Escândalo de corrupção no Parlamento abala o Kuwait

Investigação contra quase um quinto dos parlamentares desencadeia protestos e desconfiança no país árabe

The New York Times |

Dois dos maiores bancos do Kuwait ficaram um pouco desconfiados quando cerca de US$ 92 milhões (R$ 169,9 milhões) foram transferidos para as contas de dois integrantes do Parlamento.

Assim, o Banco Nacional do Kuwait e o Casa Financeira do Kuwait alertaram o Ministério Público, que decidiu abrir uma investigação não apenas sobre os depósitos suspeitos, mas também sobre as atividades de sete outros membros do Parlamento.

AP
Grupos da oposição participam de manifestação antigoverno na Cidade do Kuwait (21/09)

O Kuwait é um país rico que conseguiu apaziguar o público e evitar o tipo de tumulto que tomou conta de outras nações árabes. Mas mesmo no Kuwait, onde alegações de corrupção e subornos são endêmicas, o tamanho dos depósitos desencadeou uma fúria que está abalando esse país rico em petróleo. Isso sem mencionar que as investigações, até agora, envolvem nove de apenas 50 membros do Parlamento.

"Isso está se tornando o Watergate do Kuwait", disse Shafeeq Ghabra, professor de ciência política na Universidade do Kuwait. "A reação popular é prova de que o governo falhou com o povo. Nesse contexto, a população exige a renúncia do governo."

No mês passado, a mídia do Kuwait veiculou as primeiras notícias sobre os dois maiores bancos do país terem ficado alarmados com as transferências de milhões de dólares para contas de parlamentares, disse Nasser al-Sane, um ex-parlamentar que agora leciona administração de negócios na Universidade do Kuwait.

Mas mesmo conforme a raiva pública aumenta, o governo silencia sobre o caso, apenas alimentando as suspeitas públicas, os rumores e as especulações. Nesse ambiente, a raiva popular contra a família real, e em especial contra o primeiro-ministro Nasser Mohamed al-Ahmed al-Sabah, floresceu.

"Ainda não recebemos nenhuma informação sobre a origem deste dinheiro ou sobre quem o recebeu", disse Ebtihal al-Khatib, um ativista pró-democracia. "Tudo não passa de rumores e por isso as pessoas estão tão furiosas e unidas: porque queremos mais informações. Queremos saber os nomes e queremos saber as datas em que serão julgados."

O inquérito sobre a corrupção ameaça colocar o governo em uma posição impossível, disse Ghabra. Se o emir permitir que o Parlamento permaneça ativo enquanto pelo menos um quinto de seus membros são investigados por corrupção, ele corre o risco de impulsionar protestos de rua cada vez maiores e uma erosão na confiança pública. Mas se ele dissolver o Parlamento e convocar novas eleições, a indignação pública poderia ajudar a formar um corpo legislativo hostil à monarquia e mais assertivo nas exigências de mudanças constitucionais.

"Tudo o que o governo tem na mão é dinheiro, e ele acha que pode usá-lo para comprar tempo", disse Ghabra. “Mas este escândalo surgiu porque o governo vem usando dinheiro para comprar a fidelidade" dos legisladores. "Estamos cada vez mais em uma situação na qual o dinheiro não pode resolver os problemas do país. Aqueles que o têm não o usam com sabedoria, e o resultado é um escândalo como este, que tem um custo político muito elevado."

O sistema político do Kuwait há muito é visto como um dos mais despreocupados do Golfo Pérsico, uma região cuja política é dominada por monarcas absolutos.

O emir do Kuwait, Sabah al-Ahmed al-Jaber al-Sabah, é o chefe indiscutível do Estado e a formação de partidos políticos é ilegal, mas o país tem um Parlamento eleito composto por várias facções políticas, incluindo socialistas e islâmicos. O primeiro-ministro sempre é um membro da família real, indicado pelo emir.

O governo tem contado com a sua imensa riqueza em petróleo para fornecer cuidados aos kuwaitianos do berço ao túmulo. Mas essa mesma riqueza tem impulsionado a corrupção e a desconfiança pública, segundo um dossiê de 2006 da Embaixada dos Estados Unidos divulgado pelo WikiLeaks.

"O rápido aumento dos preços do petróleo e a consequente expansão econômica tem alimentado a corrupção no Kuwait", afirma o dossiê. "Os kuwaitianos cada vez mais se perguntam para onde está indo todo esse dinheiro."

Analistas locais dizem que o escândalo irrompeu num momento em que a liderança do Kuwait enfrenta desafios em várias frentes.

Durante meses, a Cidade do Kuwait teve protestos esporádicos, ainda que pequenos, exigindo a saída do primeiro-ministro e um movimento em favor da monarquia constitucional, disse Al-Khatib. Essas demandas apenas crescem diante da investigação sobre corrupção, afirmou.

Milhares de funcionários públicos também estão em greve, exigindo melhores salários e benefícios, e parlamentares da oposição pediram que eles participem dos protestos antigoverno. Em entrevista ao jornal The Kuwait Times, Ahmed al-Saadoun, um membro do Parlamento, disse que os ataques "podem sinalizar o início de um colapso, porque temos um governo fracassado e incapaz".

Por Liam Stack

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