EUA atuam de forma contraditória para coibir militantes afegãos

Enquanto pedem auxílio do Paquistão para controlar rede Haqqani, aliada do Taleban, Washington negocia secretamente com insurgentes

The New York Times |

O assessor do presidente Barack Obama para a segurança nacional se reuniu secretamente na semana retrasada no Golfo Pérsico com o principal oficial militar do Paquistão. Seu objetivo era passar uma mensagem difícil: a necessidade de controle da rede Haqqani , um grupo insurgente que atua no Afeganistão e que os EUA dizem ter laços estreitos com a principal agência de espionagem do Paquistão.

Reuters
afeganistão-reuters: Marines carregam colega ferido por bomba artesanal perto da cidade de Marjah, na Província de Helmand, Afeganistão (21/8/2010)
Apenas algumas semanas antes, no entanto, autoridades americanas realizaram uma reunião secreta com os líderes da rede Haqqani. Mas esta tinha como objetivo explorar com delicadeza como o grupo, ou pelo menos alguns de seus membros, podem participar das negociações para o fim da Guerra no Afeganistão.

As duas reuniões, realizadas com pouco mais de um mês de intervalo, ressaltam políticas complicadas e aparentemente contraditórias do governo Obama no Afeganistão e Paquistão em sua luta para acabar com o conflito que dura dez anos no Afeganistão e salvar um relacionamento cada vez pior com o Paquistão.

As negociações com a rede Haqqani, que foram mediadas pela agência de espionagem paquistanesa, ilustram o reconhecimento do governo de que ataques militares por si só não acabarão com o conflito com a milícia islâmica do Taleban, a Haqqani e outros insurgentes no Afeganistão. Mas as discussões, que um oficial descreveu como "muito preliminares", não tiveram resultados concretos.

Em poucas semanas, oficiais de alto escalão dos EUA estavam culpando insurgentes do grupo Haqqani por um caminhão-bomba que explodiu em um posto avançado da Organização do Atlântico Norte (Otan) ao sul de Cabul em 10 de setembro, que deixou pelo menos cinco mortos e feriu 77 soldados da coalizão, assim como pelo ataque de 20 horas contra a Embaixada dos dos EUA em Cabul .

O Departamento de Estado está se aproximando da decisão de designar a rede Haqqani inteira – e não apenas seus líderes – como uma "organização terrorista estrangeira", o que permitiria o congelamento de alguns de seus ativos e poderia dissuadir os doadores de apoiar o grupo.

Enquanto alguns comandantes militares pediram a designação, o governo a tem evitado até agora temendo uma medida que possa alienar os militantes e afastar o grupo de futuras negociações.

Diante dos ataques, o governo também decidiu aumentar a pressão sobre o Paquistão. O almirante Mike Mullen, que deixou seu cargo como presidente do Estado-Maior Conjunto nos EUA, disse no mês passado que a agência de espionagem do Paquistão (ISI) desempenhou um papel direto no apoio ao ataque contra a Embaixada dos EUA em Cabul. Ele acusou a rede Haqqani de ser "um verdadeiro braço" do ISI, algo que o Paquistão negou veementemente.

A Casa Branca posteriormente amenizou os comentários de Mullen, mas, na quarta-feira, a porta-voz do Departamento de Estado, Victoria Nuland, disse que com o Paquistão "precisamos de uma colaboração ampla e profunda nas ações contra o terrorismo, com a Haqqani como trabalho número um."

Ela disse que Marc Grossman, enviado especial do governo para o Afeganistão e Paquistão, viajaria para o Paquistão nos próximos dias.

As reuniões de Grossman com líderes paquistaneses ocorrerão após um encontro não divulgado no Emirados Árabes Unidos entre o conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, Thomas E. Donilon, o principal assessor de Obama sobre o Paquistão, Douglas E. Lute, e o general Ashfaq Parvez Kayani, o chefe do Exército paquistanês.

Um oficial do governo disse que é "seguro assumir que a questão da Haqqani foi discutida" nas reuniões, e que as autoridades dos EUA ressaltaram a Kayani a importância do Paquistão tomar medidas mais diretas contra membros da rede, que autoridades americanas acreditam que tenha tramado o ataque a sua embaixada em um porto seguro em áreas tribais do Paquistão.

Autoridades americanas têm feito ameaças veladas de aumentar os ataques aéreos realizados pela Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês) ou incursões transfronteiriças para o Paquistão se o perigo para as forças americanas e das forças aliadas alocadas no Afeganistão não diminuir.

"Não permitiremos que esses tipos de ataques continuem", o secretário de Defesa Leon E. Panetta disse em 16 de setembro, depois que a rede Haqqani foi implicada no ataque à embaixada em Cabul.

Porta-vozes da Casa Branca, do Departamento de Estado e da CIA se recusaram a comentar a questão para esse artigo.

Os líderes da rede Haqqani indicaram nos últimos dias que estão mais dispostos a negociar, mas em seus próprios termos. O grupo mantém laços estreitos com o Taleban, mas muitas vezes funciona de forma independente. Alguns oficiais de inteligência dizem que o ataque à embaixada foi um lembrete não muito sutil de que o grupo não permanecerá à margem de qualquer grande acordo político.

Sirajuddin Haqqani, um dos principais líderes da rede, disse à BBC que a Haqqani "foi contatada e está sendo contatada por agências de inteligência de muitos países islâmicos e não islâmicos, incluindo os EUA, que nos pedem para abandonar a jihad (guerra santa) e assumir um papel importante no atual governo".

NYT
Soldados afegãos fazem busca em residência durante operação no vale Charbaran, Afeganistão
De acordo com um oficial de segurança afegão de alto escalão que foi informado sobre as negociações, as discussões sobre o possível papel da rede Haqqani em um novo governo afegão terminaram sem resultados.

"Eles não concordaram com várias coisas, por isso as reuniões não tiveram qualquer resultado", disse o oficial afegão. "É por isso que estamos vendo agora todas essas reações e ataques."

Especialistas no sul da Ásia apontaram para a natureza altamente compartimental das negociações de reconciliação política para explicar a aparente contradição de alguns oficiais americanos ao se envolver com grupos como o Taleban e Haqqani enquanto muitos outros condenam sua tática de violência.

"Há um grupo muito pequeno lidando com a reconciliação, e eles estão abertos a conversas", disse Daniel S. Markey, membro sênior do Conselho de Relações Exteriores para a Índia, Paquistão e sul da Ásia. "Ao fazer isso, eles estão em conflito com os outros no governo dos EUA que dizem que a rede Haqqani é um grupo com o qual não se pode negociar”.

*Por Eric Schmitt

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