Espanha investiga denúncias de roubo de bebês no franquismo

Pressionados por pais que viveram em luto, juízes investigam recém-nascidos desaparecidos e vendidos para a adoção durante 40 anos

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Pressionados por pais de luto, juízes espanhóis estão investigando centenas de casos de crianças sequestradas e vendidas para adoção ao longo de um período de 40 anos. O que pode ter começado como uma retaliação política contra famílias de esquerda durante a ditadura do general Francisco Franco parece ter se transformado em um negócio de tráfico humano em que médicos, enfermeiros e até mesmo freiras agiram em parceria com redes criminosas.

Os casos, que podem eventualmente chegar aos milhares, estremeceram um país ainda abalado pelos terrores ditos e não ditos do período de 1936 a 1939 que englobou a Guerra Civil da Espanha e o Estado franquista. Na semana passada, Concepción Rodrigo Romero, 78 anos, entrou para o grupo cada vez maior de pais espanhóis que estão usando os tribunais para descobrir o que aconteceu com seus bebês.

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Concepción (D) nunca viu sua filha prematura, a quem deu à luz em 1971
Concepción Rodrigo Romero, ex-costureira, deu à luz prematuramente em 1971. O médico que a atendeu em um hospital de Sevilha disse que seu filho estava bem e que era pequeno, mas "capaz de crescer rápido", lembrou ela em uma entrevista. O médico nunca mais voltou e ela nunca mais viu seu bebê. Dois dias depois, outro médico do hospital disse ao marido que o bebê havia sido enviado para outro hospital para verificações complementares, mas acabou morrendo lá. O segundo hospital havia cuidado do sepultamento, disse o médico, e o corpo estaria em Sevilha, no Cemitério de San Fernando, em uma cova sem marcação.

"No fundo, eu sempre soube que meu filho foi roubado de mim", disse Concepción.

O Sistema Judiciário da Espanha foi forçado a agir depois que a Añadir, uma associação formada para representar pessoas à procura de crianças ou pais desaparecidos, apresentou sua primeira queixa no fim de janeiro. O procurador-geral Candido Conde-Pumpido anunciou em 18 de junho que 849 casos estão sendo examinados, acrescentando que 162 já poderiam ser classificados como um processo penal por causa de evidências que apontam para abduções.

Os casos de crianças desaparecidas vão dos anos 50 aos anos 90. Alguns historiadores e juízes dizem que o governo Franco tirou bebês de famílias que tinham apoiado seus adversários na guerra civil. Mas a prática continuou bem depois da morte de Franco, em 1975. Não se sabe se oficiais do governo desempenharam qualquer papel nisso.

Conde-Pumpido, que disse ser impossível estimar quantos outros casos surgirão, também sugeriu pela primeira vez que redes de crime organizado estiveram envolvidas. Ele não deu detalhes, dizendo apenas que não acreditava que apenas "uma organização" tenha arquitetado todos os roubos de bebês.

Antonio Barroso, 42 anos, o presidente da Añadir, disse acreditar que ao longo do tempo a Espanha se tornou um polo para gangues operando um comércio internacional, com muitos recém-nascidos vendidos para adoção no exterior. Tal possibilidade é uma das muitas perguntas não respondidas feitas na longa jornada silenciosa de pais e filhos nos últimos meses.

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Dolores Díaz Cerpa diz ter sido enganada ao dar à luz, em 1973
Barroso fundou a Añadir em fevereiro de 2010, após ser informado por um amigo de que ambos foram adotados. Ele mandou analisar amostras de DNA da mulher que sempre conheceu como sua mãe e a confrontou depois de descobrir que a sua amostra e a dela não eram compatíveis. Ela admitiu ter pago uma freira e mentido a ele sobre seu nascimento por décadas. Barroso disse que já localizou a freira, que trabalhava em uma maternidade. Sua própria ação judicial – contra a freira e outros membros da equipe do hospital – ainda não foi a tribunal e ele ainda está procurando por seus pais verdadeiros.

De acordo com a Añadir, algumas pessoas adotadas conseguiram encontrar seus pais, mas a maioria até agora preferiu permanecer anônima. Para ajudar com assuntos legais, a Añadir e outras associações similares que surgiram conforme a lista de vítimas cresce estão tentando recrutar advogados dispostos a trabalhar gratuitamente.

Evidências

No mês passado, aconteceram as primeiras exumações no Cemitério La Línea de la Concepción, depois de alegações de que recém-nascidos foram enterrados ali. A procuradoria regional de Madri afirmou que irá exigir que membros da equipe médica, incluindo freiras que trabalhavam como enfermeiras, que testemunhem no tribunal sobre o paradeiro de algumas crianças que nasceram durante o período de 40 anos sob investigação. Algumas freiras confessaram ter vendido crianças, mas sem sugerir que faziam parte de uma rede criminal. A Igreja Católica Romana não comentou o assunto.

A Genomica, uma empresa baseada em Madri, criou um banco de dados contendo o DNA de cerca de 700 pessoas desde janeiro. No entanto, mesmo com os testes de DNA, os promotores enfrentam uma grande batalha para pesquisar valas comuns pelos restos mortais de bebês supostamente enterrados ali. Registros médicos muitas vezes se mostram incompletos ou contraditórios.

Registros incorretos são fundamentais para a queixa apresentada por Dolores Díaz Cerpa, que alega que seu recém-nascido foi roubado em 1973. Dolores havia sido informada por um médico que estava grávida de gêmeos. Ela deu à luz uma filha, mas uma enfermeira negou que ela tivesse outro feto.

Sempre suspeitando de uma mentira, e depois de ouvir sobre outros pais que estavam à procura de recém-nascidos roubados, ela pediu uma outra cópia do registro de nascimento de sua filha ao hospital. Em vez disso, recebeu o registro de um menino. "O hospital sugeriu que isso não passava de um antigo erro administrativo, mas ninguém pode me convencer de que eu não estava, infelizmente, certa nas últimas décadas", disse.

O estatuto de limitações na maioria dos crimes suspeitos expirou, levando advogados a discutir se um estatuto especial poderia ser adotado. Em 2008, Baltasar Garzón, juiz espanhol de renome internacional, estendeu uma investigação sobre alegações de crimes durante o franquismo para verificar se Franco havia ordenado que milhares de bebês fossem tomados de mulheres que haviam apoiado seus adversários republicanos.

Alguns casais, como Joaquín Saez Naranjo e Manuela Sánchez Cintado, de Sevilha, entraram com ações judiciais múltiplas. Eles perderam dois bebês em circunstâncias suspeitas, em 1972 e 1985.

No caso de 1985, Manuela disse que os médicos realizaram um exame de ultrassom em Cintado e que a felicitaram por um menino. Após o parto, ela foi informada de que o recém-nascido havia sido imediatamente enviado a uma ala especial para lidar com "um pequeno problema”. O marido dela foi separadamente informado de que sua filha havia morrido.

"Eu ia ter um menino e alguém o trocou por uma filha morta", disse uma Manuela, visivelmente abalada. "Essa foi uma história tão ridícula como se o médico me tivesse dito que eu havia quebrado o cotovelo e depois operado o pulso”.

Choque

Como outros pais, Sáez Naranjo disse que agora lamenta profundamente ter aceitado o conselho de um médico de que seria melhor para ele e sua esposa não lidar com o choque de ver o corpo do bebê morto. Em vez disso, ele foi para Sevilha, para o Cemitério San Fernando para o enterro de "um embrulho de pano", em uma vala comum.

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Joaquín e Manuela perderam dois bebês em circunstâncias suspeitas, em 1972 e 1985.
Há algumas semanas, ele estava de volta ao cemitério para ser informado pelos funcionários que os restos no túmulo haviam sido transferido para um local não especificado, há uma década.

Em entrevistas separadas, alguns pais de luto disseram ter permitido que os hospitais lidassem com os enterros porque suas apólices de seguro não cobririam esses custos. Outros também disseram que eram muito ingênuos ou ignorantes para desafiar as equipes médicas, apesar de suas suspeitas.

Durante o regime de Franco e suas consequências imediatas, “você simplesmente não desafiava o que um oficial lhe dizia", disse María Luisa Puro Rodríguez, ex-operária de uma fábrica de tabaco, que alega que seu recém-nascido foi roubado em 1976, em um hospital de Málaga. "Agora nós felizmente vivemos em uma sociedade onde é normal questionar o que ouvimos", disse ela. "Aprendi essa lição amarga e agora estou pronta para lutar até o fim para descobrir o que realmente aconteceu".

*Por Raphael Minder

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