EUA ampliam negócios ao longo da fronteira com o México

Em meio à violência e à crise econômica, empresas americanas expandem operações em território mexicano

The New York Times |

Quando as últimas notícias sobre a sangrenta guerra dos cartéis de drogas do México
chegam à sede de Nova York, Ken Chandler, o gerente de uma fábrica de produtos eletrônicos americanos na cidade mexicana de Matamoros pega o telefone.

Ele não implora para voltar para casa. Ele implora para ficar.

"Tentamos acalmá-los, dizer que não é hora de fazer as malas", disse Chandler, que supervisiona as operações da empresa na cidade fronteiriça, onde militares chegaram na semana passada para ajudar a polícia a lidar com os cartéis.

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Funcionários trabalham na fábrica de eletrônicos Spellman em Matamoros, no México (29/06)

A empresa para a qual ele trabalha, a Spellman High Voltage, não precisa de muitas garantias. Como muitos outros fabricantes posicionados ao longo da fronteira, incluindo seis empresas apenas em Matamoros, a Spellman está expandindo suas operações e construindo uma nova fábrica depois de ter feito um cálculo que oferece um dos paradoxos mais marcantes destes dias violentos no México: apesar das perspectivas sombrias criadas pela guerra contra as drogas, a economia mexicana está crescendo consideravelmente mais rápido do que a dos Estados Unidos.

Mesmo enquanto as organizações de drogas disputam o terreno ao seu redor, mais séries de TV estão sendo gravadas, mais peças de carro estão sendo encaixotadas e mais aparelhos eletrônicos estão sendo soldados em fábricas de grande porte conhecidas no México como "maquiladoras". O resultado é uma grande quantidade de empregos em algumas das cidades mais violentas do país – um ponto positivo em meio a uma vida permeada pela falência de pequenas empresas, tiroteios e o medo da morte.

No geral, os empregos no setor de manufatura do México cresceram 8,2%, chegando a 1,8 milhão em janeiro, impulsionados principalmente pelo que as autoridades mexicanas chamaram de “recuperar a saúde” das indústrias de automóveis e eletrônicos, o motor da economia ao longo da fronteira. Mesmo Ciudad Juárez, que tem tanto o nível mais elevado de violência quanto o maior número de maquiladoras, acrescentou 1,3% mais empregos, chegando a 176.824 vagas.

Principalmente americanas e posicionadas nos Estados fronteiriços, as fábricas importam matérias-primas isentas e exportam produtos montados, reduzindo o custo das mercadorias nos Estados Unidos e criando empregos que pagam mais do que a média no México (normalmente de US$ 8 a US$ 16 por dia na linha de montagem), mas muito menos do que os salários americanos.

Parte do crescimento das novas fábricas ou sua expansão vêm às custas do fechamento de fábricas nos Estados Unidos. A Electrolux, que fabrica lavadoras, secadoras e outros produtos para o lar, fechou uma fábrica em 2009 em Iowa, mas abriu uma em Juárez no mês passado que deverá empregar 400 pessoas.

Outras são de investidores de ainda mais longe. A Foxconn, uma empresa de Taiwan que fabrica iPhones, computadores Dell e outros equipamentos eletrônicos, é uma das várias empresas asiáticas criando raízes no país. Ela abriu uma fábrica em Juárez no verão passado. Ao longo da costa fica a Posco, uma fabricante de aço da Coreia que anunciou planos para expandir suas operações com uma segunda fábrica que irá empregar 300 pessoas até 2013. Várias outras empresas planejam construir ou expandir em outros Estados também.

Os ganhos não compensaram as perdas durante a recessão global – muitas fábricas foram fechadas ou abriram mão de postos de trabalho, concentrando-se em tornar suas operações mais eficientes por meio da automação e de outras medidas, disseram analistas.

Ainda assim, cidades fronteiriças estão mostrando alguns de seus melhores sinais da vida econômica em meses.

No geral, a economia mexicana, a segunda maior na América Latina depois do Brasil, cresceu 5,5% no ano passado, seu ritmo mais rápido em uma década, e deverá crescer 4,5% este ano, impulsionado em grande parte pela fabricação, bem como o crescimento interno a partir de uma expansão da classe média. A economia dos Estados Unidos, pelo contrário, deve crescer entre 2,7% e 2,9% em 2011, de acordo com projeção do Federal Reserve (banco central americano) do mês passado.

Economistas dizem que o crescimento do México seria ainda mais forte sem a violência dos cartéis, que nos últimos cinco anos deixou mais de 40 mil mortos, de acordo com jornais de circulação nacional.

E uma vez que a economia americana é primordial para o seu bem-estar, o México poderá sofrer se a recuperação nos Estados Unidos não ganhar impulso. Enquanto o comércio entre os dois países atingiu um recorde no ano passado de cerca de US$ 395 bilhões, o investimento estrangeiro tem falhado, sugerindo que a maior parte do emprego e do crescimento econômico depende das empresas atuais expandirem ou retomarem linhas de produção existentes que foram interrompidas pela recessão.

O Banco do México relata que o investimento estrangeiro foi de US$ 17,7 bilhões no ano passado, longe dos níveis pré-recessão que chegaram a US$ 25 bilhões em investimento e alimentados principalmente por uma única transação: a compra da maior cervejaria do país pela Heineken.

Monterrey, a central de negócios e indústria do país, foi tomada pela violência no ano passado. Mas mesmo lá, no subúrbio, algumas fábricas têm expandido ou anunciaram planos para abrir novas instalações. Para melhor ou pior, as fábricas fazem parte das comunidades que as cercam, mas são protegidas por cercas altas, guardas armados e uma abundância de câmeras.

A violência em grande parte tem poupado as fábricas, embora os trabalhadores não tenham tido a mesma sorte. No outono passado, homens armados, aparentemente à procura de um rival, dispararam contra um ônibus que transportava trabalhadores de uma maquiladora perto de Ciudad Juarez, matando quatro pessoas. Supervisores e gerentes mais bem pagos, tanto americanos quanto mexicanos, tendem a viver do lado americano da fronteira e viajar diariamente até a fábrica.

Os custos de segurança para proteger as fábricas e seus produtos estão subindo e continuam a ser a principal preocupação expressa por potenciais investidores, disse Bob Cook, presidente da Comissão para o Desenvolvimento Regional de El Paso, que ajuda as empresas a recrutar trabalhadores para Ciudad Juárez, a cidade mais violenta do México. "Mas ainda estamos trabalhando com mais empresas agora do que há três anos", disse ele.

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Carlos Castro trabalha na fábrica da Spellman em Matamoros (29/06)

Negócios são negócios, e a proximidade com os Estados Unidos é difícil de esquecer. O aumento no custo da mão de obra, do transporte e do yuan fizeram algumas empresas preferirem o México à China. Apesar de vários assassinatos por dia, o comércio entre Juárez e Texas subiu 47% no ano passado, chegando a US $ 71,1 bilhões.

"Localização central, ótima infraestrutura, fornecedores e mão de obra", disse ele. "Essas coisas não foram alteradas pelo crime organizado".

Promotores do setor argumentam que os empregos adicionais podem ajudar a amortecer o crime, com mais pessoas trabalhando e capazes de sustentar suas famílias. Mas as cidades que têm se beneficiado da fabricação muitas vezes demoram para ajudar os trabalhadores e suas famílias.

"As maquiladoras podem estar crescendo novamente, mas ainda não há muito esforço para atender às necessidades sociais dos trabalhadores e de suas famílias fora das fábricas", disse Quintero Cirila, sociólogo do El Colegio de la Frontera Norte, um grupo de pesquisa com sede em Tijuana. "O investimento feito nas escolas e centros sociais tem sido mínimo. Os governos dizem que não têm dinheiro e as fábricas dizem que estão ali para criar empregos e ajudar a indústria".

Rosalia Carrasco, 41, que trabalhou na Spellman por dois meses, disse que está aliviada por ter trabalho estável, com benefícios. "Eu quero me aperfeiçoar e chegar à frente, como qualquer outra pessoa", disse ela.

Loren Skeist, presidente da Spellman, disse se preocupar com a segurança. A fábrica tomou medidas adicionais de segurança após ladrões roubarem um caixa eletrônico no local no ano passado. Alguns clientes se recusaram a visitar a fábrica, citando a violência, mas no geral ele abraça Matamoros como um investimento inteligente.

"Em termos relativos é razoavelmente seguro", disse ele por telefone de Hauppauge, Nova York. "Há boas razões para se querer estar no México, se você estiver disposto a fazê-lo com segurança".

Por Randal C. Archibold

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