Estudo examina perigos de se caminhar em Nova York

Relatório será usado pelo governo Bloomberg para definir mudanças nas ruas e tornar cidade mais segura para pedrestes

The New York Times |

Nunca foi fácil andar com segurança pelas ruas de Nova York, onde hoje os automóveis passam a centímetros de distância de pedestres falando ao telefone, e toda travessia parece uma versão humana do jogo de fliperama Frogger.

Mas um relatório divulgado na segunda-feira pelos planejadores do transporte oferece uma visão incomum da vida precária nas ruas da cidade, identificando onde, quando e por que atropelamentos têm ocorrido com mais frequência. O estudo confirma alguns dos pressupostos sobre o transporte na maior cidade do país, mas enfraquece outros.

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Veículo tenta fazer curva enquanto pedrestes atravessam a rua em Times Square

Táxis, ao que parece, não são uma ameaça: juntamente com ônibus e caminhões, eles são responsáveis por um número muito menor de atropelamentos em Manhattan do que os automóveis particulares. Pessoas que atravessam fora da faixa estiveram menos envolvidas em colisões do que aquelas que cumpriram a lei e esperaram o “sinal verde”, apesar de estarem mais propensas a serem mortas ou seriamente feridas em colisões.

Em 80% dos acidentes que resultaram na morte ou lesão grave de um pedestre, um motorista do sexo masculino estava atrás do volante (57% dos veículos da cidade de Nova York pertencem a homens, de acordo com seus registros).

O estudo, que o Departamento de Transportes da cidade descreveu como o mais ambicioso do tipo a ser realizado nos Estados Unidos, examinou mais de 7 mil acidentes que ocorreram em Nova York entre 2002 e 2006 e que resultaram em morte ou lesões graves de pelo menos um pedestre.

Espécie de manual de segurança e retrato urbano, o relatório oferece um olhar revelador sobre os bairros, avenidas e horários do dia mais perigosos para pedestres e motoristas. “Esta é a pedra fundamental para a segurança nas ruas de Nova York”, disse Janette Sadik-Khan, comissária de transporte.

As descobertas também podem se tornar uma ferramenta para o governo de Bloomberg ampliar a sua mudança nas ruas da cidade, que já salva vidas. Essas mudanças, que irritaram muitos motoristas, incluem restrição de veículos em grandes avenidas e a substituição de centenas de vagas de estacionamento por ciclovias e calçadas. A cidade diz que já está planejando uma série de mudanças nas ruas com base nos dados do relatório.

Dezenas de vagas de estacionamento serão removidas no próximo ano de uma grande avenida de Manhattan – as autoridades não quiseram confirmar qual delas – em um experimento destinado a tornar mais fácil para os condutores virar à esquerda e para os pedestres que atravessam um cruzamento ver uns aos outros. A cidade também irá instalar relógios de contagem regressiva em 1.500 cruzamentos para informar aos pedestres quantos segundos restantes até que o semáforo abra.

Em Manhattan, cerca de 16% dos atropelamentos que levaram a morte ou lesão grave envolveram um táxi. Os táxis representam apenas 2% dos veículos registrados na cidade, mas em alguns momentos do dia podem representar quase metade do tráfego de Manhattan, segundo algumas estimativas – desafiando a percepção amplamente difundida de que os taxistas são os culpados pelas atrocidades no trânsito. Por toda a cidade, 79% dos acidentes graves envolveram veículos particulares, 13% envolveram táxis, 4% envolveram caminhões e 3% envolveram ônibus.

A desatenção do motorista, ao invés da embriaguez, é a causa mais comum de acidentes, citada como um fator que contribui em 36%.

Novembro e dezembro foram os meses mais perigosos para os pedestres, concluiu o relatório, citando uma combinação de multidões de férias e o fato de o dia escurecer mais cedo. O Ano Novo traz calma, com a taxa de acidentes caindo de maneira acentuada em janeiro e fevereiro.

Cerca de 40% dos atropelamentos em Nova York acontecem entre 3h e 9h, segundo o estudo. Ainda assim, em Nova York as colisões que ocorrem no início da manhã estiveram mais propensas a resultar em morte.

Em geral, as ruas de Nova Iorque tornaram-se marcadamente mais seguras na última década, com as mortes de pedestres caindo cerca de 20% desde 2001. A cidade registrou 256 acidentes de trânsito no ano passado, número que as autoridades descrevem como o menor desde 1910, o primeiro ano em que os registros foram mantidos.

Nova York agora é muito mais segura do que a maioria das outras cidades americanas, com metade da taxa de mortalidade per capita de Atlanta, Detroit e Los Angeles. Mas Nova York ainda está atrás de outras cidades do mundo, como Berlim, Londres, Paris e Tóquio, na segurança dos pedestres.

“Um acidente já é desnecessário”, disse Sadik-Khan, que disse que o relatório de segunda-feira irá ajudar seu departamento a “resolver o enigma de por que as pessoas estão morrendo e onde elas estão morrendo na cidade”.

Sadik-Khan e o prefeito falaram à imprensa na esquina da Avenida Norte com a Rua 108, no bairro do Queens, onde um sinal de contagem regressiva para pedestres foi instalado no fim de semana.

No entanto, alguns pedestres pareciam alheios à sua presença. Laura Bautista, 58, auxiliar doméstica, correu para atravessar a rua – o sinal ficou vermelho antes que ela chegasse do outro lado.

“Às vezes você tem que correr”, disse ela. “Estou atrasada porque tenho que cuidar dos meus netos. Eu normalmente presto atenção ao farol, mas hoje tive que correr”.

Por Michael M. Grynbaum

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