Estônia tenta eliminar o russo de seu vocabulário

Campanha do governo tenta elevar status do estoniano e marginalizar a língua do antigo colonizador, a Rússia

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Professora dá aula de inglês em escola russa de Tallin, na Estônia
Antes do final do ano escolar, um homem de prancheta na mão visitará a melhor escola da cidade de Tallin, na Estônia, o Ginásio Tallinn Pae. O corpo docente já está preocupado. Ele irá de sala de aula em sala de aula, ignorando as crianças e, aparentemente, jogando conversa fora com muitos dos professores - 20 minutos cada.

"Me diga, em que matérias você se especializa? Há quanto tempo trabalha aqui? Você pode explicar como prepara suas aulas?"

Mas ele não estará interessado no que respondem. Ele se preocupará apenas em como eles respondem.

Cuidado com a gramática. O inspetor da língua está chegando.

A Estônia, uma pequena ex-república soviética no mar Báltico, implementou uma campanha determinada a elevar o status de sua língua nativa e marginalizar o russo, língua de seu antigo colonizador. Isso transformou as escolas públicas como o Ginásio Tallinn Pae, onde as crianças há muito aprendem o russo, em campos de batalhas linguísticos.

Uma vez que os administradores e professores da escola Pae são funcionários públicos, eles agora precisam ter uma certa proficiência em estoniano e usar a língua durante as aulas. A Superintendência da Língua Nacional, uma agência do governo que não é adorada pelos enclaves russos no país, tem a tarefa de garantir que a lei seja cumprida.

O inspetor da língua tem o direito de multar ou disciplinar publicamente os funcionários que não falem o estoniano corretamente. Ainda que a agência tenha apenas 18 inspetores, sua existência é um símbolo tão provocativo das regulamentações do país que até mesmo a Anistia Internacional criticou suas táticas pesadas.

O Ginásio Tallinn Pae se orgulha de preparar alunos que podem recitar Pushkin tão bem quanto qualquer moscovita, e valoriza a qualidade e instrução de sua equipe. Portanto foi humilhante quando, na mais recente inspeção, cerca de um terço dos 60 professores foi reprovado.

A esta altura, os professores não são demitidos ou disciplinados pelo mau conhecimento do estoniano.

Aqueles que foram reprovados já temem a próxima visita, que pode acontecer a qualquer momento. “Ele escreveu um relatório dizendo que eu entendi todas as perguntas, que respondi todas as perguntas, mas cometi erros", disse Olga Muravyova, professora de biologia e geografia, rindo nervosamente ao se lembrar do último encontro com o inspetor.

“Isso é o que ele disse", afirmou Muravyova. “Claro, isso é difícil de ouvir".

Depois que o inspetor a reprovou, ele a instruiu a fazer aulas de estoniano, o que a professora tentou fazer. Mas aos 57 anos não é fácil aprender uma nova língua, muito menos uma tão diabolicamente complexa como o estoniano, que é muito diferente do russo. ( O estoniano está intimamente ligado ao finlandês e as duas línguas estão entre os poucas faladas na Europa que não são parte da família Indo-Europeia.)

Embora o exame seja apenas uma conversa em estoniano, mesmo aqueles que passaram dizem que a experiência é desagradável.

"Honestamente, foi muito difícil", disse Vladan Shirokova, professor de inglês. "Eu fiquei ansioso antes de passar pelo exame e durante também. Foi muito estressante, em termos emocionais. Acho que é um dessas coisas de professores, para quem é horrível cometer um erro, fazer alguma coisa incorreta".

A tensão sobre a situação do estoniano reflete um debate mais amplo na antiga União Soviética a respeito da primazia das línguas nativas e o papel do russo. Durante centenas de anos, os soviéticos e czares antes deles exigiam o uso do russo nas terras que dominavam. Isso ajudou a unir povos muito diferentes e a garantir lealdade a uma autoridade central. No entanto, línguas locais, incluindo o estoniano, muitas vezes foram reprimidas.

Desde o colapso da União Soviética, em 1991, antigas repúblicas soviéticas têm tentado impulsionar identidades nacionais através da promoção de suas línguas. Disputas linguísticas se espalharam por toda a antiga União Soviética. O Kremlin, consciente de que o recuo da língua russa poderia reduzir sua influência, protestou contra leis que restringem seu uso em países vizinhos, incluindo a Estônia.

A questão é particularmente contenciosa na Estônia e Letônia porque esses países exigem fluência em suas línguas para a obtenção da cidadania. Cidadãos de etnia russa e outros que falam a língua nos dois países muitas vezes perderam os direitos de se tornarem cidadãos.

Na Estônia, cerca de 30% dos seus 1,3 milhões de habitantes falam o russo como primeira língua, e o governo parece obstinado a usar as escolas para diminuir este número. O russo é ainda mais prevalente em Tallin, a capital, um legado da era Soviética quando muitos estrangeiros foram estabelecidos aqui.

Ilmar Tomusk, diretor geral da Superintendência da Língua Nacional, disse em uma entrevista que seus inspetores testam os conhecimentos da língua estoniana em todo o tipo de funcionário público, de oficiais a motoristas de ônibus.

"Mas o problema mais importante para a nossa política linguística são os professores das escolas russas", ele explicou. "O nível linguístico dos professores é inferior ao que exigimos dos alunos".

Ele disse quase metade das escolas públicas de Tallin usam a língua russa e o governo está impondo novas regras que os obrigam a ensinar 60% das matérias em estoniano. Escolas como o ginásio Pae - que tem 575 alunos com idades entre 7 e 19 anos - serão essencialmente transformadas de escolas russas para bilíngues. Mas elas não podem cumprir isso caso os professores falem um estoniano pobre, ele disse.

Ele defendeu sua agência, alegando que foi caricaturada por políticos russos na Estônia e seus aliados em Moscou.

"Existem alguns mitos sobre o nosso trabalho, sobre como podemos discriminar", ele disse. "Para uma sociedade democrática, é muito comum que os servidores públicos devam conhecer a língua do Estado. Se um funcionário público vive na Rússia, ele deve conhecer o russo. Se ele vive na Estônia, deve saber estoniano. Não há discriminação".

A diretora do ginásio Pae, Izabella Riitsaar, que é bilíngue, disse ter um bom relacionamento com os inspetores. Ela disse que eles são educados, que a avisam quando pretendem chegar e permitem que ela acompanhe os exames.

"Eu acredito que uma pessoa que vive neste país tem de falar a língua deste país, apesar disso criar alguns problemas", disse Riitsaar.

Mas ela simpatiza com seus professores?

"É claro! Ninguém gosta de ser examinado".

Por Clifford J. Levy

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