Estados proíbem maconha sintética nos EUA

Oito Estados baniram a K2, uma mistura de ervas tratadas com maconha sintética que envia usuários a pronto-socorros em todo país

The New York Times |

Sentado em um bar que oferece narguilés para consumo no distrito de Tower Grove, Albert Kuo acendeu seu isqueiro acima do tubo de vidro coberto com maconha sintética. Inalando profundamente, Kuo, um estudante de arte de uma faculdade da área, absorveu o material carbonizado e soltou uma nuvem de fumaça contra a luz daquela tarde.

Kuo, de 25 anos, reuniu-se em St. Louis com um pequeno grupo de amigos para uma das últimas possibilidades de consumir legalmente uma substância conhecida popularmente como K2, uma mistura de ervas tratada com maconha sintética."Sei que não vai me matar", disse Kuo, que comparou os efeitos da droga aos do cigarros de cravo. "É um desperdício de tempo, esforço e dinheiro proibir algo assim."

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Mulher fuma maconha sintética ou K2 em bar em St. Louis
Em seis de maio, o governador democrata Jay Nixon assinou uma lei que proíbe a posse de K2. O Missouri é o oitavo Estado do país a proibir a substância que enviou usuários a pronto-socorros de todo o país reclamando de tudo, desde frequência cardíaca acelerada e paranoia até vômito e alucinações.

Investigadores culpam a droga por pelo menos uma morte e, neste mês, o governador do Arkansas, Mike Beebe, um democrata, assinou uma ordem de emergência que proíbe a substância. Proibições similares estão pendentes ou em vias de assinatura pelos governadores de pelo menos seis outros Estados, incluindo Illinois, Louisiana, Michigan, Nova Jersey, Nova York e Ohio, segundo a Conferência Nacional de Legislaturas Estaduais.

"É como uma onda", disse Ward Franz, representante do Estado que patrocinou a legislação do Missouri. "É quase uma epidemia. Vemos crianças da escola secundária entrando em lojas e comprando" a droga.

Frequentemente comercializada como incenso, a K2 - que também é conhecida como Spice, Demon ou Genie - é vendida abertamente em postos de gasolina, lojas e, é claro, online. O grama chega a custar US$ 40. A substância é proibida em muitos países europeus, mas, ao comercializá-la como incenso e dizer claramente que não é para consumo humano, os revendedores conseguiram escapar à regulamentação federal.

"Todos sabem que não é incenso", disse Barbara Carreno, porta-voz da Federal Drug Enforcement Administration (DEA), a agência americana de combate às drogas. "Isso é feito com uma piscada e um aceno de cabeça."

Desenvolvido pela primeira vez no laboratório de um químico da Universidade de Clemson, John W. Huffman, os ingredientes ativos da K2 são canabinoides sintéticos - produtos químicos de pesquisa que foram criados para fins terapêuticos, mas também podem imitar os efeitos narcóticos do tetrahidrocanabinol, ou THC, a substância ativa da maconha.

Em um comunicado, Huffman disse que os produtos químicos não são destinados para consumo humano. Ele acrescentou que seu laboratório os desenvolveu para fins de pesquisa apenas e "os seus efeitos nos seres humanos não foram estudados e podem muito bem ter efeitos tóxicos".

Entretanto, as formas puras do químico estão disponíveis online e os investigadores acreditam que os revendedores estão comprando grandes quantidades, misturando-as com ervas e rotulando a substância de K2.

"Não é como se houvesse um distribuidor de K2 - todos fazem sua própria mistura, batizando-a de K2 e vendendo, o que é o aspecto mais inquietante", disse o Christopher Rosenbaum, professor adjunto de toxicologia da Universidade de Massachusetts que estuda os efeitos do K2 em pacientes de pronto-socorros.

Um relatório da Associação Americana de Controle de Venenos afirma que até agora neste ano houve 567 chamadas de emergência relacionadas à K2, um aumento de 13 em relação ao mesmo período de 2009. Mas os investigadores acrescentam que ninguém está realmente certo do que há na K2 e as pessoas chegam ao pronto-socorro com sintomas que não seriam normalmente associadas à maconha ou a uma forma sintética da droga.

"Não sabemos quantas pessoas comem uma caixa de donut depois de fumar K2, mas é certo que têm outros sintomas", disse o Anthony Scalzo, professor de medicina de emergência na Universidade de St. Louis, que foi o primeiro a relatar um aumento nos casos relacionados a K2 e está colaborando com Rosenbaum na pesquisa dos efeitos da substância. "As pessoas ficam muito ansiosas, agitadas e exigem várias doses de sedativos."

Scalzo, que também é o médico diretor do Centro de Controle de Venenos do Missouri, acrescentou que embora os exames tenham encontrado canabinoides na K2, não está claro "se a reação que vemos é apenas por causa do efeito da dose ou se há algo que não encontramos ainda".

Essa questão permanece no centro de uma investigação sobre a morte de David Rozga, um adolescente de Iowa que no mês passado cometeu suicídio após fumar a K2. Rozga, de 18 anos, formou-se na escola uma semana antes e estava planejando começar a faculdade no outono.

Segundo o relatório policial, Rozga fumou a substância com os amigos e, em seguida, começou a "pirar", dizendo que iria "para o inferno". Ele então retornou para a casa de seus pais, pegou um rifle da família e disparou contra a própria cabeça.

"A investigação mostrou que não havia sinais de que ele estivesse deprimido, triste ou nada", disse o detetive Brian Sher do Departamento de Polícia de Indianola, que conduziu o inquérito. "Vi tudo. Não sei o que mais pode ser. Tem de ser a K2."

Mas muitos usuários dizem que não estão assustados com os relatos de reações negativas à droga. A K2 não aparece nos exames de drogas e os usuários dizem que, ainda que gostariam de saber o que há nela, eles não se importam de correr o risco se isso significa um teste de urina limpo.

A proibição no Missouri, que entra em vigor em 28 de agosto, proíbe diversos canabinoides que os investigadores encontraram em produtos de K2 e parecidos. No entanto, os investigadores e os pesquisadores dizem que as proibições como a do Missouri são pouco mais do que "band-aids" que os químicos da rua podem evitar com uma ligeira alteração na estrutura molecular do produto químico.

"Quando se tornar ilegal, já terei alguma coisa para substituí-la", disse Micah Riggs, que vende o produto em seu café em Kansas. "Há centenas desses produtos sintéticos e vendemos apenas alguns deles por vez."

Os investigadores dizem que uma proibição mais eficaz pode surgir uma vez que o DEA concluir sua revisão dos canabinoides, colocando-os sob o Ato de Substâncias Controladas. Atualmente, no entanto, apenas uma dessas substâncias é controlada pela lei, embora a agência tenha outras quatro indicadas como "produtos químicos de interesse".

Enquanto isso, os Estados precisam agir por si mesmos quando se trata de controlar a maconha sintética, algo que muitas vezes se resume a um jogo de gato e rato, no qual agentes da lei, políticos, usuários e famílias devem formular novas respostas a cada nova droga que chega ao mercado.

"Onde um pai obtém respostas?", perguntou Mike Rozga, que disse que soube da K2 apenas depois da morte de seu filho. "Falamos com nossos filhos sobre sexo. Falamos com nossos filhos sobre drogas e sobre beber e ser responsável. Mas como você pode conversar com seus filhos sobre algo que você nem mesmo sabe que existe?"

* Por Malcolm Gay

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