'Eu não conseguia respirar, fiquei inconsciente', conta cambojano

Acidente com mais de 300 mortos é classificado como pior tragédia desde assassinatos em massa no período do Khmer Vermelho

The New York Times |

Os sobreviventes feridos foram instalados no chão do hospital na terça-feira, e os mortos colocados em caixões depois que um dos piores tumultos nos últimos anos matou 347 pessoas.

A causa do tumulto, que aconteceu na noite de segunda-feira durante o encerramento do Festival da Água do Camboja, não está clara, mas a maioria dos mortos foi asfixiada ou pisoteada, esmagados até a morte em uma pequena ponte que ficou tão cheia que os sobreviventes disseram ter sido incapazes de se mover ou mesmo de respirar.

Alguns dos mortos morreram afogados ou por consequência da queda quando saltaram da ponte no rio Bassac ou sobre estacas de concreto nas proximidades. Testemunhas disseram que algumas pessoas feridas ficaram entre os mortos durante horas, pedindo água, enquanto a polícia usava cassetetes para empurrar para trás as multidões para que pudessem limpar a ponte.

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Vítima de acidente é acomodada no chão do Hospital Calmette, em Phnom Penh
"Eles estavam empilhados como lenha em uma pilha, pessoas e mais pessoas. Mais de cinco pessoas", disse Heng Sinith, um fotógrafo da Associated Press que mal conseguia apertar o obturador da máquina enquanto observava. "As pessoas estavam gritando por água", ele disse. "'Por favor me ajude, por favor me ajude!' Eu me sinto tão mal que não pude ajudá-los. Eu não consegui ajudá-los porque eles estavam presos juntos".

O governo negou relatos de que algumas pessoas foram eletrocutadas por fios soltos ou por luzes sobre a ponte. Alguns sobreviventes disseram que a multidão entrou em pânico quando as pessoas gritaram que a ponte estava balançando um pouco à beira do colapso.

A tragédia parece se aproximar do tumulto no qual 362 peregrinos muçulmanos foram esmagados durante um ritual na entrada de uma ponte perto de Meca, na Arábia Saudita, em janeiro de 2006. Em agosto de 2005, pelo menos 950 pessoas morreram em um tumulto durante uma procissão de peregrinos xiitas que atravessavam uma ponte no norte de Bagdá.

Khmer

O primeiro-ministro Hun Sen, qualificou a tragédia como a pior que poderia acontecer no Camboja desde os assassinatos em massa sob o Khmer Vermelho, que governou o país entre 1975 e 1979.

Milhões de pessoas seguem para a capital todos os anos e tomam as margens do rio e suas ilhas formando uma multidão quase impenetrável para ver uma corrida de barco que é o clímax de um festival que marca o fim da estação chuvosa.

A última regata terminou na manhã de segunda-feira, o ultimo dia do feriado, quando um concerto estava sendo realizado na ilha conhecida como Diamond Island, um pedaço longo de terra perto do palácio real na praia.

Um coronel da polícia militar, que entrevistou sobreviventes no Hospital Calmette disse que parecia que as pessoas de ambos os lados da ponte estavam empurrando umas contra as outras, causando o esmagamento.

Um sobrevivente, o estudante Chan Chhay Loeurt, 25 anos, disse não ter ideia do que aconteceu. "As pessoas simplesmente se esmagaram", ele disse. "Eu não conseguia me mover. Eu não conseguia respirar. Eu não conseguia inspirar e respirar. Eu fiquei inconsciente. Quando eu acordei, eu estava em um carro da polícia ao lado de um cadáver".

Corpos

Vídeos do local mostraram corpos espalhados no chão e agentes de resgate correndo frenéticos entre eles. No Hospital Calmette, pessoas procuravam, chorando pelos corredores, entre os corpos que jaziam no chão envoltos em esteiras ou em cangas. Os trabalhadores do hospital jogaram lençóis brancos sobre os corpos. Enfermeiros e medicos corriam de um quarto atolado de macas a outro.

Um sobrevivente, Chhin Chenda, 16 anos, estava deitado em um tapete no corredor. "No começo estávamos com medo de um fio elétrico", ela disse. "Depois disso, caí e as pessoas corriam por cima de mim. As pessoas estavam pisando em mim. Gritei: 'Por favor me ajudem!'".

*Por Seth Mydans

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