Estudos mostram que exame de próstata salva poucas vidas

O exame de sangue de PSA (Antígeno Prostático Específico, em inglês), usado para checar a existência do câncer de próstata, salva poucas vidas e leva a tratamentos de risco desnecessários para um grande número de homens, de acordo com dois grandes estudos.

The New York Times |

As descobertas, as primeiras baseadas em estudos rigorosos e aleatórios, confirmam algumas preocupações antigas sobre a frequente compreensão do exame do câncer de próstata. Embora os estudos ainda estejam em andamento, os resultados obtidos até o momento são considerados significantes e quase definitivos.

O teste de PSA, que mede a proteína liberada pelas células da próstata, cumpre seu dever ¿ indicar a possibilidade de haver um câncer, levando à necessidade de fazer biópsias para determinar se há um tumor. Mas tem sido difícil saber se a descoberta antecipada do câncer salva vidas. A maioria dos cânceres tende a crescer bem devagar e nunca ameaçar a vida dos homens. Quanto aos que crescem rapidamente, mesmo um diagnóstico antecipado pode ser tarde demais.

Os estudos realizados ¿ um na Europa e o outro nos Estados Unidos ¿ são alguns dos mais importantes estudos na história da saúde masculina, disse Dr. Otis Brawley, chefe médico da American Cancer Society (Sociedade Americana do Câncer).

No estudo europeu, 48 homens foram informados que tinham câncer de próstata e fizeram tratamentos sem necessidade. Para cada um desses 48 homens, apenas uma morte foi evitada em uma década, após o paciente ter feito o exame de PSA.

Dr. Peter B. Bach, físico e epidemiologista do Centro de Câncer Memorial Sloan-Ketterring em Nova York, disse que uma forma de pensar nos dados é supor que um homem tenha feito um exame de PSA hoje. Há uma chance em 50 de que, em 2019 ou depois, a morte do indivíduo por câncer seja evitada. E há 49 chances em 50 de que ele seja tratado desnecessariamente por um câncer que nunca ameaçou sua vida.

O tratamento do câncer de próstata pode resultar na impotência e incontinência quando a cirurgia é usada para destruir a próstata e, às vezes, pode causar dores na defecação ou diarréia crônica quando o tratamento é feito por radiação.

Assim que o exame de PSA foi introduzido, em 1987, ele se tornou uma parte rotineira dos cuidados da saúde para homens de 40 anos ou mais. Especialistas discutem seu valor, mas suas visões são amplamente baseadas em dados pouco convincentes, que frequentemente envolvem modelos estatísticos e suposições.

Agora, com os novos dados, especialistas em câncer disseram que homens deveriam tomar cuidado ao considerar os riscos e benefícios possíveis do tratamento, antes de decidir fazer o exame. Alguns podem até decidir nunca fazê-lo.

Por anos, a sociedade do câncer pediu aos homens para se informarem antes de optarem por fazer o teste de PSA. Agora realmente temos algo para informá-los, disse Brawley. Temos números.

A divulgação dos dados dos dois novos estudos deveria mudar a discussão, disse Dr. David Ransohoff, residente e epidemiologista de câncer na Universidade da Carolina do Norte.

Esse não é mais um exercício abstrato e conduzido por deduções. Esse é o mundo real e esses são os dados reais, disse Ransohoff.

Dr. H. Gilbert Welch, professor de medicina em Darthmouth, que estuda exames de câncer, também parabenizou os novos dados. Esperamos por isso há anos, disse. É uma pena que não tínhamos isso há 20 anos.

Ambos os relatórios foram publicados online, nesta quarta-feira, por The New England Journal of Medicine (Diário de Medicina de Nova Inglaterra). Um deles contou com 182 mil homens de setes países europeus; o outro, feito pelo Instituto Nacional do Câncer, envolveu quase 77 mil homens em 10 centros médicos nos Estados Unidos.

Nos dois estudos, os participantes foram designados aleatoriamente para serem examinados ¿ ou não ¿ pelo teste de PSA. Em cada estudo, dois grupos foram observados por mais de uma década enquanto pesquisadores contavam as mortes por causa de câncer de próstata, perguntando-se se os exames fizeram alguma diferença.

Os dados europeus envolveram uma parceria de estudos com diferentes objetivos. Considerando-os ao mesmo tempo, os estudos mostraram que os exames estavam associados a 20% de uma redução relativa na taxa de morte causada por câncer de próstata. Mas o número de vidas salvas se mostrou pequeno ¿ sete mortes a menos para cada 10 mil homens examinados e observados por nove anos.

O estudo americano, conduzido pelo Dr. Gerald. L. Andriole da Universidade de Washington, tinha apenas um objetivo. Ele não encontrou redução nas mortes por câncer de próstata após observar a maioria dos homens por 10 anos. Cada homem foi observado por ao menos sete anos, disse Dr. Barnett Kramer, co-autor de um estudo do Instituto Nacional de Saúde. Nesse período, a taxa de morte foi 13% menor nos grupos que não realizaram o exame.

POR GINA KOLATA


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