Erros iniciais alimentaram polêmica sobre mesquita em NY

Idealizadores do projeto subestimaram possibilidade de reação negativa e não consultaram organizações muçulmanas experientes

The New York Times |

Joy Levitt, diretora executiva do Centro Comunitário Judaico da região Upper West Side de Manhattan, lembra de sua primeira conversa com Daisy Khan, por volta de 2005, anos antes de a ideia dela de criar um centro para a comunidade muçulmana da região de Lower West Side se transformar em uma polêmica sobre o 11 de Setembro, o Islã e a liberdade religiosa.

“Carrinhos de bebês”, disse Levitt, de quem Khan havia se aproximado em busca de conselhos sobre como construir uma instituição como o centro judaico – com piscina, aulas de arte e projetos conjuntos com outros grupos religiosos. Levitt, um rabino, pediu que Khan se concentrasse em questões práticas, como um salão grande o suficiente para a realização de casamentos e estacionamento para carrinhos de bebês.

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Daisy Khan, uma das idealizadoras do projeto de um centro islâmico em NY
“Você pode usar todas as palavras grandiosas que quiser, como diversidade e pluralismo”, Levitt recordou ter dito a Khan, salientando que com a população de crianças de Manhattan cada vez maior, “eu lido com cerca de 500 carrinhos de bebês no lobby do centro judaico”.

Claramente, a ideia de que Khan e seus parceiros seriam acusados de construir um monumento à vitória do terrorismo não passou por sua cabeça – um descuido que teve consequências.

Os organizadores conseguiram apoio entre alguns grupos judeus e cristãos, e mesmo entre algumas famílias de vítimas do 11 de Setembro, mas fizeram pouco para dialogar com os prováveis adversários. Mais impressionante ainda, eles não procuraram os conselhos de organizações muçulmanas estabelecidas e experientes no volátil cenário pós-11/09.

Os organizadores - principalmente Khan, seu marido, o imã de uma mesquita no distrito financeiro, e um jovem investidor imobiliário nascido em Nova York – não contrataram uma firma de relações públicas após a explosão das hostilidades em maio. Eles foram em frente com sua primeira apresentação pública do projeto – um comparecimento voluntário a uma reunião do conselho comunitário de Lower Manhattan – logo após um muçulmano americano, Faisal Shahzad , ser preso por colocar um carro-bomba na Times Square.

“Isso nunca nos ocorreu”, disse Khan. “Nós fomos construtores de pontes por anos”.

A ideia inicial de Khan levou ao debate acirrado de hoje, muitas vezes caracterizado por fortes emoções e informações equivocadas, por meio de uma combinação de ingenuidade discutível, erros de relações públicas e um ambiente político nacional em que uma preparação melhor poderia ter evitado a controvérsia.

Como resultado, os defensores do centro de US$ 100 milhões, chamado Park51, que recebeu a aprovação final da cidade na semana passada, estão agora começando seu planejamento de arrecadação de recursos e execução em meio a uma batalha maior do que esperavam. O futuro do centro – os organizadores dizem que ele terá uma mesquita, mas os seus 15 andares serão usados principalmente para outras funções – tornou-se munição para rádio, televisão a cabo e disputas eleitorais em todo o país.

Sharif El-Gamal, desenvolvedor do projeto, disse ironicamente em uma entrevista na sexta-feira: “Este centro pode se tornar o mais famoso do mundo”.

Para os muçulmanos americanos, os interesses tornaram-se dolorosamente altos.

“Isso tem repercussões para toda a comunidade”, disse Niaz Robina, que coordena o Turning Point, um grupo que luta contra a violência doméstica entre os muçulmanos. “Ele, de repente, tornou legítimo que todos lá fora agridam os muçulmanos. Ele nos uniu. Mas também mostra quanto trabalho temos pela frente”.

Em 1999, o imã Abdul Rauf Feisal, marido de Khan, tentou comprar o prédio do antigo McBurney YMCA na Rua 23, em Manhattan, dizendo ao corretor do imóvel, David Lebenstein, que planejava uma espécie de centro para muçulmanos.

Sabendo que o ataque de 1993 ao World Trade Center ainda deixava muios nova-iorquinos nervosos, o imã Lebenstein assegurou: “Nós não somos os únicos a fazer bombas, somos moderados e americanos”.

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Imagem mostra prédio que seria demolido para construção de centro islâmico

A venda só não foi autorizada por dificuldades de financiamento, disse Lebenstein, filho de um sobrevivente do Holocausto. Feisal está na Malásia e não pôde ser contatado para comentar o assunto.

Feisal, 62, mudou-se para os Estados Unidos quando adolescente com seu pai, um imã egípcio, e se formou pela Universidade de Columbia, em NY. Até 2009, ele foi o líder das orações de sexta-feira em Masjid Al Farah, uma mesquita da tradição sufi, que enfatiza o misticismo e a tolerância. A mesquita foi criada há duas décadas e fica a 12 quarteirões do World Trade Center.

Seus sermões eram infundidos com uma espiritualidade “doce”, e não focados em “regras e regulamentos”, ou política, disse Adem Carroll, diretor do Conselho Consultivo Muçulmano, um grupo de defesa com sede em Nova York. Esses sermões atraíram seus dois aliados no projeto atual, que será construído na 45-51 Park Place.

Daisy Khan, que emigrou, também quando adolescente, da Caxemira para Jericó, em Long Island, se casou com Feisal em 1997. Eles fundaram uma organização sufi que defende a fusão da tradição islâmica aos direitos das mulheres e à modernidade. Após o 11 de Setembro eles ampliaram o seu perfil, mudando o nome do grupo para Sociedade Americana para o Avanço Muçulmano e se concentrando em conectar os muçulmanos e a sociedade americana. Eles falaram contra a violência religiosa, o imã aconselhou o FBI, sua esposa se juntou ao conselho do memorial e museu 11 de setembro.

Alguns anos mais tarde, El-Gamal, um desenvolvedor cujo pai foi executivo do Banco Chemical egípcio, pediu que o imã realizasse seu casamento.

El-Gamal, que coordenava a SoHo Properties, concordou por volta de 2006 a se juntar ao projeto. Em 2009, ele comprou dois edifícios adjacentes na Park Place, onde o imã começou a realizar encontros. Só então os organizadores começaram a visualizar mais amplamente a sua ideia.

Em cima do medo e confusão que tomaram conta de Nova York sobre o Islã após 11/09, um movimento começou a surgir contra os muçulmanos que querem um maior papel na vida pública americana. Em 2007, Debbie Almontaser, uma educadora muçulmana, foi forçada a pedir demissão de seu cargo como diretora de uma escola pública de língua árabe no Brooklyn depois que esses grupos ajudaram a retratá-la como defensora do terrorismo.

Mas os organizadores do centro disseram que havia poucos indícios de que eles estavam a caminho de uma tempestade. Khan continuou a se encontrar com Levitt, e ela se lembra de se preocupar menos com os carrinhos de bebê do que com “os ambulantes” – onde os vendedores de rua do Senegal, um subconjunto dos muçulmanos que trabalham no centro da cidade, iriam deixar seus produtos quando visitassem o centro?

Levitt lembra de aconselhar os organizadores a reunir possíveis membros e financiadores – por exemplo, os muçulmanos de toda a região – , antes de propor um edifício. Mas El-Gamal disse que queria primeiro encontrar a propriedade e depois garantir que os moradores e funcionários desejavam o centro.

Se prometesse algo para os muçulmanos e não conseguisse cumprir, ele explicou, “perderia o respeito dentro de minha comunidade”.

Khan disse que eles estavam confiantes de que os muçulmanos iriam apoiar o centro e achavam que era mais importante conversar com políticos e líderes de outros grupos religiosos.

Líderes de grupos de defesa dos muçulmanos em Nova York notam que o imã e sua esposa não tinham trabalhado com grupos de base muçulmana anteriormente e se perguntam se eles queriam evitar parecer “muçulmanos demais”. Os organizadores dizem que não.

Os organizadores falaram com o prefeito Michael R. Bloomberg sobre o plano em setembro de 2009, em uma festa que comemorou o fim do Ramadã na mansão Gracie. Um artigo do "The New York Times" sobre o projeto publicado em dezembro atraiu poucos comentários negativos.

Em fevereiro, a equipe de Scott M. Stringer, presidente do distrito de Manhattan que gostou da ideia, sugeriu aos organizadores apresentar o projeto ao Conselho Comunitário 1, o órgão consultivo que representa grande parte do bairro.

Stringer disse que ninguém os alertou sobre “a questão islâmica”, acrescentando com um sorriso cansado: “Nós realmente damos bons conselhos”.

Preparando-se para uma reunião do conselho comunitário no dia 5 de maio, Khan recebeu cartas de apoio de seus aliados habituais, como a Federação Judaica de Nova York, a Igreja da Trindade, e a associação Famílias do 11 de Setembro para um Amanhã Pacífico.

Algumas pessoas levantaram preocupações sobre os sentimentos das vítimas do 11/09, mas a reunião foi dominada por questões logísticas e apoio daqueles que saudaram as novas instalações do centro. A diretoria deu um “sim” unânime.

No dia seguinte, o tumulto começou. Alguns jornais se referiram ao projeto como a “mesquita WTC”. Faisal Shahzad havia sido preso na noite de 03 de maio pela tentativa de atentado na Times Square. O escritório do conselho comunitário começou a receber “centenas e centenas” de ligações e e-mails raivosos de todo o mundo, disse sua presidente, Julie Menin, alguns tão ameaçadores que ela pediu a ajuda da tropa de choque da polícia para a próxima reunião.

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Americana protesta durante audiência que retirou obstáculo ao projeto; no cartaz, lê-se: não glorifiquem assassinos de 3 mil; não à mesquita da vitória do 11 de Setembro

Os organizadores ficaram chocados. Muitos de seus apoiadores dizem que a sua incapacidade de imaginar essa reação os deixou mal preparados para lidar com ela.

No dia 18 de maio, os organizadores realizaram uma teleconferência com os apoiadores e logo contrataram uma empresa de relações públicas para gerenciar a crise.

Menin, do conselho comunitário, pediu que Khan e o gabinete do prefeito realizassem um fórum público para baixar a poeira antes da próxima reunião aberta no dia 25 de maio. Eles poderiam, por exemplo, deixar claro que a sua congregação já realizava encontros no bairro há anos.

“Isso absolutamente teria atenuado alguns dos problemas”, disse Menin.

Mas o fórum público não foi realizado.

Ainda assim, os apoiadores originais do projeto se mantiveram firmes. Quando a Comissão de Preservação de Marcos removeu o único obstáculo legal no dia 3 de agosto, Bloomberg fez um discurso apaixonado atacando os críticos do projeto, por atropelar a liberdade religiosa. Muçulmanos americanos – incluindo alguns grupos inicialmente não consultados – reuniram-se para a defesa do projeto.

El-Gamal disse que desde maio havia começado a se reunir em particular com adversários para se explicar. Mas ele tinha que se defender publicamente com frequência. Ele disse que não queria dizer a oponentes irritados como machucou o próprio olho distribuindo água para os agentes de resposta de emergência em 11/09.

Ele não sente que deveria ter que falar sobre isso, afirma. Ele se recusou recentemente a aparecer na CNN para debater com Rick A. Lazio, candidato republicano a governador que é contra o projeto.

“Este não é um debate”, disse El-Gamal. “Eu sou americano. Eu sou nova-iorquino. Eu estou exercendo minha liberdade neste país”.

Há poucas coisas que ele faria diferente, disse.

“Não há um manual que você possa seguir”.

Nem, ao que parece, um plano sobre o que fazer agora.

Na noite de terça-feira, os organizadores se reuniram com  famílias das vítimas do 11/09. Menin ainda pede uma reunião na prefeitura. “Você tem que lidar com o desconforto e as controvérsias de frente”, disse.

Por Anne Barnard

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