Enquanto regimes árabes caem, Al-Qaeda assiste à história passar

Sem papel relevante nas revoltas, jihadistas contrários a regimes voltados ao Ocidente perdem espaço para movimento não religioso

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Durante quase duas décadas, os líderes da Al-Qaeda têm denunciado os ditadores do mundo árabe como hereges e fantoches do Ocidente e pedido sua queda. Agora, as pessoas em diversos países têm agido para derrubar seus líderes – e a Al-Qaeda não tem desempenhado nenhum papel relevante nisso.

Na verdade, os movimentos de oposição heterogêneos que têm aparecido tão de repente e se mostrado tão poderosos têm evitado os dois princípios fundamentais do credo da Al-Qaeda: a violência assassina e o fanatismo religioso. Os manifestantes utilizam a força apenas de maneira defensiva, tratam o islã como uma reflexão tardia e abraçam a democracia, que é um anátema para Osama Bin Laden e seus seguidores.

Assim, para a Al-Qaeda – e talvez não menos para as políticas americanas construídas em torno da ameaça que ela representa – as revoluções democráticas que chamaram a atenção do mundo representam uma encruzilhada. Será que a rede terrorista perdeu lentamente a sua relevância? Ou será que o grupo vai encontrar uma maneira de explorar o caos gerado pela agitação política e a decepção que inevitavelmente virá de esperanças tão grandes?

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Em Benghazi, líbios trabalham no comitê da Revolução de 17 de Fevereiro, de oposição a Kadafi
Para alguns especialistas em terrorismo e Oriente Médio, as últimas semanas representam um desastre histórico para a Al-Qaeda, fazendo com que os jihadistas pareçam espectadores ineficazes do momento histórico que ofereceu aos jovens muçulmanos uma alternativa atraente ao terrorismo.

"Até agora – e eu enfatizo o 'agora' – a situação parece muito ruim para a Al-Qaeda", disse Paul R. Pillar, que estudou terrorismo e Oriente Médio durante quase três décadas na CIA e agora está na Universidade de Georgetown. "A democracia é uma má notícia para os terroristas. Quanto mais canais pacíficos o povo tiver para expressar queixas e perseguir seus objetivos, menos provável é que apelem para a violência".

Se os líderes da rede terrorista esperam aproveitar o momento, eles têm sido lentos. Bin Laden tem mantido silêncio. Seu vice egípcio, Ayman Al-Zawahri, divulgou três declarações de seu suposto esconderijo na região de fronteira entre Paquistão e Afeganistão, que parecia estranhamente fora de sincronia com as notícias, não observando a saída do presidente Hosni Mubarak do Egito, cujo governo o prendeu e torturou em 1980.

"Derrubar Mubarak tem sido a meta de Zawahri há mais de 20 anos e ele foi incapaz de conseguir atingi-la", disse Brian Fishman, especialista em terrorismo da Fundação Nova América. "Agora um movimento não violento e não religioso, além de pró-democracia, conseguiu se livrar dele em questão de semanas. Isso é um grande problema para a Al-Qaeda".

Jihad

As revoluções árabes, é claro, continuam a se desenrolar, conforme o líder líbio Muamar Kadafi pede uma sangrenta defesa de Trípoli e o presidente do Iêmen Ali Abdullah Saleh negocia o poder. A quebra da ordem poderia criar refúgios para células terroristas, pelo menos por um tempo – um perigo que tanto Kadafi quanto Saleh impediram até então, ganhando a gratidão do governo americano.

"Há uma vantagem operacional para os militantes em qualquer lugar onde a lei e a segurança interna estão fracas e distraídas", disse Steven Simon, pesquisador do Conselho de Relações Exteriores e coautor de A Era do Terror Sagrado. Mas acima de tudo, disse ele, a evolução nos países árabes é uma derrota estratégica para a jihad violenta.

"Essas revoltas têm mostrado que a nova geração não está muito interessada na ideologia da Al-Qaeda", disse Simon. Para ele, as declarações de Zawahri são "desesperadas, se não patéticas".

Há evidências de que as revoltas encantaram alguns jihadistas. Um homem argelino associado a Al-Qaeda no Magrebe Islâmico, filial da rede no norte da África, congratulou as revoltas em uma entrevista no fim de semana e disse que muitos militantes estão retornando do exílio para juntar-se à batalha na Líbia, armando-se com armas tomadas do governo.

"Como o país está um caos e Kadafi está ajudando através de suas reações e ações para aumentar o ódio da população contra ele, será mais fácil para nós recrutarmos novos membros", disse o homem da Argélia, que usa o nome de guerra Abu Salman. Ele contou que os líbios e tunisianos que lutam no Iraque ou no Afeganistão agora consideram voltar para casa. "Há muito trabalho a ser feito", disse ele. "Nós temos de ajudar as pessoas a lutar e, em seguida, construir um Estado islâmico".

Abu Khaled, um jihadista jordaniano que combateu no Iraque com o líder insurgente Abu Musab Al-Zarqawi, sugeriu que a longo prazo a Al-Qaeda irá se beneficiar das esperanças frustradas. "No final, quanta mudança vai realmente acontecer no Egito e nos outros países?", perguntou ele. "Haverá muitos manifestantes decepcionados e é então que eles vão perceber qual é a única alternativa. Estamos certos de que tudo isso vai nos ajudar”.

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Crianças brincam em area residencial controlada por forces opositoras a Kadafi, em Benghazi, Líbia
Michael Scheuer, autor da nova biografia de Bin Laden e chefe da unidade Bin Laden na CIA na década de 90, acha que esse entusiasmo é mais do que ilusões. Scheuer disse acreditar que os americanos, incluindo muitos especialistas, têm ignorado dados das revoltas ao se concentrar apenas nos manifestantes seculares, ocidentalizados e que falam inglês que são mais atraentes para a televisão.

Para ele, milhares de muçulmanos foram libertados de prisões no Egito e a expulsão de Mubarak, inimigo da Al-Qaeda, vai ajudar a revitalizar todos os matizes do islamismo, incluindo a Al-Qaeda e seus aliados. "O talento de uma organização não é visto apenas na liderança, mas também em como ela se aproveita das oportunidades", disse Scheuer. Da Al-Qaeda e seus aliados, ele disse, "nós devemos esperar uma distribuição geográfica mais de ampla, além do provável crescimento do movimento e sua influência maior do que em 2001".

Obama

Se a Al-Qaeda enfrenta um momento incerto, o mesmo acontece com o governo Obama. Durante uma década os Estados Unidos têm se preocupado com o mundo muçulmano como uma fonte de violência terrorista – uma razão pela qual os governos Bush e Obama mantiveram relações amistosas com os governos autoritários que agora estão sob fogo.

Esse sempre foi um tema dominante da política americana de forma que até mesmo Kadafi, o líder líbio quixotesco e brutal que o presidente americano, Barack Obama, no sábado pediu para deixar o cargo, foi louvado por sua ação contra os jihadistas. Um dossiê da Embaixada dos Estados Unidos em Trípoli para a secretária de Estado Condoleezza Rice antes de uma visita em 2008 chamou a Líbia de "um parceiro forte na guerra contra o terrorismo", destacando a "excelente" cooperação de inteligência e, especificamente, louvando os esforços de Kadafi em impedir o retorno dos militantes líbios do Afeganistão e do Iraque e em "diminuir o apelo ideológico do islamismo radical".

Tais dividendos de cooperação com governantes como Kadafi agora são história, e isso não passou despercebido pela CIA, o Departamento de Estado e a Casa Branca. Como durante os ajustes adotados pelos Estados Unidos após a queda dos governos comunistas entre 1989 e 1991, os oficiais estão se esforçando para equilibrar a gestão de crises do dia a dia com a consideração de como a política americana deve se ajustar no longo prazo.

"Terá de haver uma grande reavaliação da forma como os Estados Unidos se envolvem com parte do mundo", disse Christopher Boucek, especialista em Oriente Médio pelo Carnegie Endowment for International Peace. “Temos de deixar claro que a nossa segurança não vem mais às custa da má governança e da falta de direitos para os povos desses países”, disse Boucek. ''Todos os pressupostos se foram".

*Por Scott Shane

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