Enterros dão toque de sutileza ao sistema carcerário do Texas

Em um Estado conhecido por ser duro com criminosos, o cemitério Byrd cuida de enterrar com dignidade presos não solicitados por suas famílias

The New York Times |

Kenneth Wayne Davis morreu aos 54 anos, não como um homem, mas como um número de detento: 327320. Davis foi acusado, condenado, sentenciado e preso por homicídio pelo Estado do Texas depois de tirar a vida de uma pessoa em 19 de novembro de 1977. Mas, quando morreu em novembro de 2011, o Texas parecia ser seu único amigo. Sua família não veio solicitar seu corpo, de maneira que o Estado acabou pagando pelo enterro.

The New York Times
Flores são vistas em túmulo em Joe Byrd, o maior cemitério prisional do país, em Huntsville, Texas (1/12/2011)
Em uma manhã fria em Huntsville, no leste do Texas, um grupo de detentos abaixou suas cabeças enquanto um bispo da capela da prisão fazia uma oração para Davis, seu caixão de metal preto repousava sobre tábuas de madeira em cima do túmulo que os presos haviam cavado para ele. Usando óculos escuros, botas de trabalho e uniformes brancos manchados de sujeira, eles poderiam ter sido confundidos com pintores a não ser pela maneira solene que seguravam seus bonés e luvas dobradas em suas mãos.

Ninguém que conhecia Davis se deu ao trabalho de comparecer ao seu funeral, por isso Damon Gibson, que cumpre uma sentença de 14 anos por roubo, e os demais presos tiveram a responsabilidade de ficar em silêncio sobre o túmulo de um homem que nunca sequer conheceram. Em seguida, Gibson e os outros detentos colocaram suas luvas e baixaram o caixão para que ele pudesse ser enterrado, proporcionando assim um descanso eterno no único lugar do Texas onde assassinos e outros presos cujos corpos não foram reivindicados pelas famílias ou responsáveis podem ser enterrados e até mesmo homenageados.

Nesse dia, o funeral de Davis foi um dos sete que ocorreram em Joe Byrd, o maior cemitério de prisioneiros dos EUA com 8 hectares, e onde milhares de detentos que foram executados ou morreram na prisão estão enterrados. Todos eles não foram solicitados por seus parentes após a sua morte, mas o cemitério não se parece nada com um campo em ruínas. Na verdade, é um oásis de tranquilidade localizado em uma colina verde perto do campus da Universidade Estadual Sam Houston, com pequenas fileiras de cruzes e lápides e, no seu centro, um grande altar pintado de branco com uma cruz.

Os últimos anos da vida desses detentos foram passados sob guarda armada atrás de grades e arame farpado, mas não existe nenhuma cerca ao redor do Boulvevard Bowers e ninguém fica de vigia. Caminhando ao longo da colina pelos pinheiros, pisando entre as fileiras de centenas de cruzes brancas e lápides idênticas, você pensa imediatamente no Cemitério Nacional de Arlington.

A cruz de concreto que marca o túmulo de Duane Howk lista o seu nome, número de detento e data de sua morte, em junho de 2010, mas não diz nada a respeito do delito pelo qual ele cumpria uma pena de prisão perpétua - ele agrediu sexualmente uma criança.

O assassino em série Kenneth Allen McDuff, que foi executado em 1998 por estrangular uma grávida de 22 anos com uma corda, ganhou notoriedade por ser o único preso na história dos EUA que se livrou da pena de morte, mas que voltou a ser preso anos mais tarde depois de matar outra vez, porém ele está sob uma cruz sem nenhum informação a não ser seu número de detento 999.055.

A agência estadual que cuida das prisões do Departamento de Justiça Criminal do Texas toma conta do cemitério desde que os primeiros detentos foram enterrados no local, em meados de 1800. Ela também opera e faz a manutenção nas últimas décadas com o mesmo cuidado e respeito que qualquer outra instituição religiosa o faria.

Uma equipe de detentos de uma das prisões da proximidade chamada de Walls Unit limpa o terreno, corta a grama e cuida das árvores durante quatro dias por semana. Os presos cavam sepulturas com uma retroescavadeira e pás, servem como carregadores e alguns gravam os nomes nas lápides manualmente usando ferramentas de metal e tinta preta para esculpir. O cemitério foi concedido para o diretor-assistente da Walls Unit, que ajudou a limpar e restaurar o cemitério nos anos 60. Até hoje, o diretor ou um de seus vices está presente em cada sepultamento.

The New York Times
Larry Hart, capelão de uma prisão, lidera prece antes de enterro em Joe Byrd, o maior cemitério prisional do país, em Huntsville, Texas (1/12/2011)
"É importante, porque eles são seres humanos", disse James Jones, o diretos. "É claro que eles cometeram um crime e têm de cumprir uma pena - e infelizmente alguns acabam morrendo enquanto estão presos -, mas mesmo assim ainda são considerados seres humanos."

Em um Estado conhecido por ser duro com os criminosos, onde as autoridades recentemente eliminaram os pedidos de última refeição do corredor da morte, o cemitério Byrd é um contraponto pouco conhecido na mitologia do sistema penal do Texas. A 2 km do Walls Unit, que abriga a câmara de execução do Estado, cerca de cem detentos são enterrados todos os anos em cerimônias nas quais o Estado gasta muito tempo e dinheiro. Cada enterro custa ao Texas cerca de US$ 2 mil. Muitas vezes, como no caso de Davis, quando nenhum dos parentes do morto aparecem, os únicos presentes são oficiais da prisão e os detentos que trabalham no local.

Todos os presos enterrados aqui não foram solicitados por parentes, que na maioria das vezes não o fazem porque não conseguem pagar as despesas do enterro e querem que a agência da prisão lide com os custos. Mesmo que se recuse a declarar o corpo, a maioria dos parentes viajam para o cemitério em Huntsville para participar da cerimônia paga pelo Esstado.

"Acho que todos assumem que se você está enterrado em um cemitério da prisão está entre o pior dos piores", disse Franklin T. Wilson, professor assistente de criminologia da Universidade do Estado de Indiana, que está escrevendo um livro sobre o cemitério. "Mas isso é mais um reflexo de sua condição socioeconômica. Esse é mais um caso de que, se você está enterrado lá, significa que é pobre."

Agentes penitenciários fizeram a contagem de 2,1 mil presos que estão enterrados no cemitério, mas eles dizem que pode haver sepulturas adicionais. Wilson recentemente fotografou cada lápide e estimou que havia mais de 3 mil túmulos.

De certa maneira, os funerais realizados no cemitério têm uma certa falta de precisão e formalidade. Caixões são transportados a partir do altar no centro do cemitério ao túmulo em um trator. Nomes e palavras esculpidas nas lápides têm erros ortográficos. Parentes levam aparelhos de som portáteis para ouvir música durante os funerais, tocando canções de rap e a música da banda AC/DC "Hells Bells". A maioria dos dias, depois que o grupo de detentos retorna para a prisão, o cemitério é um lugar deserto e solitário. Das milhares de sepulturas, apenas um punhado tem flores sobre elas.

"Você tem caras que morreram na prisão e foram enterrados aqui, e eles poderiam ter feito uma diferença em algum lugar, mesmo que fosse apenas em uma pequena comunidade em qualquer lugar", disse Jim Willett, diretor do Museu do Texas e um ex-chefe de prisão da Walls Unit aposentado, que compareceu em quase 200 cerimônias. "Esses caras não apenas estragaram sua vida. Estragaram a vida de sua família e de outras famílias que sofreram com o erro que cometeram, e depois eles acabam assim dessa maneira."

No dia do funeral de Davis, houve três enterros com membros da família presentes, e quatro não. Vândalos entraram no cemitério e tacaram fogo numa pilha de palha seca, cobrindo o ar da manhã com fumaça. Nem Gibson nem os detentos que trabalhavam no cemitério conheciam nenhum dos homens que enterravam. "Ele me fez querer ser uma pessoa melhor", disse Gibson, 38, pai de dois filhos nascido em Houston. "Ele me fez refletir sobre as coisas que fiz. Não quero um final como esse para mim."

Dois dos sete presos que foram enterrados, incluindo Davis, cumpriam a pena de prisão perpétua por

The New York Times
Lápides são vistas em Joe Byrd, o maior cemitério prisional do país, em Huntsville, Texas (1/12/2011)
assassinato, e os outros tinham sido presos por dirigir embriagados, por roubo, assalto, agressão sexual a uma criança quando acabaram morrendo antes de terem terminado de cumprir sua pena. Davis passou quase 34 dos seus 54 anos atrás das grades. No solo, em Huntsville, ele estava finalmente livre de seu uniforme da prisão. A funerária que lida com os enterros dos detentos o vestiu com calças escuras, camisa branca e uma gravata.

*Por Manny Fernandez

    Leia tudo sobre: texascemitérioprisão perpétuaeua

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG