Escritor dissidente chinês encontra êxtase ao fugir para Alemanha

Liao Yiwu, um dos escritores mais perseguidos da China, atravessou fronteira com o Vietnã e seguiu para Berlim através da Polônia

The New York Times |

Depois de ter tido negado um visto de saída 17 vezes, ter sido removido de aviões e trens pela polícia e ameaçado de prisão algumas vezes, Liao Yiwu, um dos escritores mais perseguidos da China, atravessou a fronteira com o Vietnã na semana passada e, em seguida, seguiu para a Alemanha, através da Polônia, onde prontamente se declarou um exilado.

"Estou em êxtase. Eu estou finalmente livre", disse ele em uma entrevista por telefone de Berlim, antes de mergulhar em um dia de entrevistas e sessões fotográficas. "Eu sinto que estou vivendo um sonho”.

É claro, sua fuga – organizada por amigos que ele se recusou a citar – não trouxe apenas alegria. Ao fugir de sua terra natal, Liao, 52 anos, tomou a difícil decisão de abandonar a fonte de seu trabalho, em grande parte composto por explorações jornalísticas sobre os oprimidos da China: os párias políticos, os agricultores empobrecidos, os condenados à morte e outros que foram traumatizados pela fome e pelo fanatismo comunista, deixados de lado durante a maníaca adoção da riqueza material capitalista e consequente amnésia coletiva do país.

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Liao Yiwu em Berlim, para onde fugiu da repressão do governo chinês (11/7)
Ele também deixa para trás sua família, no sudoeste da província de Sichuan, incluindo sua mãe, seu filho, dois irmãos e uma namorada. "Estou tentando me convencer de que eu não vou ficar longe da China por muito tempo, que as coisas mudarão mais cedo ou mais tarde", disse ele.

No Ocidente, Liao é mais conhecido por The Corpse Walker: Real Life Stories, China from the Bottom Up (O Andador de Corpos: Histórias Reais, A China de Baixo para Cima, em tradução livre), que foi proibido na China logo depois que ter sido publicado em Taiwan, em 2001 - mas foi posteriormente traduzido para inglês, espanhol, alemão, francês e japonês. O livro, uma coletânea de entrevistas com pessoas que ele encontrou na prisão e durante sua peregrinação no sudoeste do país, conta as histórias sem adornos de 27 pessoas, entre elas um atendente de banheiro público, um proprietário de imóveis perseguido e os homens, conhecidos como “corpse walkers”, cujo trabalho é transportar os mortos de volta às suas cidades natais para o enterro.

Depois que o livro foi publicado seu relacionamento, já desgastado com as autoridades, pioraram. Ele foi impedido de viajar para festivais literários na Alemanha, Austrália e Estados Unidos e na primavera passada foi forçado a assinar uma promessa de dar fim à publicação fora da China. Caso quebrasse essa promessa, autoridades o avisaram, seu tormento seria ainda maior.

Dada a situação de seu amigo Liu Xiaobo, o Prêmio Nobel da Paz e escritor que está servindo uma sentença de 11 anos por subversão, Liao sabia o que poderia esperar. A ameaça ganhou maior urgência com a publicação iminente nos Estados Unidos de God is Red, um livro sobre os cristãos chineses, e The Witness of the 4th of June, um livro de memórias sobre seu tempo na prisão. O lançamento do livro de memórias, cujo título se refere à repressão militar dos protestos da Praça da Paz Celestial, em 1989, foi adiado várias vezes por editoras na Alemanha e Taiwan.

Batalhas

Suas batalhas mais recentes fazem parte de um rigoroso ataque do Partido Comunista à expressão criativa e oposição. Aturdido pela crise no mundo árabe, o governo começou a reprimir dezenas de ativistas e defensores dos direitos humanos em fevereiro. A vítima mais proeminente foi Ai Weiwei, o cáustico artista e crítico social.

"Acho que a decisão de Liao Yiwu de deixar o país realmente reflete o desconforto extremo que os escritores estão enfrentando agora na China", disse Larry Siems, diretor de programas internacionais do Centro Americano PEN, um grupo de defesa. "É uma pena, porque ele é um dos escritores mais interessantes da China e observa alguns dos grandes dramas humanos que acompanham a emergência da China como potência econômica. A China deveria libertar a imaginação de seus escritores em vez de tentar coibir e controlá-los”.

Como muitos de sua geração, Liao sofreu enxurradas de dificuldades. Ele quase morreu de fome quando bebê durante o desastroso Grande Salto Adiante de Mao Tsé-tung, quando a fome ceifou dezenas de milhões de vidas. Quando criança, ele e seus colegas foram expulsos da escola pela Revolução Cultural, na década em que a educação foi caluniada como uma indulgência burguesa. Muito do que ele aprendeu veio de seu pai, um professor de literatura chinesa, e de sua mãe, uma professora de música.

"Quando garoto, meu pai me fazia ficar de pé sobre uma mesa e não me permitia descer até que eu terminasse de recitar os clássicos", disse ele.

Já em 1987, Liao atraiu a ira dos burocratas culturais por escrever poesias, impressas em jornais oficiais, que foram condenadas como excessivamente pessimistas e anti-estabelecimento. Após a repressão na Praça da Paz Celestial, ele experimentou os limites da liberdade de expressão. Inspirado por Allen Ginsburg e Dante, ele e cinco amigos circularam poemas recitados em vídeo que lamentavam o derramamento de sangue em Pequim. Liao chamou a peça de Massacre.

Pouco tempo depois, em 1990, ele e os outros foram presos como "contra-revolucionários". Seus quatro anos de confinamento foram marcados pela tortura e terror de ver 20 detentos serem arrastados para a execução. Ele tentou tirar a própria vida duas vezes.

Prisão

Foi na prisão que Liao conheceu muitos dos personagens que iriam povoar The Corpse Walker. Também foi onde ele aprendeu a tocar xiao, um antigo instrumento de sopro que o sustentou como músico de rua durante longos períodos de desemprego após a sua libertação. Foram anos amargos, ele disse, quando os amigos e até mesmo sua esposa o achavam politicamente radioativo.

"Eu nunca imaginei que eles iriam se distanciar de mim como se eu tivesse peste", disse ele. "A partir disso, cheguei à conclusão de que as memórias das pessoas podem ser facilmente apagadas”.

Desde então, Liao tem se dedicado a coletar as memórias de pessoas à margem da sociedade. Para God is Red ele procurou os cristãos na zona rural de Sichuan e Yunnan, que haviam passado por anos de perseguição oficial.

Mickey Maudlin, editor executivo da HarperOne, descreveu-o como desprovido de polêmicas. "Liao não está tentando marcar pontos ideológicos", disse Maudlin por telefone, de San Francisco. "Ele está apenas tentando descrever como as pessoas sobreviveram em um ambiente que não é muito amigável”.

Liao disse que desde que chegou à Alemanha, tem estado muito ansioso e animado para comer ou dormir o suficiente. Tendo chegado sem dinheiro, ele está contando com a generosidade de amigos, seu editor alemão e, ele espera, royalties de seus futuros livros. Ele não fala nem alemão nem inglês e disse não ter certeza se conseguirá mergulhar no aprendizado de uma nova língua.

"A Alemanha, os Estados Unidos e a Austrália todos me acolheram", disse ele. "Mas o lugar onde eu realmente quero estar é a China”.

*Por Andrew Jacobs

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