Estudantes chilenos pressionam por reforma com beijaços e danças

Há descontentamento no Chile com o modelo neoliberal e suas consequências para aqueles que não fazem parte da elite econômica

The New York Times |

Com um cobertor esticado sobre suas pernas, Johanna Choapa e Maura Roque, ambas de 17 anos, sentaram-se na frente do palco em um frio auditório de escola na semana passada com mais de 300 pais e professores para debater se continuariam a apoiar sua greve de fome que visa a pressionar o governo do Chile a reformar o sistema educacional do país.

"Queremos que o governo sinta a pressão de vocês e de nós, por isso precisamos de muito apoio", disse Roque, que afirmou estar em uma dieta apenas de líquidos há 11 dias.

EFE
Estudante é detido durante protestos no Chile em 4 de agosto de 2011
Cerca de três dezenas de estudantes do ensino médio e universitário adotaram a greve de fome para pressionar o governo do presidente Sebástian Piñera. Nos mais de dois meses desde que começaram os protestos pela educação no país, os estudantes organizaram manifestações que atraíram até 100 mil participantes, assumiram o controle de dezenas de escolas de todo o país e forçaram outras centenas a parar as aulas. Seus protestos e os motivos que os levaram às ruas ajudaram a afundar a popularidade do presidente ao seu nível mais baixo desde que ele assumiu o cargo no ano passado.

Se a Primavera Árabe perdeu seu impulso do outro lado do mundo, as pessoas aqui estão vivendo o que alguns chegaram a chamar de Inverno Chileno. Segmentos da sociedade que eram vistos como politicamente apáticos alguns anos atrás, particularmente os jovens, tomaram uma postura de confronto incomum em relação ao governo e à elite de negócios, exigindo mudanças nos transportes, na educação e na política energética, às vezes violentamente.

Na quinta-feira, em um dos dias mais longos e violentos de protestos até o momento, estudantes secundaristas e universitários entraram em confronto com a polícia, que usou canhões de água e gás lacrimogêneo para dispersar centenas de manifestantes. Ao cair da noite, o gás lacrimogêneo cobria grandes áreas de Santiago, mais de 500 pessoas foram detidas , cerca de metade na capital, e mais de uma dezena de policiais e manifestantes ficaram feridos. Manifestantes armaram diversas barricadas em chamas na cidade, enquanto as pessoas batiam panelas e frigideiras fora de suas casas em apoio ao movimento estudantil e denunciavam a repressão da polícia.

"O país inteiro está assistindo a esse movimento", disse Eduardo Beltran, 17, aluno do Instituto Nacional, onde os alunos tomaram o controle da escola. "A geração dos nossos pais", disse, "está nos observando com esperança e com fé de que temos a força para mudar esse sistema de ensino e fazer história."

Mesmo que o Chile pareça ser um modelo de consistência econômica e de gestão fiscal prudente para o mundo exterior, no país há um profundo descontentamento com o modelo neoliberal e suas consequências econômicas para aqueles que não fazem parte da elite econômica.

Esse sentimento têm se desenvolvido há anos, mas foi mais percebido apenas recentemente. Em 2010, quando Piñera se tornou o primeiro presidente da ala direita da nação desde a ditadura do general Augusto Pinochet, os eleitores jovens ficaram à margem, com poucos deles se registrando para votar. Mas, na sexta-feira, Piñera observou que os chilenos estão testemunhando uma "nova sociedade" onde as pessoas "se sentem mais fortalecidas e querem sentir que são ouvidas."

Ele disse que os chilenos estão se rebelando contra a "desigualdade excessiva" em um país que tem a maior renda per capita na América Latina, mas também tem uma das distribuições de renda mais desiguais da região. "Eles estão pedindo uma sociedade mais justa, uma sociedade mais igualitária", disse, "porque as desigualdades que vivemos no Chile são excessivas e, acho, imorais."

Ainda assim, ele também mostrou impaciência com os manifestantes, dizendo nesta semana que "há um limite para tudo".

Os protestos estudantis se tornaram cada vez mais criativos. Há pelo menos duas ou três pessoas correndo em torno de La Moneda, o palácio presidencial, tentando completar 1,8 mil voltas para simbolizar os US$1,8 bilhão por ano que os manifestantes exigem para o sistema educacional público do Chile. Eles carregam bandeiras que dizem "Educação Grátis Agora".

Outros realizaram um “beijaço” , vestiram-se como super-heróis, dançaram como zumbis ao som de "Thriller", de Michael Jackson, e chegaram até mesmo a encenar um suicídio coletivo onde caíam em uma pilha de corpos. Alunos e professores dizem que estão determinados a não repetir os erros de 2006, quando um movimento de protesto apelidado de Los Pinguinos, em homenagem aos uniformes azul escuro e branco dos alunos das escolas públicas, desencadeou uma crise para a ex-presidente Michelle Bachelet, mas não conquistou reformas profundas.

Os protestos foram, em seguida, sobre o financiamento desigual e a qualidade da educação do ensino fundamental e médio, uma reclamação ainda presente. Mas este ano o foco foi ampliado para incluir exigências de um sistema universitário mais barato e acessível. Pinochet decretou um sistema em 1981 que incentivou o desenvolvimento de universidades privadas e com fins lucrativos, o que levou a grandes dívidas entre os estudante.

Antes do decreto de Pinochet havia oito universidades financiadas pelo Estado e menos de 150 mil estudantes universitários no Chile. O Estado começou a reduzir o financiamento do governo para as universidades públicas, e dezenas de universidades privadas foram abertas no país. Hoje há 1,1 milhão de alunos nas universidades do Chile, em um país de cerca de 17 milhões de habitantes. Mais desses estudantes estão em faculdades privadas do que nas públicas.

"O sistema é muito caótico e não funciona", disse Maria Olivia Monckeberg, autora de dois livros sobre o sistema universitário do Chile. "Os estudantes e suas famílias estão tremendamente endividados", afirmou, e "a qualidade educacional é totalmente discutível".

Isso levou a algumas escolhas difíceis para muitos estudantes universitários. "Gostaria de estudar psicologia, mas não tenho certeza se posso por causa do preço", disse Roque. "Não tenho os meios para pagar por isso."

Piñera prometeu lidar com a reforma universitária, mas no final de abril líderes estudantis perderam a paciência e começaram a organizar protestos. Grupos estudantis do ensino médio e associações de pais e mestres do país logo uniram forças exigindo, entre outras coisas, que as escolas municipais, muitos das quais estão degradadas, sejam acolhidas pelo Ministério Nacional de Educação para assegurar o financiamento equitativo e a prestação de contas.

Os líderes dos protestos também estão pressionando por mudanças constitucionais para garantir a educação gratuita de qualidade da pré-escola até o ensino médio e um sistema universitário financiado pelo Estado que garanta acesso à educação de qualidade e igualitária.

AFP
Policiais patrulham ruas perto do Palácio La Moneda, em Santiago (05/08)
Onde os alunos tomaram o controle das escolas públicas, eles organizaram a segurança e colocaram latas nas ruas para coletar dinheiro para pagar por suprimentos.

As cerca de três dúzias de estudantes que permaneceram em greve de fome esta semana se reuniram sob chapéus e cobertores de lã nas escolas sem aquecimento. Na escola de Choapa e Roque, quatro dos grevistas, com idades entre 17 e 18, acamparam em colchões em uma sala no segundo andar, onde um vento forte soprava por um grande buraco feito em uma janela por uma pedra jogada por alguém recentemente. Em outra escola, líderes estudantis exigem que as pessoas usem máscaras hospitalares e desinfetem as mãos com gel antes de falar com as três meninas em greve de fome.

"Por muitos anos a geração dos nossos pais teve medo de fazer protestos e de reclamar, pensando que era melhor se conformar com o que estava acontecendo", disse Camila Vallejos, líder de um grupo de estudantes universitários. "Os estudantes estão dando um exemplo sem o medo que os nossos pais tiveram."

*Por Alexei Barrionuevo

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