Escândalo de escutas telefônicas põe estilo Murdoch sob pressão

Episódio pode ameaçar o maior negócio da News Corp.: a aprovação do Reino Unido à aquisição completa de empresa de TV por satélite

The New York Times |

Arriscar e passar dos limites sempre foi apenas um custo a mais do ato de fazer negócios para Rupert Murdoch. Mas o crescimento do escândalo das escutas telefônicas ilegais usadas em correios de voz pelo tabloide britânico News of the World corre o risco de manchar a imagem do seu império de forma que outros incidentes embaraçosos em empresas pertencentes a News Corp. – entre as quais a emissora Fox e o jornal The New York Post – não fizeram. Por causa do escândalo, o grupo de Murdoch anunciou que fechará o tabloide depois de sua última edição, no domingo.

No passado, Murdoch sobreviveu a seus críticos ou agiu rapidamente para limitar as consequências de escândalos. Assim, na quarta-feira ele adotou uma postura de controle de danos novamente. A empresa agiu rapidamente para denunciar a invasão dos telefones e anunciar sua intenção de cooperar com a polícia, mas o estrago está se provando difícil de conter.

Reuters
Mulher fala ao telefone em frente ao prédio da News International em Londres (06/07)
Há um crescente consenso dentro da empresa de que Rebekah Brooks, a principal executiva do News International (divisão responsável pelos jornais britânicos da News Corp) e ex-editora que se tornou o foco de grande parte da indignação em relação às escutas telefônicas, será forçada a deixar o emprego, segundo pessoas com conhecimento das discussões que têm acontecido dentro da News Corp.

A possibilidade de demitir Rebekah estaria sendo evitada por Murdoch, segundo várias pessoas próximas ao magnata, por lhe ser fiel e ver a campanha contra ela como uma vingança de inimigos políticos da empresa.

Uma dessas pessoas, que não quis ser identificada por discutir assuntos internos, disse também que dentro da empresa há rumores de que Andy Coulson, o ex-editor do News of the World, que foi forçado a deixar o cargo de diretor de comunicações do premiê britânico, também está sob crescente investigação. Ele foi detido nesta sexta-feira.

Até agora, o dano foi limitado à reputação da empresa. A News Corp. ainda não enfrenta grandes perdas financeiras, como o crescente boicote de anunciantes ao News of the World. Ainda assim, as ações da companhia caíram 3,6% na quarta-feira chegando a US$ 17,47, depois de subir durante a maior parte do ano. O episódio pode ameaçar o maior negócio da News Corp.: a aprovação do governo britânico de sua aquisição completa da BSkyB, a empresa de televisão por satélite.

David Bank, analista de mídia da RBC Capital Markets, disse que o escândalo de escutas telefônicas até agora não passou de um pequeno solavanco nos vastos negócios da empresa. "Parece muito mais barulho do que substância", disse, notando o quão pouco os jornais contribuem para os lucros totais da companhia.

O News of the World é apenas um pequeno pedaço do amplo domínio do News International na Grã-Bretanha. A empresa também publica o The Times de Londres e o The Sun.

No total, a receita da divisão de publicações da News Corp. representou apenas 17% de sua receita nos últimos nove meses. Nesse período, a programação a cabo foi responsável por 61% e o cinema, que inclui o estúdio 20th Century Fox, por 20%.

Ainda assim, Murdoch pareceu preocupado o suficiente sobre as consequências do escândalo de escutas telefônicas para convocar o que alguém próximo a ele descreveu como um "conselho de guerra" em Sun Valley, Idaho, onde ele estava para participar de uma conferência de mídia e tecnologia. Murdoch estava lá na quarta-feira com sua mulher, Wendi, e seu filho, Lachlan.

Murdoch, comentando a controvérsia pela primeira vez desde que alguns dos principais líderes políticos britânicos pediram uma investigação sobre a prática de coleta de informação da empresa, chamou as acusações de escutas telefônicas de "deploráveis e inaceitáveis" e prometeu cooperar com qualquer investigação policial.

Mas com novas revelações prejudiciais sobre a extensão das escutas surgindo diariamente – na última quarta-feira houve relatos de que o News of the World teve acesso as caixas postais telefônicas de familiares de soldados mortos – as declarações de desaprovação de Murdoch podem não ser suficientes.

"Dependendo de como e quão ampla for a investigação, isso é algo que pode seriamente manchar a sua reputação", disse Rem Rieder, editor e vice-presidente sênior do American Journalism Review. "Isso parece ser institucional."

A News Corp. já passou por outros escândalos. Multas por indecência, processos judiciais com acusações de práticas comerciais não competitivas e suposta difamação são comuns para a empresa, que tem sido capaz de absorver facilmente os inconvenientes financeiros.

Em 2009, os anunciantes boicotaram o programa de Glenn Beck na Fox News depois que o apresentador chamou o presidente Barack Obama de racista. Aceitando a afronta, a Fox disse que o investimento em publicidade apenas mudou para outros horários da programação. E em janeiro a empresa pagou um acordo de US$ 500 milhões para a Valassis Communications, que acusou a subsidiária da News Corp. de tentar obter monopólio nos cupons de desconto da empresa.

O incidente de destaque mais recente envolveu a Comissão Federal de Comunicações, no ano passado. A rede mostrou um episódio do programa "American Dad" em que um cavalo ejaculou no rosto de um personagem. A comissão propôs uma multa de US$ 25 mil. Nesta semana, o The New York Post foi processado por difamação pela empregada do hotel que acusou Dominique Strauss-Kahn, ex-chefe do Fundo Monetário Internacional, de agressão sexual. Em sua cobertura do caso, o Post chamou a empregada de prostituta.

No Reino Unido, algumas empresas começaram a retirar seus anúncios do News of the World – entre elas Ford, Mitsubishi, Lloyds Banking Group e Virgin Holidays. Mas por enquanto o estrago parece que será apenas local, enquanto o escândalo se restringir ao país. "Acho que ele está contido”, disse Bank.

O maior risco será a proposta de compra da BSkyB. A News Corp já possui cerca de 39% da empresa e tem tentado há mais de um ano adquirir o restante. A aquisição aumentaria a concorrência entre as emissoras britânicas, mas ela tem enfrentado escrutínio de críticos que dizem que uma empresa não deve ter tanto controle do mercado de televisão de um país.

A revisão do acordo deveria ser concluída na sexta-feira e tudo indicava que a News Corp. conseguiria a aprovação.

O Ofcom, órgão regulador britânico, disse em um comunicado na quarta-feira que não foi responsável pela investigação das escutas telefônicas "que deve ser realizada pela polícia e pelos tribunais", mas que está "monitorando de perto a situação, principalmente as investigações por parte das autoridades competentes em relação às atividades supostamente ilegais”.

Bank disse: "Acho que as pessoas estão se perguntando, será que isso será um problema para a transação BSkyB? Não acho que seja”. Mas, acrescentou, com certeza "é um momento muito inconveniente".

*Por Jeremy W. Peters and Brian Stelter

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