Estudo capta a atividade cerebral no momento da lembrança

Cientistas captaram pela primeira vez as células do cérebro durante a reunião de uma memória espontânea, revelando não só onde uma experiência é registrada, mas também, em parte, como o cérebro está apto a recriá-la.

The New York Times |

As captações, recolhidas do cérebro de pacientes com epilepsia sendo preparados para a cirurgia, demonstraram que as memórias espontâneas residem em alguns neurônios que se excitavam mais furiosamente quando a lembrança era experimentada. Pesquisadores há muito tempo teorizam, mas até hoje só tiveram evidências indiretas. 

Especialistas dizem que o novo estudo fez tudo menos encerrar o caso: no que diz respeito às lembranças, ainda há muito a ser feito (pelo menos no curto prazo, na medida em que a pesquisa não diz nada sobre memórias distantes.)

O experimento, reportado na sexta-feira pelo jornal científico Science, provavelmente abrirá uma nova investigação sobre a doença de Alzheimer e outras formas de demência, alguns especialistas disseram, assim como poderá explicar como algumas memórias parecem chegar de lugar nenhum. Os pesquisadores foram capazes até de identificar memórias específicas relacionadas a algum assunto um segundo ou dois antes das pessoas reportarem sobre essas memórias.   

Essa foi o que chamo de descoberta fundamental, disse Michael J. Kahana, professor de psicologia na Universidade da Pensilvânia, que não estava envolvido na pesquisa. Eu não consigo pensar em nenhum outro estudo que se compare a este.

É realmente uma peça central no quebra-cabeça da memória e um importante passo para nos ajudar a preencher os detalhes do que acontece exatamente quando o cérebro executa essa viagem mental de relembrar experiências passadas.

O novo estudo foi mais além que outras pesquisas sobre memórias porque não se focou só no reconhecimento e reunião de símbolos específicos. Mas também na lembrança voluntária ¿ qualquer coisa que dispara na cabeça das pessoas quando, nesse caso, elas são questionadas sobre seqüências de pequenos clipes que elas acabaram de ver.

Essa habilidade de reconstruir de maneira rica experiências passadas geralmente se deteriora em uma pessoa com Alzheimer e outras formas demência, e é fundamental na chamada memória casual ¿ um catálogo de vinhetas que juntas formam nossas memórias passadas.  

O experimento

No estudo, um time de pesquisadores americanos e israelenses colocou pequenos eletrodos no cérebro de 13 pessoas com epilepsia aguda. Os eletrodos implantados são procedimento padrão em muitos casos, permitindo aos médicos localizarem as mini-tempestades da atividade cerebral que provocam os ataques de epilepsia. 

Os pacientes assistiram uma série de 5 a 10 segundos de programas de TV populares como Seinfeld e outros que descreviam animais e pontos turísticos como a Torre Eiffel. Os pesquisadores captaram a atividade excitada de 100 neurônios por pessoa; os neurônios captados estavam concentrados ao redor do hipocampo, uma fatia de tecido no fundo do cérebro conhecida por ser importante na formação das memórias.

Em cada pessoa, os pesquisadores identificaram células sozinhas que tiveram forte atividade durante alguns vídeos e ficaram mais calmas durante outros. Mais da metade das células observadas registraram atividade em resposta a pelo menos um clipe; muitas delas também responderam de maneira fraca a outros.

Depois de distrair os pacientes por alguns minutos, os pesquisadores pediram para eles pensarem sobre os clipes por alguns minutos e depois contar o que vier à mente. Os pacientes lembraram de quase todos os clipes. E quando eram perguntados sobre algum específico ¿ um clipe do Homer Simpson ¿ as mesmas células que estavam em atividade durante o clipe do Homer se manifestaram. Na verdade, algumas células se tornaram mais ativas um segundo ou dois antes das pessoas estarem conscientes da memória, o que sinalizou aos pesquisadores qual memória seria ativada.  

É impressionante ver esse resultado em um único experimento; o fenômeno é forte, e estamos escutando no lugar certo, disse o autor Dr. Itzhak Fried, professor de neurocirurgia na University of Califórnia (UCLA), em Los Angeles, e da University of Tel Aviv, em Israel.

Esses pacientes estavam em um departamento barulhento, havia muita coisa acontecendo ao redor deles, mas mesmo assim você pode ver essa reposta absolutamente vigorosa nos neurônios individuais, adicionou Fried, cujo co-autor foi Hagar Gelbard-Sagiv, Michal Harel e Rafael Malach do Weizmann Institute of Science em Israel, e Roy Mukamel, da UCLA.

Fried disse por telefone que os neurônios com atividade mais intensa durante a exibição dos clipes não estavam isolados, mas, como outras células, eram parte de um circuito que respondia aos vídeos, incluindo milhares, talvez milhões, de outras células.  

Evidência biológica

Em estudos com roedores, incluindo um artigo que será publicado na sexta-feira no jornal Science, neurocientistas mostraram que células especiais no hipocampo são sensíveis de localizarem, ativadas quando o roedor passa por um determinado caminho do labirinto. O padrão de atividade dessas células forma a memória regional do animal e pode prever qual será o próximo movimento do animal, mesmo que ele faça um movimento errado.

Alguns cientistas argumentam que como os humanos envolvidos, essas mesmas células se adaptaram para registrar uma longa lista de elementos ¿ incluindo sons, cheiros, hora do dia e cronologia ¿ quando uma experiência ocorre em relação a outras.

Células individuais não podem capturar todo o circuito envolvido na memória, o que deve ser distribuído por toda a área do hipocampo, dizem os especialistas. E, na medida em que o tempo passa, as memórias são consolidadas, submergem, talvez se reorganizam e geralmente se transformam quando são resgatas mais tarde.

Apesar de não identificar esse processo de longo prazo, o novo estudo sugere que pelo menos alguns dos neurônios que se excitam quando uma memória distante vem à mente são aqueles que tiveram maior atividade no momento do acontecimento, independente de quando ele ocorreu.

A coisa mais instigante sobre isso, disse Kahana, professor da  University of Pennsylvania, é que isso nos dá uma evidência biológica daquilo que só teorizávamos.

Por BENEDICT CAREY

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