Estados Unidos podem manter tropas no Afeganistão até 2014

No governo Obama, Robert Gates e Hillary Clinton mencionam 2014 como ano determinado para a entrega do país aos próprios afegãos

The New York Times |

O governo Obama está cada vez mais enfatizando a ideia de que os Estados Unidos terão Forças Armadas alocadas no Afeganistão até pelo menos o final de 2014, uma mudança de tom que busca persuadir afegãos e talebans de que não haverá uma retirada significativa no próximo ano.

Ao se afastar da data anunciada pelo presidente Barack Obama para o início de uma retirada das tropas americanas do Afeganistão, julho de 2011, o secretário de Defesa Robert M. Gates, a secretária de Estado Hillary Rodham Clinton e o almirante Mike Mullen, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, mencionaram 2014 como a data determinada para a entrega da defesa do Afeganistão aos próprios afegãos.

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Soldado Americano em combate na província de Kandahar, no Afeganistão
Implícito na sua mensagem, transmitida em uma conferência sobre segurança e diplomacia na Austrália, estava o fato de que os Estados Unidos irão combater os talebans no Afeganistão por pelo menos outros quatro anos.

Ofensivas

Oficiais do governo disseram que os três haviam feito comentários vagamente coordenados na conferência, realizada em Melbourne, na Austrália, para tentar convencer os afegãos de que os Estados Unidos não irão se afastar no próximo verão e avisar o Taleban que as ofensivas contra o grupo irão continuar.

Embora Obama e oficiais de seu governo tenham dito muitas vezes que julho de 2011 seria apenas o começo da retirada das tropas dos Estados Unidos, o Taleban tem promovido com sucesso o prazo como uma retirada em grande escala dos 100 mil soldados dos Estados Unidos atualmente alocados no país entre a população afegã.

"Na verdade não há nenhuma alteração, mas o que nós estamos tentando fazer é acabar com essa obsessão com julho de 2011 para que as pessoas possam ver o que a estratégia do presidente realmente envolve", disse um oficial do governo na quarta-feira.

Na Austrália, Gates disse a jornalistas que o Taleban "vai ficar muito surpreso quando chegar agosto, setembro, outubro e novembro e a maioria das forças americanas ainda estiver lá e atrás deles".

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Governo Obama insiste na permanência dos soldados americanos até 2014
A mudança é efetivamente uma mensagem de vitória para os militares, que há muito tempo afirmam que o prazo de julho 2011 minou sua missão, tornando os afegãos relutantes em trabalhar com tropas que supostamente vão partir em breve. "Eles dizem que nós vamos partir em 2011 e os talebans vão cortar suas cabeças", disse Lisa Gardner, fuzileira naval destacada na província de Helmand.

O general James T. Conway, então comandante do Corpo de Fuzileiros Navais, chegou a dizer que o prazo "provavelmente sustenta o inimigo".

No ano passado, a Casa Branca insistiu no prazo de julho para injetar um senso de urgência nos afegãos em relação a suas próprias forças de segurança – os militares reconhecem que a estratégia tem funcionado em parte – mas também para silenciar críticos do Partido Democrata insatisfeitos com a escalada da guerra promovida por Obama e sua decisão de enviar outros 30 mil soldados ao país.

Mudança de tom

Na quarta-feira, a Casa Branca insistiu que não houve nenhuma mudança de tom. "A mensagem antiga era que nós estamos vendo julho de 2011 como o início de uma transição", disse um oficial da Casa Branca. "Agora nós estamos dizendo às pessoas o que acontecerá para além de 2011, e eu não acho que isso represente uma mudança. Nós estamos trazendo um pouco de clareza sobre a política do nosso futuro no Afeganistão".

Como a maioria das pessoas envolvidas na questão, o oficial pediu anonimato porque uma revisão da estratégia de Obama no Afeganistão está em andamento e as pessoas envolvidas nela estão relutantes em falar abertamente com os jornalistas.

Cúpula da Otan

A data de 2014 será o foco em uma reunião de cúpula da Otan da qual Obama participará na próxima semana em Lisboa, Portugal, onde será apresentado um plano de transição para a aliança, elaborado pelo general David Petraeus, comandante das forças da Otan no Afeganistão, que pede uma transferência de responsabilidades de segurança para os afegãos gradualmente ao longo dos próximos quatro anos.

Oficiais do governo disseram que o documento não contém uma agenda específica para a retirada das tropas e, mas condições estabelecidas que terão de ser cumpridas nas principais províncias antes que as forças da Otan possam entregar a segurança para os afegãos.

Eles ressaltaram também que a data de 2014 foi determinada pelo presidente afegão, Hamid Karzai, que a mencionou em seu discurso de posse no ano passado e, novamente, em uma recente conferência em Cabul.

Os oficiais também reconheceram que a data de 2014 foi baseada na presunção de que os militares dos Estados Unidos seriam suficientemente bem sucedidos na luta contra os talebans e retiradas significativas estariam em curso até então. Nas últimas semanas, comandantes em algumas partes do Afeganistão, relataram uma mudança tática de afastamento do Taleban, mas oficiais em Washington, apesar de incentivados, estão descrentes ou relutantes em dizer que isso se traduzirá em sucesso estratégico.

Forças afegãs

Michael O'Hanlon, membro da Instituição Brookings que esteve no Afeganistão em setembro, disse que a data de 2014 faz sentido porque o Exército e a polícia afegãos devem aumentar o seu número para 350 mil até 2013. Atualmente, eles somam cerca de 255 mil soldados.

"A data está bastante longe para que muita coisa aconteça, mas também bastante perto para desbancar o mito de uma ocupação externa do país por tempo indeterminado", disse O'Hanlon.

Mesmo assim, Gates quis deixar claro: os Estados Unidos estarão no Afeganistão por muitos anos ainda.

*Por Elisabeth Bumiller

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