Epidemia de corrupção mata funcionários de saúde na Índia

Desde outubro de 2010, três oficiais foram assassinados em Uttar Pradesh, o Estado mais populoso e um dos mais corruptos da Índia

The NewYork Times |

O primeiro médico a morrer, um administrador do setor de saúde do governo, foi baleado enquanto fazia sua caminhada no início da manhã em outubro por dois homens em uma moto. Seis meses depois, seu sucessor, um cardiologista, foi morto a tiros também quando fazia sua caminhada matinal. Um terceiro médico do governo, acusado de conspirar para assassinar os dois primeiros, foi encontrado morto na cadeia em junho, deitado em uma poça de sangue com cortes profundos por todo o corpo.

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Mulher recebe receita médica em clínica de saúde rural em Kurebhar, Uttar Pradesh, Índia (29/7/2011)
A única coisa que esses médicos tinham em comum? Todos os três tinham sido, em algum ponto de sua carreira, encarregados dos quase US$ 2 bilhões destinados a Uttar Pradesh, o Estado mais populoso da Índia, como parte de um esforço nacional para melhorar a saúde dos cidadãos indianos mais pobres.

A infraestrutura da saúde pública continua péssima, e os oficiais dizem que agora suspeitam de que os assassinatos resultaram de uma combinação virulenta de dinheiro rápido, supervisão escassa e um Estado notoriamente corrupto. O último médico a morrer, segundo seus parentes, preparava um relatório para citar nomes em um possível escândalo. O governo central decidiu abrir uma investigação.

"Quando esse dinheiro é dado a um governo que é basicamente uma organização criminosa, a violência não pode ser descartada", disse Kamini Jaiswal, um proeminente advogado que entrou com várias ações judiciais nesses casos.

A greve de fome recente do ativista social Anna Hazare atraiu atenção para a corrupção de todos os dias que enfurece a classe média da Índia - os grandes e pequenos subornos que devem ser pagos para fugir de aborrecimentos e perseguições de um Estado autoritário e incompetente.

Mas em lugares como Uttar Pradesh, o preço da corrupção pode ser mais alto, algo testemunhado não apenas nas mortes dos médicos, mas no efeito que tem na saúde pública.

Uttar Pradesh é um dos Estados mais corruptos da nação. Ele também tem algumas das piores estatísticas de saúde do mundo, incluindo taxas de mortalidade infantil e desnutrição comparáveis às da África Subsaariana. Se Uttar Pradesh fosse um Estado independente, com seus 200 milhões de habitantes, seria a quinta maior nação do mundo, mais populosa até do que o Brasil.

Em 2005, o governo, liderado pelo Partido do Congresso, criou a Missão Nacional da Saúde Rural, que buscava reformular os cuidados de saúde oferecidos aos pobres de regiões rurais por meio da construção de milhares de novas clínicas e de milhões de contratações de trabalhadores do setor.

Por causa da estrutura federal da Índia, a maior parte do trabalho foi realizada pelos governos estaduais como o que nesse Estado é dirigido por um líder de uma casta inferior chamado Mayawati, que uma vez aceitou uma quantia de 1 mil rúpias em dinheiro de simpatizantes, o que equivale a cerca de US$ 36 mil. Nem todos os Estados estavam preparados para lidar com isso e aqui, pelo menos, nenhuma parte do dinheiro cumpriu a sua promessa.

Alguns Estados se saíram muito melhor, usando o dinheiro de forma eficaz. Partidários de Hazare afirmam que sua demanda para a criação de um ombudsman em cada Estado pode ajudar contra a corrupção. O governo central entregou o dinheiro para Uttar Pradesh sem praticamente nenhuma supervisão.

Apenas após a morte dos médicos é que foi feita uma revisão pelos investigadores do governo central, que descobriram que contratos de milhões de dólares foram concedidos sem licitação, e milhões mais foram pagos integralmente aos empreiteiros que não completaram o trabalho que eram obrigados a fazer, deixando centros de saúde inacabados, em ruínas e sem equipamentos. O governo não conseguiu expor seu relatório de investigação ao público - o The New York Times conseguiu uma cópia obtida pelo The Indian Express, um jornal de grande veiculação que revelou a história sobre o escândalo.

Naseemuddin Siddiqui, o ministro da saúde de Uttar Pradesh, afirmou que o Estado havia solicitado o inquérito ao governo central. Quando questionado por mais detalhes, ele desligou o telefone. Dois ministros do Estado já foram forçados a renunciar.

É difícil ver para onde foi o dinheiro. Dois anos atrás, oficiais do Estado aprovaram um plano para construir uma clínica de saúde com 30 camas na aldeia de Kurebhar, que fica a três horas de Lucknow. A nova clínica viria a substituir um abrigo com apenas quatro camas que tentava desesperadamente prestar serviços de saúde decente para 74 aldeias. Mais de US$ 700 mil foram destinados ao orçamento do projeto.

O edifício deveria estar pronto em dezembro do ano passado. Quase oito meses após essa data, o centro de saúde ainda é um esqueleto feito de tijolos vermelhos.

"Tentamos pressioná-los para fazer o trabalho mais rápido", disse Mishra JL, o diretor médico no distrito de Sultanpur. Mas o governo pagou pela construção com antecedência, deixando quase nenhuma outra margem para qualquer outro gasto. Há pouca evidência desse dinheiro no centro de saúde atual.

"Muitas vezes não temos sequer sabão para lavar as mãos", disse PN Tiwari, diretor do centro de vacinação. "Enquanto isso, eles continuam nos roubando feito macacos", uma referência, disse ele, aos políticos, burocratas e empreiteiros.

Meia dúzia de bebês nasce na clínica todos os dias, mas a caixa d'água está quebrada, então os partos são realizados sem água corrente. O centro tem uma ambulância, mas que também está quebrada e parada sob uma espessa camada de poeira desde abril. O reparo custaria apenas US$ 30, mas ninguém tem o dinheiro para pagar por isso.

Suprimentos médicos cruciais, como sais de reidratação oral para crianças com diarreia, não estão em estoque há meses. Tiwari disse que não tinha dinheiro para abastecer o gerador, e assim os trabalhadores fazem um grande esforço para tentar manter as vacinas refrigeradas.

Tiwari, um veterano de 30 anos do sistema de saúde do governo, disse estar entre aqueles que acreditam que aumentar os fundos da saúde pública com tão pouca supervisão levou aos assassinatos.

"Por causa desse dinheiro dois médicos foram mortos", disse. "Uma enorme quantidade de dinheiro está envolvida, por isso uma enorme quantidade de crimes acontece."

Os médicos começaram a morrer em Lucknow há quase um ano. Quando Vinod Kumar Arya, o primeiro a morrer, foi baleado, o caso foi tratado como um intrigante mistério: por que alguém mataria um médico do governo?

O governo não substituiu imediatamente Arya, que era o médico-chefe da cidade, apenas apontou como chefe provisório um oficial júnior, Dr. Y. S. Sachan. Era uma posição importante que tinha a responsabilidade de gastar milhões de dólares do dinheiro destinado à saúde na zona rural pelo governo central.

No final de fevereiro, um cardiologista, B.P. Singh, foi nomeado médico-chefe oficial. Singh aceitou o cargo em março sob pressão, segundo seus parentes, e sentia uma grande tensão nas últimas semanas no cargo.

"Ele costumava dizer que havia muita corrupção", disse um primo, Inder Pratap Singh, um advogado da corte judicial de Lucknow. Singh tinha começado a manter um diário sobre as improbidades, segundo seu primo, e reclamou que era pressionado a aprovar despesas falsas no valor de centenas de milhares de dólares.

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Médico examina paciente em clínica rural em Kurebhar, Uttar Pradesh, Índia (29/07/2011)
Em 2 de abril, B.P. Singh foi morto por dois pistoleiros. Uma investigação da polícia concluiu mais tarde que a mesma arma havia sido usada no assassinato de Arya.

A suspeita caiu sobre Sachan, um burocrata com ligações políticas que trabalhava no Departamento de Saúde da cidade havia anos. Ele era associado do ministro, que conseguiu os fundos de saúde, Babu Singh Kushwaha, um aliado próximo de Mayawati. Sachan foi preso, mas poucas pessoas acreditavam que um burocrata relativamente júnior teria realizado os assassinatos por conta própria.

Malti, a esposa de Sachan, que também é médica, disse que seu marido serviu de bode expiatório para proteger os mais poderosos.

Sachan tinha dito à sua esposa que ele temia que alguém iria matá-lo e se sentia mais seguro na cadeia. Parentes disseram que ele havia decidido revelar quem havia roubado o dinheiro do Departamento de Saúde em uma audiência judicial.

Mas, um dia antes de aparecer na audiência, ele foi encontrado morto. Inicialmente, oficiais do governo consideraram sua morte como um suicídio, mas a autópsia revelou que ele tinha sangrado até a morte por feridas profundas que não poderiam ter sido autoinfligidas.

"A intenção era muito clara", disse R.K. Sachan, irmão do Sachan. "Ele estava indo divulgar o envolvimento de políticos de alto escalão no esquema. É por isso que foi silenciado."

Apesar de ainda terem esperança de justiça, as famílias dos médicos mortos mantêm suas expectativas baixas. "Se fosse corrupto, teria sobrevivido", disse Inder Singh, o primo de Singh. "Vejo essas coisas todos os dias. Nunca um burocrata ou político sênior é condenado. Alguns peixes pequenos sofrem, mas nunca os grandes."

*Por Lydia Polgreen

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