Estados Unidos mantêm esperança de mudanças no Bahrein

Obama tem exortado membros da Família Real a acabar com repressão que esmagou manifestantes que pedem mudanças democráticas

The New York Times |

À medida que a Primavera Árabe se transforma em verão, o presidente americano, Barack Obama, adota diferentes posturas em relação aos governos repressivos da região. Ele condenou rapidamente Muamar Kadafi, da Líbia, mas foi mais relutante em relação a Hosni Mubarak, do Egito. Ele impôs sanções sobre Bashar al-Assad, da Síria, e incentivou um esforço para facilitar a saída de Ali Abdullah Saleh do Iêmen.

Apenas no caso do Bahrein Obama tem mantido o tapete de boas-vindas estendido – estimulando, bajulando e exortando os membros da Família Real a acabar com a repressão que esmagou os manifestantes pacíficos que exigem mudanças democráticas. Em particular, o governo tem cultuado o príncipe Salman bin Hamad bin Isa Al Khalifa, 41 anos, herdeiro do trono que se formou na Universidade Americana em Washington e fala inglês como um americano.

Na quinta-feira, o príncipe Salman se reuniu com o vice-presidente Joe Biden, completando uma visita de alto escalão, que incluiu um encontro na Casa Branca na terça-feira com Obama e seu conselheiro de segurança nacional, Thomas E. Donilon. Ele também fez um apelo à secretária de Estado, Hillary Rodham Clinton, que disse que os Estados Unidos apoiam "o tipo de trabalho importante que o príncipe da coroa vem fazendo em seu país".

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Retrato do rei Hamad bin Isa al-Khalifa adorna veículo militar em Manama, capital do Bahrein
O príncipe, que é considerado o membro mais moderado de sua família, foi designado para liderar qualquer diálogo com a oposição. Mas essa é a mesma monarquia sunita que impôs a lei marcial para silenciar as exigências da oposição de maioria xiita. Ela também permitiu o uso de tropas sauditas como parte de uma campanha para impedir outros protestos, que também incluiu prisões em larga escala e, mais recentemente, o julgamento de 47 médicos e enfermeiros que trataram manifestantes feridos. Dada a retórica de Obama sobre o significado histórico das revoltas no mundo árabe, por que se envolver com uma família real que adota esse tipo de repressão?

Em parte, isso é um reconhecimento da realidade geopolítica. A Família Real do Bahrein provavelmente não será derrubada, mesmo porque os sunitas que governam a Arábia Saudita não vão tolerar que seu vizinho seja governado pelos xiitas. O Bahrein é também a casa da 5ª Frota da Marinha dos Estados Unidos e fica perto da Arábia Saudita, o mais poderoso aliado de Washington na região.

Assim, o governo americano mantém a esperança de que, talvez contra todas as probabilidades, os líderes do Bahrein – ou pelo menos o príncipe da coroa – possam estar dispostos a realizar mudanças democráticas. "Você tem alguém no príncipe herdeiro que é confiável e parece querer fazer a coisa certa", disse um oficial de alto escalão do governo.

Mas, como um outro oficial do governo disse: "Não é como se tivéssemos muitas escolhas sobre com quem falamos para para promover um diálogo”.

Apoio

Mesmo antes dos conflitos, os Estados Unidos buscavam apoio no príncipe Salman. Em um telegrama diplomático enviado pela Embaixada dos Estados Unidos no Bahrein no fim de 2009 e tornado público pelo WikiLeaks, ele foi descrito como "muito ocidental em sua abordagem" e "estreitamente identificado com o campo reformista da família real – especialmente em relação à economia e a reformas trabalhistas destinadas a combater a corrupção e a modernizar a base econômica do Bahrein”.

Mas diversos analistas advertem que, mesmo se o príncipe Salman for sincero, ele é apenas um membro de uma família que inclui personalidades mais linha-dura como seu tio, o príncipe Salman bin Khalifa Al Khalifa, premiê de longa data do país. Com seu jeito suave e inglês fluente, o príncipe Salman pode ser apenas o rosto amigável da monarquia, dizem os analistas mais céticos.

O príncipe está em "uma turnê mundial para convencer as pessoas de que o Bahrein está virando a página, quando na verdade os linha-dura estão fazendo negócios como de costume em casa", disse Leslie Campbell, diretora regional para o Oriente Médio e norte da África do Instituto Nacional Democrático, que opera no Bahrein.

Oficiais do Departamento de Estado americano estão alarmados que nas últimas semanas a mídia estatal do Bahrein articulou uma virulenta campanha anti-Estados Unidos contra a embaixada do país, acusando-a de conspirar com grupos xiitas. Um diplomata dos Estados Unidos envolvidos em questões de direitos humanos recentemente deixou o Bahrein após receber ameaças, inclusive de um blogueiro, que se referiu à esposa do diplomata como sendo judia.

Apesar disso, Campbell apoia o príncipe, dizendo que faz sentido reforçar a mão de alguém "que é, pelo menos, por inclinação moderado e imparcial".

O governo americano, segundo ele, deveria extrair promessas concretas do príncipe sobre como ele pretende responder às exigências dos manifestantes por uma sociedade mais aberta. Seu pai, o rei Hamad bin Isa Al Khalifa, recentemente anunciou estado de emergência e disse que as negociações com a oposição serão retomado em julho. Mas as tropas da Arábia Saudita que realizaram a repressão permanecem no país, e alguns dos principais líderes da oposição estão definhando na prisão – algo que Obama ressaltou em seu recente discurso sobre a revolta árabe. O presidente apertou o príncipe Salman sobre os prisioneiros em sua reunião, disse um oficial, mas não ficou claro como ele respondeu.

O príncipe lamentou que a repressão tenha manchado a imagem do Bahrain, uma vez que o governo trabalhou muito nos últimos dez anos para apresentar o Bahrein como um iluminado reino do Golfo Pérsico. Manter a esperança de mudanças no fato da família real temer um desastre de relações públicas pode ser uma ilusão.

Mas no final, Obama pode ter pouca escolha porque a alternativa, disse Tom Malinowski, diretor do escritório de Washington do grupo Human Rights Watch, é "um levante violento ou repressão permanente".

*Por Mark Landler

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