Estagnados, ativistas de flotilha veem mão de Israel por trás de impedimentos

Autoridades gregas seguram embarcações no porto de Atenas e dificultam chegada de ajuda humanitária a Gaza

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Com os eixos das hélices de dois navios misteriosamente danificados, autoridades gregas segurando outras embarcações no porto por ordem do governo e um barco dos Estados Unidos rejeitado pela guarda costeira grega na sexta-feira a apenas 20 minutos da costa, a flotilha internacional para Gaza estagnou.

Os organizadores dizem que veem o longo braço de Israel por trás de seus improváveis problemas, e enquanto as autoridades israelenses rejeitaram as acusações de conspiração, elas também se recusaram a negar-lhes acesso à região de maneira direta.

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No porto de Atenas, embarcação americana The Audacity of Hope mostra mensagem de apoio a Gaza
Um ano depois que comandos israelenses mataram nove ativistas turcos a bordo do Marmara Mavi durante outra flotilha, os organizadores esperavam mais uma vez desafiar o bloqueio naval da Faixa de Gaza. Parece cada vez menos provável, no entanto, que os oito barcos que se preparavam para navegar até a região consigam deixar o porto.

Ecoando uma posição maioritária entre os participantes, Johnny Leo Johansen, um fotógrafo e ativista norueguês, explica dessa forma: "É como se eles tivessem mudado o bloqueio da Faixa de Gaza para a Grécia".

Na sexta-feira a guarda costeira parou o barco americano da flotilha, The Audacity of Hope, a cerca de 1,6 km mar adentro, acabando com o entusiasmo inicial dos passageiros, que ficaram surpresos por terem sido autorizados a deixar o porto. "Já era de se imaginar que eles iriam fechar todas as portas do Mediterrâneo", disse Ann Wright, o principal organizador do barco dos Estados Unidos.

Depois de uma reclamação sobre documentação inadequada apresentada por um grupo de defesa israelense, o barco foi detido em Atenas por ordem da polícia. Inspetores visitaram a embarcação na semana passada, mas os resultados de sua inspeção ainda não haviam sido divulgados. Sem eles, o navio não poderia zarpar legalmente.

O Ministério de Proteção ao Cidadão grego decretou na sexta-feira que todos os navios em portos gregos estão proibidos de navegar em direção à "área marítima de Gaza". Nenhuma explicação foi dada, e funcionários do ministério não puderam ser contatados para comentar a decisão.

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Membros da guarda costeira grega se aproximam de embarcação americana
Os americanos decidiram deixar o porto mesmo assim. Depois de persegui-los, um sorridente jovem capitão da guarda costeira inclinou-se pela janela do barco e pediu os documentos de inspeção da embarcação. Os passageiros inclinaram-se sobre a grade de proteção do convés superior cantando: "Vamos navegar para Gaza!" Outros seguravam cartazes de papelão perguntando: "É Poseidon ou Netanyahu?" (Isso é, um passageiro explicou: "Quem é o rei do mar Egeu?")

"A probabilidade de que o governo grego já tenha tomado a decisão de não nos deixar sair do porto é muito alta, eu acho", disse Wright no início da semana passada. "Não é surpreendente, de certa forma, que o governo grego tenha sucumbido à pressão”. Ela sugeriu ainda que a Grécia, no auge de uma crise da dívida soberana prolongada, pode acatar as decisões de uma "ofensiva diplomática" israelense.

O governo israelense, ela observou, tem mantido reuniões do gabinete sobre o assunto da flotilha, e várias rodadas de exercícios militares têm sido realizados em preparação para um confronto. "Estou chocada que eles gastem tanto tempo, dinheiro e energia com isso", acrescentou Wright, mas, de certa forma, ela tem gostado da atenção de Israel. "Nós não poderíamos ter sonhado com uma coisa melhor. Normalmente, os governos não cooperam conosco dessa maneira!"

Na quinta-feira, os organizadores da Irlanda anunciaram que tinha retirado seu navio posicionado em uma doca turca da flotilha depois que a tripulação descobriu danos no eixo da hélice, o resultado do que eles supõem ter sido sabotagem por mergulhadores. Os organizadores disseram que o dano foi descoberto em um exercício de navegação, mas que de outra forma o navio poderia ter afundado no mar, colocando em risco os passageiros e a tripulação.

Danos

Ativistas descobriram danos quase idênticos a um barco de passageiros greco-sueco-norueguês nesta semana. Esse barco foi levado à terra para reparos, que não devem ser concluídos antes da próxima semana, dizem os organizadores.

Três barcos com os passageiros, principalmente, do Canadá, Espanha e Países Baixos estavam aguardando autorização para navegar na sexta-feira e um navio de carga estava esperando ser autorizado a carregar sua carga. Todos os navios têm ostensivamente cumprido as exigências das autoridades gregas, de acordo com Adam Shapiro, um organizador da flotilha.

Mas na quinta-feira, funcionários do porto impediram um barco francês de reabastecer, disse ele, uma indicação de que as autoridades gregas podem encontrar justificativas para manter os outros navios no porto.

Na manhã de sexta-feira, após mais de uma semana em portos de toda a Grécia, não havia um único navio liberado para zarpar e ainda não está claro quando os navios poderão navegar, ou quantos formarão uma flotilha eventual. "Nós vamos fazer alguma coisa", prometeu Shapiro. Ainda assim, ele acrescentou: "Parece que já estamos fazendo alguma coisa, dado o tipo de resposta que temos obtido".

'Sabotagem'

Questionado sobre as sugestões dos ativistas de que Israel esteve por trás da aparente sabotagem, Mark Regev, porta-voz do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse: "Esses ativistas não são conhecidos por serem uma fonte objetiva de informação". E continuou: "Essas pessoas têm uma tendência a culpar Israel, a ver a mão de Israel por trás de cada calamidade. E, claro, que isso não pode ser verdade”. Mas, quando solicitado a contrariar as suas reivindicações mais categoricamente, ele se recusou.

Autoridades israelenses reconhecem que têm tentado evitar a flotilha, não apenas porque a consideram uma tentativa de manchar o nome e as políticas do país, mas porque eles acreditam que todo o esforço é em grande parte organizado e inspirado por radicais islâmicos que estão buscando um encontro violento com as forças israelenses.

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Manifestantes pró-Gaza a bordo de embarcação parte da flotilha
Na quinta-feira, Netanyahu disse em um discurso: "Às vezes, não precisamos apenas desviar os ataques físicos de nossos inimigos, mas também desviar o ataque ao nosso direito de nos proteger". Falando durante a cerimônia de graduação da escola da Força Aérea israelense, ele agradeceu os líderes mundiais que nos últimos dias falaram e agiram "contra a flotilha da provocação". Ele especificamente elogiou o primeiro-ministro grego, George Papandreou, que disse ter cooperando estreitamente com Israel na coordenação de movimentos relacionados com a flotilha.

Na sexta-feira, o Exército israelense disse aos jornalistas que Tarek Hamud, 32 anos, genro de Khaled Meshal, o chefe do Hamas em Damasco, estava com a flotilha em Atenas, desempenhando um papel de liderança na sua organização. Hamud vive em Damasco e é diretor da Associação Palestina do Hamas, de acordo com o tenente-coronel Avital Leibovich, porta-voz militar.

Ativistas da flotilha negaram qualquer ligação com organizações radicais ou terroristas e disseram que nunca tinham sequer ouvido falar de Hamud. Izzat al-Risheq, um porta-voz do Hamas em Damasco, disse que Hamud "não tem nada a ver com a flotilha de forma alguma. Ele está em sua casa em Damasco no momento. Essa é uma mentira contada pelo Exército israelense para levar as pessoas a se opor a essa missão humanitária".

O Hamas nega ter qualquer papel na flotilha.

*Por Scott Sayare

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