EUA analisam riscos de envolvimento maior em conflito na Síria

Apesar de descartar ofensiva, Washington pode armar oposição - o que abriria caminho para guerra civil e conflito indireto com Irã e Rússia

The New York Times |

O governo do presidente dos EUA, Barack Obama, descrente por causa da escalada de violência na Síria e do bloqueio de ações mais firmes contra Damasco pela Rússia e pela China, prometeu no domingo que "redobrará os esforços" para tirar o presidente Bashar Assad do poder.

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Imagem divulgada por ativistas em 08/02 mostra homem chorando ao lado de corpo em hospital de Homs, na Síria
Caso faça isso sem o apoio do Conselho de Segurança das Nações Unidas, pode significar que Washington terá de fingir que não vê outros países armando a oposição síria, proporcionando uma receita quase certa para uma guerra civil, segundo alguns especialistas em Síria.

No domingo de 5 de janeiro, o governo Obama procurou ir além do veto imposto pela Rússia e China na véspera a uma resolução do Conselho de Segurança que apoiava um plano da Liga Árabe para uma solução política para a Síria. A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, classificou o veto de uma “farsa.”

Hillary, num discurso no domingo em Sofia , Bulgária, culpou a Rússia e a China pela deterioração da situação. "Os países que se recusam a apoiar o plano da Liga Árabe precisarão se responsabilizar pela propagação do regime brutal que se estabelece em Damasco", disse. "E é trágico que, após todo o trabalho que o Conselho de Segurança fez, eles (os países-membros da Liga) tenham tido um voto de 13 a 2."

Mas mesmo com Hillary e outras autoridades do governo prometendo aumentar seus esforços para impedir o governo sírio de obter armas adicionais e de reprimir os manifestantes, alguns especialistas da Síria sugeriram que os EUA terão de tomar medidas adicionais. No mínimo, terão de aprovar o armamento da oposição síria.

Tal medida poderia levar a uma guerra civil. Mas também poderia definir o cenário para uma possível guerra indireta em uma região volátil, conforme os EUA e seus aliados na Europa e no Golfo se unem a oposição síria contra Assad, cujo governo é apoiado pelo Irã e pela Rússia.

"Existe uma certa semelhança com o Afeganistão nessa situação", disse Robert Malley, diretor do programa para o Oriente Médio e Norte da África, do Grupo de Crise Internacional, referindo-se à luta de 1980 na qual mujahedin (combatentes islâmicos) foram apoiados pelos EUA para resistir à invasão soviética do Afeganistão .

"Os EUA continuarão pressionando Assad, mas esse não é o tipo de coisa que mudará o comportamento do regime sírio", disse Malley. "A questão realmente se intensificará quando a violência piorar e eles precisarem tomar um outro tipo de decisão.”

Autoridades do governo de Obama têm sido inflexíveis até agora sobre a possibilidade de os EUA intervirem militarmente na Síria. "Olha, não espere outra Líbia ", disse um funcionário do governo no domingo, falando sob condição de anonimato.

Mas acrescentou: "Há um perigo crescente de que, caso a opressão de Assad continue, outros poderão avançar para ajudar a oposição." Entre esses "outros", segundo Malley e especialistas em Oriente Médio, poderiam estar a Arábia Saudita, o Catar e a Turquia .

Hillary , que chamou o Conselho de Segurança de “incapacitado", disse que os EUA trabalharão com seus aliados em novas sanções contra a Síria, que buscam acabar com as fontes de dinheiro do governo, bem como com carregamentos de armas que permitem que Assad ataque com tanta força os manifestantes. Ela insistiu que os EUA "apoiarão os planos políticos pacíficos da oposição para que haja alguma mudança”.

Mas Hillary também indicou que consegue enxergar uma guerra civil adiante. "Muitos sírios sob ataque de seu próprio governo começam a tentar se defender, o que é uma reação esperada”, disse.

Desde que os protestos pela democracia se espalharam pela Síria há quase 11 meses, o governo de Obama tem se esforçado para que não pareça que Washington tenta orquestrar o resultado na Síria, por medo de que a imagem da intervenção dos EUA possa prejudicar a oposição em vez de ajudá-la. Em particular, disseram autoridades do governo, o país não quer dar ao governo iraniano - que tem uma participação enorme no governo sírio e é o maior aliado de Assad - uma desculpa para intervir.

Mas a violência de Assad, em particular o ataque mortal lançado em Homs no fim de semana e a violência que tem escalado rapidamente por todo o país, parece ter feito com que as conquistas do último governo americano fossem descartadas.

O presidente Obama fez uma declaração na sexta-feira comparando Assad a seu pai, Hafez, que governou a Síria com mão de ferro durante três décadas. "Trinta anos depois de seu pai ter massacrado dezenas de milhares de inocentes (homens, mulheres e crianças) sírios em Hama , Bashar al-Assad demonstrou um desprezo semelhante para com a vida e a dignidade humanas", disse.

Ele afirmou: "Estamos em dívida com as vítimas de Hama e Homs e deveríamos aprender uma lição: que a crueldade deve ser confrontada por uma questão de justiça e dignidade humanas." Ele acrescentou que "os cidadãos que sofrem na Síria devem saber: estamos com vocês, e o regime de Assad deve chegar a um fim."

Autoridades do governo não creem que Assad esperará que o tumulto passe para permanecer no poder. Mas reconhecem que muitos fatores tornam a sua saída mais difícil do que as renúncias de dois outros presidentes: Hosni Mubarak , do Egito, e Zine el-Abidine Ben Ali , da Tunísia.

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Reprodução de vídeo divulgada em 07/02 mostra morto sendo carregado durante procissão funerária em Homs, Síria
No centro das preocupações em relação à Síria está o Irã. Embora os governos da Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen tenham caído, os levantes que levaram a esses resultados foram em grande parte internos, com suas ramificações mais significativas limitando-se aos exemplos que davam para o mundo árabe.

No entanto, o colapso da Síria poderia levar a uma explosão externa que afetaria Irã, Líbano, Jordânia, Israel e até mesmo o Iraque, dizem especialistas em política externa, particularmente se formos nos basear na guerra civil que aconteceu no Iraque.

Mas tão importante quanto isso, com o Irã e o grupo libanês Hezbollah apoiando o governo da Síria, os Estados Unidos e o Ocidente – que já vêm lutando para conter as ambições nucleares de Teerã conforme a possibilidade de um ataque militar israelense ao Irã se torna mais eminente - devem calcular como sua interferência na Síria poderia mudar o jogo contra Teerã.

*Por Helene Cooper

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