Entre tesouros científicos, uma jóia

Se uma coisa pode ser dita sobre a cópia do livro de Nicolau Copérnico, De Revolutionibus Orbium Coelestium (¿Nas Revoluções das Esferas Celestiais¿), à venda na semana que vem na casa de leilões da Christie¿s, é que ele parece velho.

The New York Times |

Sua capa é amassada e manchada. As páginas estão enroladas. Você poderia facilmente imaginar que esse livro tenha passado por meia dúzia de revoluções escondido em diversos porões escuros na Europa.
Na verdade este livro, publicado em 1543, representa a própria revolução. Foi nele que o astrônomo polonês colocou sua teoria de que a Terra e os outros planetas giram em torno do sol, transgredindo um dogma milenar da Igreja de que a Terra era o centro do universo e lançando um frenesi de pensamento livre e investigações científicas.

O partido, conhecido como o Esclarecimento, ainda segue com força.

oi uma sensação segurar Copérnico em minhas mãos, numa recente visita às salas dos fundos da Christie's, e virar suas glorificadas páginas como se isso fosse meu convite pessoal ao Esclarecimento. Nenhuma biblioteca séria deveria ficar sem um destes. Caso você tenha perdido sua cópia, você pode ficar com esta em 17 de junho pelo preço de um apartamento em Manhattan, de acordo com o catálogo da Christie's, que estima seu valor em algo entre US$900.000 e US$1,2 milhão.

O Copérnico é a pedra fundamental da coleção de um médico e astrônomo amador, o Dr. Richard Green de Long Island, que constitui muito da história da ciência e do pensamento ocidental. Entre os outros na biblioteca de Green estão obras de Galileu, julgado por heresia em 1633 e sentenciado a prisão domiciliar por sua admiração por Copérnico e por retratar o papa como um tolo, assim como de Darwin, Descartes, Newton, Freud, Kepler, Tycho Brahe, Malthus e até mesmo Karl Marx.

Um lote conta com a coleção de Albert Einstein de reimpressões de seus artigos científicos, incluindo seu primeiro sobre relatividade. Outro é um atlas de estrelas incrivelmente bonito, Harmonia Macrocosmica, feito no século XVII pelo cartógrafo holandês-alemão Andreas Cellarius, com placas duplas coloridas à mão.

Tateando através destes itens estarrecedores, vi minha atenção ser atraída para um pequeno livro branco, praticamente um panfleto, uma máquina do tempo que me levou de volta a uma revolução mais recente. Era a lista para o primeiro sistema telefônico comercial do mundo, Volume 1, No 1, publicado em New Haven pela Companhia Telefônica do Distrito de Connecticut em novembro de 1878, com edições futuras a serem publicadas de tempos em tempos, conforme a natureza do serviço exigir.

Duas coisas me ocorreram. Como um veterano na atual remontagem da condição humana, eu imaginei comigo mesmo se haveria lições naquela primeira grande remontagem de nosso sistema nervoso coletivo.

A outra coisa foi um choque de reconhecimento de que as pessoas já estavam falando no telefone um ano antes de Einstein nascer. Na verdade, apenas dois anos depois, o próprio pai de Einstein entrou no negócio. Einstein cresceu entre rudimentos de telefones e outros dispositivos elétricos como ímãs e anéis, dos quais ele puxou parte da inspiração para a relatividade. Não foi antes de 1897, depois que as pessoas já haviam feito fortunas explorando a eletricidade, que o cientista inglês J.J. Thompson descobriu o que ela realmente era: a corrente de pequenos corpúsculos de matéria negativamente carregados, chamados de elétrons.

O quadro de distribuição de New Haven abriu em janeiro de 1878, apenas dois anos depois que Alexander Graham Bell, na vizinha Boston, disse as imortais palavras "Mr. Watson, venha cá. Eu quero você. Era o primeiro sistema comercial que permitia que muitos clientes se conectassem uns com os outros, por US$22 por ano, pagos adiantados.

A primeira lista telefônica consistia de uma única página listando os nomes de 50 assinantes. Em novembro, a rede havia crescido para 391 assinantes, identificados por nome e endereço os números de telefone ainda não existiam. E a lista telefônica, embora reduzida, já havia tomado a forma que se tornaria o peso de porta de hoje em dia, com propagandas e listas de negócios na parte de trás 22 médicos e 22 fabricantes de carroças, entre outros.

Os clientes tinham um limite de três minutos por chamada e não mais de duas chamadas por hora sem a permissão do escritório central.
Além das regras, a lista telefônica embrionária também trazia páginas de dicas sobre a realização de chamadas pegue o receptor e diga ao operador quem você quer e como falar neste aparelho. Ter uma conversa de verdade, por exemplo, exigia passar o telefone rapidamente entre boca e orelha.

Quando você não está falando, você deveria estar escutando, diz a dica em certo ponto.

Você deveria começar dizendo, Alô, e quando terminasse de falar, segundo a lista, você deveria dizer, Isso é tudo.
A outra pessoa deveria responder, OK.

Como qualquer pessoa poderia estar na linha a qualquer hora, os clientes não deveriam tirar o aparelho do gancho a menos que quisessem fazer uma chamada, e eles deveriam ser cuidadosos sobre o que os outros pudessem ouvir.

Qualquer pessoa usando linguagem profana ou imprópria deve ser reportada a este escritório imediatamente, diz a companhia.

Se apenas eles pudessem nos ouvir agora. Pensando bem, talvez seja melhor que eles não possam. Hoje estamos todos em uma linha comum, e basta apenas um botão de encaminhar para que os pensamentos mais venenosos sejam transmitidos para o universo. Será que os fundadores da Internet não poderiam ter nos avisado sobre isso antes?
Perto da parte de trás do livro há um ensaio sobre outra promissora nova maravilha que tem atraído renovada atenção tanto neste país quanto na Europa.

Muitas das ruas e lojas de Paris, o texto relata, estão agora iluminadas por luzes elétricas, colocadas em postes. Pessoas sentadas em cafés lêem seus jornais com a ajuda de luzes no lado oposto do caminho, e mesmo a mais delicada cútis e as mais suaves cores em tecidos não sofrem à branca claridade das lâmpadas. Cada pedra da rua é claramente visível, e os cavalos se movem rapidamente como se estivessem mais confiantes em seus passos, diz o livro.

Isso faz você imaginar o que poderia vir em seguida. Ah, sim, aqueles cavalos. As revoluções nunca terminam.

Isso é tudo.

Por DENNIS OVERBYE

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