EUA: Centro Wiesenthal adquire primeiro texto antissemita de Hitler

Conhecido como Carta Gemlich, documento de 1919 mostra visão embrionária de mundo que mais tarde daria origem ao Holocausto

The New York Times |

Em 1919, um oficial de alto escalão, impressionado com a oratória de um soldado, pediu-lhe para passar as suas ideias virulentamente antissemitas para o papel.

Disso nasceu o primeiro registro escrito da hostilidade obsessiva de Adolf Hitler contra os judeus, uma forma embrionária da visão de mundo que mais tarde daria origem ao Holocausto e levaria a milhões de mortes. O Centro Simon Wiesenthal em Los Angeles adquiriu o que pode ser esse documento original, conhecido como a Carta Gemlich.

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Documento mostra assinatura de Hitler em carta rara escrita em 1919
Em julho, o centro pretende colocá-lo em exposição pela primeira vez no seu Museu da Tolerância, na Alemanha, tornando a carta a peça central de sua exposição sobre o Holocausto. O texto da carta é bem conhecido pelos estudiosos. Ele é considerado importante porque demonstra o quão cedo em sua carreira Hitler formulava opiniões antissemitas.

A versão da carta mais conhecida dos estudiosos está em um arquivo em Munique, e a notícia de que outra cópia chegou a Los Angeles foi recebida com algum ceticismo entre os historiadores. O mercado de artefatos de Hitler é notório por suas falsificações. "É preciso ter uma ótima origem", disse Klaus Lankheit, vice-diretor do arquivo do Instituto de História Contemporânea de Munique. "Pela minha experiência, eu estou muito cético”.

Mas Othmar Ploeckinger, um especialista em documentos antigos de Hitler, disse que o documento adquirido pelo Centro Simon Wiesenthal é a carta original escrita por Hitler, e que a de Munique é uma cópia feita na mesma época. "Há muitos pontos que me fazem acreditar que possa ser a original", disse Ploeckinger sobre o documento do Centro Wiesenthal.

Em 1919, Hitler estava ligado a uma unidade de propaganda militar do exército bávaro em Munique, que estava tentando acabar com o sentimento bolchevique trazido para casa pelos soldados que foram prisioneiros de guerra na Rússia.

Quando um soldado chamado Adolf Gemlich, que fazia um trabalho de propaganda similar para o Exército em Ulm, escreveu pedindo uma explicação sobre a "Questão Judaica", Hitler escreveu a Gemlich que ataques ocasionais contra os judeus não eram suficientes – a "raça" deveria ser "removida" da Alemanha como uma questão de política nacional.

Ian Kershaw, um renomado autor britânico de biografias de Hitler, diz que é muito pouco provável que Hitler já imaginasse nessa época o extermínio industrializado dos judeus que colocaria em prática anos depois. Mas a carta, disse Kershaw, revelou que "em 1919, Hitler já tinha uma noção clara de querer remover os judeus do país”.

*Por Jack Ewing

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