Epidemia de cólera toma conta do Zimbábue, mas governo nega

HARARE ¿ A cólera se espalhou pelas cinco pequenas crianças da família Chigudu com uma cruel e desconcertante pressa. Em um domingo recente, as crianças brincavam nas ruas onde corria esgoto a céu aberto, e conversavam alegremente enquanto iam para cama pela noite. A diarréia e os vômitos começaram na madrugada. Os parentes rapidamente prepararam uma solução de água, sal e açúcar para as crianças, entre 20 meses e 12 anos de idade, beberem.

The New York Times |

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Mas pela manhã, elas estavam sem energia e com os olhos submersos. A doença estava secando ao corpo delas. Então, elas começaram a morrer, disse o irmão Lovegot, 18. Prisca foi primeiro, depois Sammy, Shantel, Clopas e Aisha, a criança mais nova.

Uma feroz epidemia de cólera, disseminada pela água contaminada por excrementos humanos, já atingiu mais de 16 mil pessoas ao redor do Zimbábue desde agosto e matou mais de 780. O presidente Robert g. Mugabe disse quinta-feira que a epidemia tinha acabado, mas especialistas em saúde alertam que o número de casos passa de 60 mil, e que metade da população do país de 12 milhões de pessoas está em risco.


Epidemia de cólera ja matou 780 pessoas no Zimbábue / NYT

A epidemia é mais uma evidência de que os serviços públicos fundamentais do Zimbábue ¿ incluindo água e saneamento, escolas públicas e hospitais ¿ estão deixando de funcionar, de maneira semelhante aos órgãos das vítimas da cólera. 

A economia do Zimbábue, que já foi promissora e hoje é administrada desastrosamente pelo governo de Mugabe, está em um espiral decadente há décadas, mas a população daqui diz que a velocidade da queda-livre aumentou há algumas semanas. A maioria das escolas da nação, que já foram o orgulho da África por produzirem uma população altamente alfabetizada, praticamente cessou suas funções porque os professores, cujos salários não cobrem mais os custos do transporte até o trabalho, deixaram de comparecer às aulas.

Governo Mugabe

Com milhões de pessoas enfrentando uma fome intensa e severa, e com a cólera chegando aos países vizinhos, cresce o clamor internacional para que Mugabe deixe o poder após 28 anos. Mas ele parece recusar, e seu discurso sobre o fim da epidemia de cólera aconteceu depois de a Organização Mundial da Saúde alertar que a epidemia pode acarretar sérias implicações regionais.

Cortes de água são comuns e prolongados no Zimbábue, mas na semana passada as torneiras praticamente secaram nos subúrbios altamente povoados das grandes cidades, onde pessoas precisavam de água potável para lavar as mãos e os alimentos, medidas essenciais para evitar a contaminação da cólera. Nas ruas esburacadas cheias de crianças fora da escola e adultos desempregados, pilhas de lixo se acumulam e um lodo marrom e grosso vaza das tubulações de esgoto rompidas.

Os dois maiores hospitais da região, com instalações que já ofereceram tratamentos sofisticados em crises como essa, fecharam as portas semanas atrás depois que os médicos e enfermeiras simplesmente param de trabalhar com seus salários praticamente corroídos pela hiperinflação.

A inflação oficialmente atingiu 231.000.000% em julho, mas Johyn Robertson, economista independente do Zimbábue, estima que agora esse número é de 8 quintilhões por cento ¿ isso é um 8 seguido de 18 zeros.

Protestos

Essa situação se deteriorou a tal ponto que os soldados ¿ que sustentam o poder de Mugabe ¿ protestaram semana passada nas ruas da capital, quebrando janelas e saqueando lojas, depois de esperar dias nas filas dos bancos sem conseguir sacar seus magros salários dos caixas eletrônicos sem dinheiro. Uma autoridade que participou da manifestação, mas pediu anonimato com medo de perseguição, disse que as tropas estavam enfurecidas porque já não podiam comprar comida ou pagar escolas particulares para seus filhos.

Enquanto caminhamos, vemos que as crianças dos nossos chefes estão em escolas particulares aprendendo e as nossas estão brincando em ruas sujas, disse ele com amargura, usando o termo local para se referir a pessoas no poder.


Mugabe diz que a epidemia de cólera no Zimbábue já foi controlada / AP

Rumores sobre a extraordinária efervescência do Exército circulou rapidamente, com alguns especulando que os protestos justificariam a decretação de estado de emergência. Outros esperam que finalmente isso represente o fim da era de Mugabe.

Ainda assim, a capacidade do governo de esmagar a oposição parece intacta. A polícia sufocou a manifestação. Dezesseis soldados agora enfrentam a corte marcial. Além disso, cerca de 20 ativistas do partido de oposição e funcionários dos direitos humanos desapareceram recentemente. Na última semana, homens armados sequestraram uma conhecida ativista pelos direitos humanos, Jestina Mukoko, pela manhã, quando ela estava descalça, ainda usando a camisola de dormir e sem os óculos de grau, e o filho adolescente observava tudo impotente.

Analistas há muito previram que a permanência de Mugabe no poder ¿ que ele se recusa a abandonar desde setembro, quando assinou um acordo de divisão do poder com seu inimigo, o líder da oposição Morgan Tsvangiarai ¿ só poderá ser evitada quando a economia implodir completamente e a vida cotidiana se tornar insuportável.

Por CELIA W. DUGGER

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