Estabilidade na temperatura global pode prejudicar ações sobre clima

Os líderes mundiais que se reuniram na ONU, nesta quarta-feira, para discutir as mudanças climáticas, enfrentam um desafio complexo: criar um ambiente adequado para o tratado internacional sobre o clima, em um momento no qual a temperatura global permanece estável há uma década e pode até cair nos próximos anos.

The New York Times |


O grau da temperatura tem sido usado por céticos como uma evidência de que a ameaça do aquecimento global é um exagero. E alguns especialistas em clima se preocupam com que isso prejudique a negociação do tratado e dificulte o progresso da legislação que limita as emissões de dióxido de carbono nos EUA.

Cientistas dizem que a estabilidade climática da última década ¿ que veio após um grande aumento da temperatura média global nos anos 1990 ¿ é resultado de variações cíclicas nas condições do oceano e não tem ligação com os efeitos do aumento dos gases estufa na atmosfera no longo prazo.

Mas tentar falar sobre essas nuanças científicas ao público ¿ e aos legisladores ¿ pode ser frustrante, disseram.

Dr. Mojib Latif, cientista ganhador de um prêmio sobre clima e oceanos do Lebniz Institute of Marine Sciences da Universidade de Kiel, escreveu um artigo sobre o tema no ano passado. Nele, Latif postula que as variações cíclicas nos oceanos estavam se alinhando de uma forma que poderiam manter o planeta relativamente frio na próxima década, mesmo com o aumento do aquecimento provocado por gases que bloqueiam a saída do calor.

Latif costuma fazer cerca de 200 palestras para públicos formados por líderes administrativos e autoridades por ano. Ele conta que já enfrentou confusão e até mesmo raiva ao tentar descrever essa variação normal do clima, ao mesmo tempo em que alerta sobre as ameaças do aquecimento global no longo prazo.

As pessoas entendem o que eu digo, mas sempre acabam dizendo: não acreditamos em nada, disse em entrevista por telefone.

Outros pesquisadores do clima contrariam as previsões de Latif, dizendo que o clima não pode ser previsto com base em um período de tempo tão curto, apesar de concordarem com que, mais cedo ou mais tarde, a extensão desse esfriamento seja inevitável.

Para ressaltar a falta de clareza nas flutuações da temperatura no curto prazo, pesquisadores da agência de mudanças climática da Grã-Bretanha, em um artigo publicado em agosto, projetaram um final para esse período de relativa estabilidade, com metade dos anos entre agora e 2015, excedendo o recorde global de temperaturas registrado em 1998.

A temperatura média global atualmente é apenas 17,2 graus Celsius mais alta do que em 1999, de acordo com a agência de meteorologia britânica. Uma série de tempestades típicas da época do ano foi seguida de tempestades destrutivas, em 2004 e 2005, dentre as quais se incluem o Furacão Katrina. E no Ártico, um recuo extraordinário do mar, durante o verão do hemisfério norte em 2007, foi seguido de importantes perdas e de projeções de cientistas sobre uma possível, e temporária, recuperação.

A maioria dos cientistas de clima se mantém firme em suas projeções de séculos de aumento do mar e outros efeitos do aquecimento do planeta, caso o homem tomasse atitudes que reduzissem as emissões de fases do efeito estufa.

Ainda assim, essas projeções são baseadas em modelos e interpretações de variações de acordo com o padrão de contagem de três anéis de crescimento e outras avaliações indiretas de temperaturas passadas que, embora sejam persuasivas para a maioria dos cientistas de clima, não são infalíveis.

Nos próximos anos, deve surgir uma visão mais clara sobre se a temperatura registrada recentemente prejudicará os argumentos sobre perigosas mudanças climáticas, conforme as previsões feitas por pesquisadoras britânicos são testadas. O artigo saiu em um suplemento, em agosto, em uma matéria do Bulletin of the American Meteorological Society.

Apesar de os autores concluírem que havia uma em oito chances de ter uma década de estabilidade no aquecimento, como mostram os números atuais, mesmo com o aumento da concentração dos gases estufa, de acordo com eles, os cálculos de uma pausa de 15 anos seria de 5 em 100. Como resultado, os próximos anos de observações poderiam indicar estimativas para maiores preocupações ou otimismo.

Enquanto isso, cientistas sociais que estudam o quanto as pessoas entendem e reagem aos problemas ambientais dizem que não é surpreendente que a estabilidade na temperatura tenha causado confusão e apatia. Segundo eles, conseguir com que as pessoas se importem com ameaças de mudanças climáticas de décadas a frente é bem complicado, quando não se inclui os caprichos dos ciclos climáticos naturais.

Na melhor das hipóteses, o aquecimento global permanecerá algo abstrato para muitas pessoas, disse Robert J. Brulle, sociologista da Universidade de Drexel.

Não tem um impacto visual ou emotivo direto como ver pássaros cobertos de petróleo da Exxon Valdez, disse.


Por ANDREW C. REVKIN


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