Espanhóis protestam de porta em porta contra desapropriação

Em nova fase de atos contra o governo e a economia, manifestantes tentam impedir polícia de cumprir ordens de despejo

The New York Times |

Quando a polícia chegou à casa de Maria Jose del Coto Maeso, 53 anos, para expulsá-la do apartamento onde morava, encontrou a rua em frente ao imóvel tomada por manifestantes e resolveu recuar.
"Para muitas pessoas teria sido um dia deprimente", disse Maria Jose. "Mas me senti privilegiada. Conheci essas pessoas maravilhosas e fiquei muito grata.”

Os jovens manifestantes que acamparam aos milhares nas praças principais das cidades da Espanha durante a maior parte de maio e junho, em protesto contra a corrupção do governo e uma economia que os deixou sem trabalho, voltaram para casa. Mas o movimento gerou um exército de voluntários que estão fazendo barulho no sistema de desapropriação espanhol – talvez o mais severo da Europa – que geralmente endivida os proprietários de imóveis para o resto de suas vidas.

NYT
Manifestantes fazem protesto em frente à casa de Maria Jose del Coto Maseo em Madri, na Espanha

Eloi Morte, 28 anos, foi responsável por organizar o protesto em frente à modesta casa de Maria. Comissário de bordo, Eloi decidiu ajudar as pessoas ameaçadas de despejo depois de participar de uma reunião de bairro organizada pelos manifestantes que haviam ocupado a Puerta del Sol, praça central da cidade.

"Era algo concreto que eu poderia fazer", disse ele. "Queria ver resultados, não apenas protestos vagos contra o estabelecimento financeiro e os bancos. Queria fazer algo construtivo".

A Espanha, como os Estados Unidos, passou por uma grande expansão imobiliária que parou de funcionar em 2008. Conforme a economia estagnou, as taxas de desemprego subiram para o índice mais alto na União Europeia, situando-se em torno de 40% para os jovens – que até recentemente pareciam apáticos. Isso mudou em 15 de maio, quando eles começaram a se reunir em todo o país em protestos pacíficos que em algumas cidades duraram semanas.

Agora, alguns desses manifestantes estão usando seus conhecimentos sobre internet para reunir multidões em nome de proprietários sitiados. Centenas de manifestantes estão aparecendo em ameaças de despejo como a de Maria, recebendo atenção da imprensa e obtendo resultados.

NYT
Maria Jose del Coto Maeso com os filhos em sua casa em Madrid
Desde junho, cerca de 30 despejos foram bloqueados, de acordo com um grupo sem fins lucrativos de defesa de moradia conhecido por suas iniciais, PAH – mais do que o dobro da taxa anterior. E os protestos contra a desapropriação estão ocorrendo em mais cidades.

Este mês, o governo e a oposição no Parlamento, emitiram declarações dizendo que irão revisar as leis de desapropriação, sem dúvida de olho nas eleições do próximo ano.

"Estamos orgulhosos de que hoje nossas exigências se tornaram um clamor popular", disse Ada Colau, advogada de direitos humanos da PAH. "Isso tem forçado o governo a reagir, apesar da pressão dos bancos”.

Quando os devedores de hipotecas espanhóis não conseguem pagar suas mensalidades, a lei impede que tenham duas maneiras de negociar comuns em outros lugares: eles não podem simplesmente entregar as chaves de volta para o banco e ir embora e eles não podem pagar as suas dívidas em um processo de falência. Eles permanecem pessoalmente responsáveis pelo total do empréstimo após a desapropriação e podem acabar na rua com uma montanha de dívidas quando se soma a esse valor multa, juros e custos judiciais.

Os defensores da moradia gostariam de ver a Espanha adotar um sistema que se assemelha ao dos Estados Unidos. Mas as novas propostas não vão tão longe. A maioria delas é destinada apenas a facilitar as condições atuais. Por exemplo, os bancos ainda estariam autorizados a tomar uma porcentagem do salário de um devedor, mas uma porcentagem menor. Da mesma forma, se ninguém aparecer em um leilão de desapropriação e o banco comprar a propriedade, terá de pagar 60% do valor de mercado, um pouco acima dos 50% obrigatórios por lei atualmente.

Ainda assim, os defensores dizem que as propostas de habitação são um começo.

Santos Gonzalez Sanchez, presidente da financiadora Associação Espanhola de Hipotecas, diz que algumas das propostas não foram bem formuladas e que as questões precisam ser melhor estudadas. Ele descarta os manifestantes como "mais anedóticos do que eficazes”.

Houve cerca de 94 mil execuções hipotecárias na Espanha no ano passado, quase quatro vezes o número de 2007. Pode demorar mais de um ano para se expulsar os ocupantes de uma residência após uma desapropriação e os bancos, por vezes, concordam em alugar a casa de volta aos seus antigos proprietários.

Os excessos no mercado imobiliário e bancário foram profundos, com os bancos fazendo financiamentos a um ritmo impressionante, muitas vezes para clientes de pouco risco e que não entendiam as letras miúdas. Pessoas que assinaram hipotecas como fiadores foram muitas vezes surpreendidos ao perceber que poderiam perder tudo o que possuíam.

Maria garantiu um empréstimo para um parceiro que a já deixou sozinha com os filhos, incluindo um de 26 anos de idade com deficiência que caiu de uma janela quando criança. Ela disse que está à procura de trabalho como empregada, mas não havia encontrado nenhum. Ela também não tem nenhum lugar para ir se for expulsa da casa na qual mora há 25 anos.

Os protestos bloqueiam os despejos apenas temporariamente. Os defensores dizem que quando a polícia e outros oficiais envolvidos no despejo veem as multidões, eles geralmente vão embora. Leva pelo menos um mês para organizar mais um esforço de despejo, eles disseram, e às vezes muito mais tempo.

Eloi Morte disse que os manifestantes esperam que o banco possa ser persuadido a alugar a casa para Maria a um preço que ela possa pagar. "Essa é a nossa esperança com todos estes protestos", disse ele, "que uma negociação possa impedir as pessoas de serem colocadas na rua”.

Por Suzanne Daley

    Leia tudo sobre: espanhaimóveisdesapropriaçãoprotestoscrise

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG