar US$ 2 mil a US$ 3,5 mil, com alguns deles pagando adiantado e concordando em pagar o restante quando chegassem ao solo americano.

Um guia os ajudou a saltar sobre a cerca da fronteira, em algum lugar a poucos quilômetros de Nogales, e depois os levou de caminhão por uma estrada muito usada até Sierra Vista, Arizona, disseram os imigrantes. Periodicamente, durante a hora seguinte, mensagens de texto orientavam o seu curso. "Eles dizem para você virar à direita ou à esquerda ou para ter cuidado com a 'perrera", disse Silva, usando uma gíria mexicana que designa o veículo de transporte de detidos da Patrulha da Fronteira.

Mas logo após a última mensagem de texto chegar alertando sobre problemas adiante, eles foram flagrados por agentes da Patrulha da Fronteira, que os levaram presos e deportaram. "Nós nos sentimos sozinhos lá", disse Maria Martinez, 51 anos, que contou ter seguido as mensagens enviadas, mas que preferia ter tido algum guia ali com o grupo. "Sentimos como se estivéssemos nas mãos de Deus".

A cobertura de celulares é notoriamente irregular ao longo da fronteira e a bateria de Martinez estava quase no fim quando ela foi interrogada algumas horas após a sua prisão, que segundo ela a fez sentir-se vulnerável. "Se você está sem energia elétrica ou sem crédito no telefone, está morto", disse Martinez, que é da Cidade do México e estava a caminho de Oregon, onde tem parentes.

Ajuda

Para reduzir o número de mortes entre aqueles que atravessam a fronteira, um professor da Universidade de San Diego, Ricardo Dominguez, desenvolveu um aplicativo de celular para ajudar a orientar os imigrantes ilegais até as estações de água e outros pontos de segurança.

Seu projeto indignou três republicanos membros do Congresso, que escreveram aos oficiais da universidade no ano passado condenando a pesquisa e sugerindo que ele pode estar violando a lei, incentivando a imigração ilegal.

Muitas vezes, imigrantes que se encontram em dificuldades usam seus celulares para pedir ajuda. Em um caso específico no ano passado, a equipe de buscas da Patrulha da Fronteira respondeu a uma chamada de emergência recebida no 911 de uma zona montanhosa no sul da Califórnia. De um helicóptero, as autoridades viram a luz tênue de um telefone celular e foram capazes de chegar ao imigrante enfermo que sofria de hipotermia e não conseguia andar.

Da mesma forma, no dia 1º de maio, uma mulher que havia sido abandonada por seu guia no deserto do Arizona ligou para o 911 para informar que havia perdido a sua filha de 9 anos de idade. A Patrulha da Fronteira primeiro encontrou a mulher em uma área remota do condado de Pima e, em seguida, a 6 kms de distância, a menina.

Os celulares não ajudam apenas os imigrantes que tentam atravessar a fronteira, mas aqueles que tentam impedi-los. Agentes da Patrulha da Fronteira se queixaram de que a falta de cobertura dificulta a sua capacidade de se comunicar. Em alguns trechos onde a cobertura não é um problema, a Patrulha da Fronteira pediu que moradores denunciem atividades suspeitas via mensagens de texto.

Depois que um fazendeiro foi morto na fronteira em 2010, em um caso famoso que continua sem solução, a deputada Gabrielle Giffords pediu a melhoria da cobertura de celular na região. Após Giffords, uma democrata, ser baleada em 8 de janeiro, um colega do Texas, o republicano Ted Poe, introduziu uma legislação que ela havia apoiado de usar verbas federais para ajudar a reforçar as comunicações ao longo da fronteira.

"Ficou muito óbvio para mim durante a minha recente visita ao sul do Arizona que há muitas áreas onde os telefones celulares simplesmente não funcionam", disse Poe em um comunicado divulgado em março.

*Por Marc Lacey

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