EUA apresentam plano para retirada do Afeganistão em 2014

Estratégia para transição aparece no momento em que aumento de tropas é incerto e líder afegão pede redução de operações militares

The New York Times |

O governo Obama tem desenvolvido um plano para começar a transferência de funções de segurança em áreas selecionadas do Afeganistão às forças locais pelos próximos 18 a 24 meses, tendo em mente o encerramento do combate por volta de 2014.

De acordo com o que disseram oficiais no domingo, o plano de quatro anos estabelecido em fases para encerrar os combate aliados no Afeganistão será apresentado em uma reunião de cúpula da Otan em Lisboa, Portugal, nesta semana. A ideia é apresentar a visão mais concreta de transição para o Afeganistão montada por oficiais civis e militares desde que o presidente Barack Obama tomou posse no ano passado.

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Recrutas afegãos aguardam para receber armas em Cabul
Em muitos aspectos, o conceito segue o precedente estabelecido no Iraque, onde o aumento de tropas e a mudança de estratégia semelhantes adotadas pelo presidente George Bush em 2007 permitiram às forças da coalizão lideradas pelos EUA que, eventualmente, entregassem tarefas de segurança aos iraquianos região por região. No verão passado, Obama foi capaz de retirar dois terços das forças dos Estados Unidos do Iraque e declarar a missão de combate no país encerrada.

"O Iraque é um ótimo mapa de como fazer a transição no Afeganistão", disse um oficiail americano neste domingo, insistindo no anonimato por discutir a estratégia antes da sua apresentação. "Mas o fundamental será a construção de uma força afegã que seja verdadeiramente capaz de assumir a liderança".

Transição

O novo plano de transição aparece no momento em que as perspectivas do aumento de tropas no Afeganistão no ano passado e a reformulação da estratégia no país permanecem incertas. As forças americanas no Afeganistão triplicaram no governo Obama e o general David Petraeus, seu comandante, manifestou confiança de que estão fazendo progresso. Mas o último dos reforços só chegou recentemente e autoridades de Washington disseram que é muito cedo para dizer se a estratégia realmente funcionará.

Oficiais enfatizaram no domingo que qualquer transição para uma segurança liderada pelo Afeganistão seria baseada em condições locais e não uma imposição de Washington, mas sim um processo contínuo.  O governo americano já está avaliando as áreas que poderiam ser seguramente entregues às forças de segurança afegãs e estará pronto para identificá-las no fim deste ano ou início do próximo ano, disseram os oficiais.

A cada mês, algumas regiões darão início à transição, com a última marcada para o final de 2012. Estas certamente incluirão as áreas mais difíceis, como a de Khost, no leste, e Kandahar, no sul do país.

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Policiais afegãos em treinamento em Cabul, capital do país
Mesmo após forças afegãs assumirem a liderança em uma província, algumas forças americanas ou da Otan podem permanecer na região ou ser colocadas "ao longo do horizonte" em outras partes do país prontas a reagir rapidamente, caso necessário.

Até o fim de 2014, as forças de combate americanas e da Otan poderiam ser retiradas, apesar de dezenas de milhares provavelmente permanecerem para o treinamento, orientação e assistência aos locais, assim como 50 mil soldados americanos que ainda permanecem no Iraque.

O plano foi elaborado em meio à crescente pressão do presidente afegão, Hamid Karzai, para reduzir a visibilidade das tropas americanas, suspender os ataques à noite a menos que efetuados por soldados ou policiais afegãos e começar a retirada das forças estrangeiras no próximo ano.

"Chegou o momento de reduzir as operações militares", disse Karzai ao jornal Washington Post, em entrevista publicada no domingo. "Chegou a hora de reduzir a presença de, vocês sabem, soldados no Afeganistão".

Enquanto Obama estabeleceu no ano passado julho de 2011 como o início de uma possível retirada, ele deixou indeterminado o ritmo e o calendário da remoção total dos 100 mil soldados norte-americanos presentes no Afeganistão. Para enfatizar o compromisso de longo prazo dos Estados Unidos com o país, o secretário de Defesa Robert Gates, a secretária de Estado Hillary Clinton e o almirante Mike Mullen, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, têm enfatizado nos últimos dias que 2014 será a data crítica para que o Afeganistão assuma o controle total de sua segurança, uma data mencionada inicialmente por Karzai.

O sucesso do plano depende em parte de se construir um exército e uma força policial afegãos genuinamente capazes de defender seu próprio país. As forças combinadas de hoje têm cerca de 264 mil homens, e outros 28 mil em treinamento, com a meta de ter 350 mil em 2013. No entanto, o atrito entre as forças afegãs tem sido um problema há anos, com muitos soldados e policiais simplesmente abandonando suas unidades, muitos deles para unir-se aos insurgentes.

Republicanos

O plano de transição pode atrair descrença entre os republicanos, que se queixaram da intenção anunciada de Obama de dar início à retirada de tropas a partir de julho do próximo ano. John McCain, do Arizona, adversário republicano de Obama em 2008, disse no domingo que o presidente parecia estar baseando seu planejamento de guerra sobre sua política de base liberal. "Você não luta e conduz guerras desse jeito", disse McCain no programa Meet the Press, da rede NBC. "Você ganha e depois parte. E é isso que nós fizemos no Iraque".

Aparecendo no mesmo programa, o conselheiro sênior do presidente, David Axelrod, disse que qualquer retirada seria conduzida pela estratégia. "Nós sempre dissemos que [uma retirada] seria feita com base nas condições da região e esse ainda é o caso", ele disse. "Mas é importante deixar que os afegãos saibam que eles têm de alcançar o ritmo em termos de treinamento de militares, de treinamento de policiais, de estarem prontos a aceitar a responsabilidade".

Ainda que Karzai tenha sido crítico em relação aos militares americanos, sua mais recente declaração parece ir além de comentários anteriores. Mas um porta-voz de Karzai, Waheed Omer, insistiu que não houve sinalização de uma mudança na política. "O presidente tem falado apenas de acordo com a estratégia de transição da Otan", ele disse.

No país, o ritmo de operações especiais aumentou significativamente resultando no que os militares americanos dizem ser um aumento de seis vezes na captura e morte de comandantes do Taleban, mas também em um aumento nas incursões noturnas que às vezes levam a morte de civis.

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Afegão é abordado à noite por marine americano em Marja, no Afeganistão
"Não é desejável para o povo afegão ter 100 mil ou mais soldados estrangeiros percorrendo o país indefinidamente", disse Karzai, sugerindo que a retirada deve ter início no ano que vem e que as tropas remanescentes fiquem limitadas a suas bases.

Omer disse que a sugestão de que as tropas americanas limitem-se às bases refere-se a uma parceria estratégica de longo prazo para depois de 2014, e não no futuro imediato. "No entanto", ele disse, "o presidente mantém a visão de que é preciso haver uma redução na visibilidade e intromissão, e ambos os lados concordam que há necessidade de haver mais visibilidade das forças afegãs e de sua presença".

Um oficial sênior da Otan disse que discussões sobre os ataques noturnos foram realizadas com Karzai em "várias ocasiões" e que a tática foi adaptada para reconhecer a sua sensibilidade ao assunto, incluindo sempre o uso de parceiros afegãos.

"O general Petraeus leva essas coisas muito a sério e está gastando uma quantidade considerável de tempo de trabalho com o presidente Karzai e sua equipe de segurança nacional para desenvolver o progresso que fizemos até hoje, garantindo uma transição gradual para o controle do Afeganistão até o final de 2014", disse o oficial.

*Por Peter Baker e Rod Nordland

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