Estradas se tornam ferramenta de protestos na Índia

Colcha de retalhos étnica em remoto Estado indiano faz com que tribos rivais bloqueiem rodovias para reivindicar territórios

The New York Times |

Durante o meio do ano, o telefone de Homindon Singh Lisam tocou sem parar. Como médico e administrador hospitalar do remoto Estado indiano de Manipur, ele está acostumado com o processo. Mas dessa vez era diferente.

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Paciente é cuidado por equipe e familiares em hospital público, cujo acesso a suprimentos médicos está restrito por bloqueios em Imphal, Índia

O grupo tribal Kuki, que busca a criação de um distrito separado em sua área administrativa, impôs um bloqueio em agosto, impedindo o trânsito nas duas únicas estradas que levam a cidade de Imphul, e com isso o acesso de Lisam a suprimentos médicos essenciais. Tubos de oxigênio, vitais para a cirurgia, já eram escassos. Todos os procedimentos não-emergenciais foram cancelados por tempo indeterminado.

"Muitos pacientes vêm a mim e imploram para conseguir suas cirurgias", disse Lisam. "Eu digo a eles: ‘Uma hérnia pode esperar’”.

É um fato surpreendente, mas verdadeiro, e um indicativo dos desafios peculiares da Índia, que um Estado inteiro da democracia mais populosa do mundo, e uma potência econômica em ascensão, ainda possa ser mantido refém por um pequeno grupo étnico que exige uma quantidade relativamente modesta de controle administrativo local.

O remoto nordeste da Índia é anexado ao resto do país por um fio delgado de território ao longo da fronteira norte de Bangladesh. Ali, existe um cruzamento entre Índia, Mianmar, China e Nepal, e uma colcha de retalhos étnica e religiosa, povoada por uma mistura diversificada de tribos indígenas. Além de muçulmanos e hindus, muitas das tribos são cristãs ou praticam religiões tradicionais menores.

Com isso, a política se torna fraturada na região, desde o extremo leste de Bengala Ocidental até as profundezas de Arunachal Pradesh, de Assam a Tripura. Alguns lugares têm sofrido com insurgências, enquanto outros mantiveram-se latentes por décadas em um fervor menor.

A violência caiu drasticamente em Manipur, antes um dos Estados mais rebeldes do país. Mas o local continua frágil. "Manipur é como uma mini-Índia," disse Nongthomban Biren, ministro do governo do Estado e seu porta-voz. "Existem 36 tribos em um Estado pequeno. Temos que ter muito cuidado. Se algo acontece e fere os sentimentos de alguém, isso é um grande problema."

Duas estradas principais ligam Manipur ao resto da Índia, deixando-o vulnerável ao bloqueio por qualquer grupo que tenha um problema com o governo.

Tais protestos têm sido parte da rotina da vida aqui há quatro décadas. O bloqueio dessa temporada durou mais de três meses, custando ao Estado dezenas de milhões de dólares. Como outros bloqueios ao longo dos anos, esse acabou tão abruptamente como começou, quando o governo estadual informou que vai criar um distrito para o Kukis.

Mas já havia outro bloqueio parcial em seu lugar, realizado por um grupo étnico de oposição ao movimento. Durante todo o inverno, a gasolina esteve em falta e o racionamento em vigor. As pessoas fizeram fila por horas, estacionando seus carros durante a noite e voltando a esperar novamente pela manhã, para obter apenas alguns litros. Na remota e isolada Manipur, os bloqueios garantem que a pequena vida comercial existente fique sufocada.

Normalmente, quando Manipur é fechada por fora, os manifestantes são do grupo étnico Naga, que querem dividir o Estado em grandes partes e formar o que chamam de Grande Nagaland, uma versão ampliada do atual Estado de Nagaland.

Dessa vez, porém, outro grupo tribal estava bloqueando as estradas. Os Kukis são uma tribo que vive na colina e que se queixa do domínio dos Nagas e dos Hindu Meiteis do Vale Imphal - dominantes da vida política e econômica em Manipur.

A fim de ter um maior controle sobre o desenvolvimento de sua comunidade e auto-governança, ativistas Kuki estão exigindo que o governo estadual crie um novo distrito, que seja uma unidade administrativa local, na metade sul do distrito. Embora possa parecer uma proposta modesta, os Naga se opõem a ela porque temem que um distrito dominado por Kuki possa atrapalhar seus planos para o Grande Nagaland. "Os Nagas são contra isso", disse Biren, com cansaço em sua voz. "Se o Nagas ficarem com raiva, isso afeta todo o Estado."

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Mulher discute com militar do Exército indiano em local onde bloqueio foi imposto pela tribo Kuki, em Manipur, Índia

O governo, apesar de leis anti-insurgência que permitem reprimir duramente a dissidência, foi incapaz de parar o bloqueio. Mas é fácil entender por quê. A aldeia de Gamgiphai, nos arredores de Imphal, foi uma das linhas de frente do bloqueio. Os aldeões cavaram uma vala no asfalto da estrada, que proíbe todo o tráfego.

Uma multidão enorme de mulheres cercou um exército de jovens, que argumentava com elas. "Peço a todas que se acalmem", disse um soldado em um megafone. "Pedimos desculpas ao povo."

Houve várias versões diferentes do que levou a esse protesto de improviso, mas o mais comum dizia que um soldado paramilitar tentou romper o bloqueio em sua moto. As mulheres se colocaram em seu caminho e, de acordo com Lamshi Haokip, uma dona de casa e mãe de três filhos, ele as ameaçou. "Ele disse: 'Eu sou um soldado. O que vocês mulheres podem fazer contra soldados?'" disse Haokip.

O major do Exército claramente tentava acalmar os ânimos, mas tinha pouco sucesso. "Por favor, ouçam-me", suplicou. "Estou aqui para ajudá-las. O que aconteceu foi resultado de um mal-entendido. Estou aqui de mãos vazias. Eu não tenho nenhuma arma comigo."

Uma professora chamada Kimboi estava um pouco distante da cena, usando um vestido amarelo. Ela explicou por que apoiou o bloqueio. "Não é apenas o povo no vale que sofre", disse. "É tempo de colheita. A maioria do nosso povo é agricultor. Esse é um grande sacrifício para nós. Nós não estamos tentando destruir Manipur. Não estamos pedindo algo apenas para nós. Nós só queremos o controle sobre nosso próprio desenvolvimento."

Lakhi Kanta, um advogado de Imphal, disse que esses bloqueios são quase inteiramente culpa do próprio governo. "Ninguém leva a sério a resolução desse problema", disse. "Há tantas forças centrais e elas não podem garantir a segurança local? É simplesmente falta de vontade. Como cidadãos comuns desse Estado, nós estamos vivendo com grandes dificuldades."

Por Lydia Polgreen

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